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sábado, 14 de novembro de 2015

POR QUE VOCÊ FAZ CINEMA?



“Para chatear os imbecis (...) para viver à beira do abismo / para correr o risco de ser desmascarado pelo grande público / para que conhecidos e desconhecidos se deliciem / para que os justos e os bons ganhem dinheiro, sobretudo eu mesmo / porque de outro jeito a vida não vale a pena / para ver e mostrar o nunca visto, o bem e o mal, o feio e o bonito (...) para ser lesado em meus direitos autorais”

(Joaquim Pedro de Andrade /
Resposta musicada por Adriana Calcanhotto)

Eu achava que amor à primeira vista era coisa que não existia. Como Sereia no mar, São Jorge na lua ou gentileza no trânsito. Ou coisa raríssima, como chuva no sertão. Amor à primeira vista pra mim era extraterrestre – dizem que existe, eu quase acredito, mas nunca vi.

Aí a pessoa vai para o primeiro dia de aula da faculdade de cinema e audiovisual – sozinha, tímida, arisca. Ainda em dúvida. Quando o primeiro professor a aparecer na sala se chama Glauber, e o primeiro colega a se apresentar se chama Bergman, você começa a desconfiar de que está no lugar certo. Ou é pegadinha, ou alguma sintonia cósmica tá rolando. Não dá pra não se apaixonar.

As atividades vão acontecendo e você vai se envolvendo mais e mais. Percebe que tem à sua disposição professores incríveis, e incrivelmente acessíveis, professores envolvidos e empenhados como você nunca viu em cursos anteriores (e no meu caso não foram poucos, de faculdade de Direito a curso de saladas para iniciantes). Professores que parecem estar prontos para mudarem o mundo com seu cinema – e também com seus estudos, seu teatro, suas pesquisas, suas reflexões, sua arte... Discutindo questões globais, agindo localmente. Eles são ardilosos e te seduzem para o curso. Não tem como não se apaixonar.  

Oferecem oficinas para colocarmos logo a mão na massa, não tem como não se apaixonar. Organizam uma semana especial para os calouros, não tem como não se apaixonar. Os veteranos começam a mostrar suas produções, surpreendentemente boas, não tem como não se apaixonar. Levam você para fotografar às duas horas da tarde no centro lotado da cidade sob o sol de quase verão; não tem como não se apaixonar. Comentam das dificuldades do curso, limitações de estrutura, problemas da faculdade, mas aí já era – não tem como se desapaixonar.

Você chega se apoiando toscamente nas suas certezas – as minhas eram crítica cinematográfica e carreira acadêmica -, e é sugada por um jardim labiríntico das delícias: pode-se produzir, dirigir, editar, roteirizar, pesquisar, filmar, montar, fazer documentários, clipes musicais, animações, vinhetas educativas, vídeos publicitários (não, obrigada), séries, games, programas de TV, e, até mesmo, fazer cinema no curso de cinema. “Será que eu consigo?” Suas certezas tão bonitinhas são de súbito derretidas, como as películas de antigamente. Plantam-se dúvidas na sua cachola. Como não se apaixonar?

Não foi daqui de Conquista que saiu o cara com “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”? Os equipamentos podem ser poucos, mas estão inteiramente à disposição de nossa criatividade. Aliás, nunca foi tão fácil ter uma câmera na mão. Uma ideia na cabeça já não sei. Mas aí depende de cada um. A ideia a gente inventa, reinventa, desinventa, inventa de novo. A melhor eu já tive: vir estudar, ver e fazer cinema na Bahia!  

Mas para quê?



Para contar histórias mirabolantes. Para mostrar o mundo como ele é. Para mostrar o mundo como poderia ser. Para mostrar o mundo como eu gostaria que fosse. Porque “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain” ampliou meu olhar. Porque livro não tem trilha sonora. Para aprender a trabalhar com gente. Para inventar pequenas felicidades. Para experimentar por uns tempos a dor e a delícia de viver de arte. Para sonhar em preto e branco e com legenda de cinema mudo. Porque não é fácil. Para ter meu nome nos créditos finais, mesmo sabendo que ninguém lê. Porque o Cinema Novo existiu. Para amar ainda mais a literatura. Para dirigir um filme com Madê Prates. Porque precisamos de arte, sobretudo em tempo de barbárie e cinismo. Porque passei no SISU. Para escapar da vida de vez em quando. Para torná-la suportável. Porque Woody Allen me persegue. Porque fazer cinema é assim; assado é fazer cinema no interior do Brasil. Porque um dia vi “Ilha das Flores” e nunca mais fui a mesma. Sei lá por quê. Por que não?

Hoje é por isso. Daqui a tantos anos, outras respostas quererão se revelar. Estarei aqui pra escrevê-las. Menos deslumbrada; quiçá ainda mais apaixonada...

Meu lado cético tinha razão: amor à primeira vista é coisa de cinema!

***
Hendye Gracielle
Vitória da Conquista - BA
Desenhos, como sempre, surrupiados do blog do Gervasio Troche.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Breve relato das derradeiras emoções do ano que findou
- ou: O Natal da Cidade foi de lascar!!!


Fico indignado quando dizem que cachorro gosta de osso.
Só dão osso ao cachorro, depois dizem que ele só gosta de osso.
Ele adora comida como todo mundo.
Bote um osso e bote um filé para ver qual é que ele escolhe.
Não estão deixando a juventude brasileira entrar em contato com o filé.
Só estão lhe dando osso...”

(Ariano Suassuna, em aula-espetáculo a que assisti em Barbacena,
e em várias entrevistas e palestras que proferiu pelo país,
inclusive em Vitória da Conquista)

Uma tocante homenagem a um dos maiores intelectuais brasileiros, infelizmente recém ido para o céu – Ariano Suassuna –, com direito a instalações artísticas, projeção integral de palestra, murais de xilogravura, bonecos gigantes, exposição de livros.

Uma celebração de manifestações tradicionais, como Terno de Reis, e o incentivo a talentos locais, com concurso de cantores (“Por isso é que eu canto”) e abertura do palco principal para bandas e artistas da cidade.

Tudo isso em espaços públicos – praças e Centro de Cultura Glauber Rocha –, gratuito e aberto para a população, sem área vip, camarote ou cercadinho, só um espaço com cadeiras para quem quiser se sentar, e uma imensa área aberta pra gente ser feliz!

Bom, né? Agora acelera: uma festa da música com os melhores e mais incríveis/competentes/consagrados/inspiradores/delícias/supimpas artistas da música popular brasileira de todos os tempos, inclusive dos tempos de agora – em 2014 foram Paulinho da Viola, Zeca Baleiro, Fafá de Belém, João Bosco, Toquinho, Teatro Mágico, Ana Cañas, Yamandu Costa, Pereira da Viola, Marcos Valle, Roberto Menescal.

Isso tudo eu vi, com esses lindos olhos que a terra demorará a comer, no “Natal da Cidade”, evento anual que acontece em Vitória da Conquista/BA, e no qual, sempre que possível, eu “tô garrada”.

Desenho: Gevasio Troche


A visita ao Memorial, onde estava sendo homenageado Ariano Suassuna, é o início da minha incursão cultural de fim de ano. Ariano Suassuna dispensa comentários, né não? O espaço foi decorado com várias referências às obras e ideias do escritor, e abrigava também o já tradicional concurso de presépios. Eram dez presépios, alguns bastante inusitados, feitos com os mais variados materiais e concepções, dentre os quais uma oca de madeira, toda fechada, apenas com um grande “buraco de fechadura”, através do qual se entrevia a cena natalina; outro era um surpreendente set de cinema, no qual estava sendo filmado o nascimento de Jesus (salve a terra de Glauber Rocha!).

Agora os shows... Ixe (voltei de lá com esse “ixe”), ixe, os shows foram de lascar – que é o mesmo que “da porra” na Bahia, e “do caralho” no resto do Brasil, mas caralho e porra eu não gosto de escrever. Os shows, como ia dizendo, foram de lascar, mas vou falar só um pouquinho, só de alguns, pra não cansar.

Os shows... Teve samba, o melhor do samba, com Paulinho da Viola e suas lindezas: Pecado Capital, Coração Leviano, Foi um rio que passou em minha vida... “Há muito tempo eu escuto esse papo furado dizendo que o samba acabou / Só se foi quando o dia clareou”; essa ele não cantou, mas eu cantei, mentalmente, feliz da vida porque o samba existe e estava ali, ao meu alcance.

E teve a mágica do Teatro Mágico, provando que jovem gosta é de filé, se derem filé pra ele. Tantos garotos e garotas (e eu, essa garota de meia idade) cantando a tolerância, o amor, a amizade, o respeito, a luta por um mundo melhor; tudo sem pieguice, sem mesmice, sem mimimi, só com arte, figurinos, bailarinas, guitarras elétricas e um letrista fodástico. O Teatro Mágico é mesmo um espetáculo!

Fotografia: Hendye Gracielle

Teve mais. Dentro da minha cabeça, teve até revelações literárias... Foi no show de Marcos Valle. Tô ali ouvindo aqueles acordes complexos para letras que parecem tão simples, me deliciando, e num estalo entendo que a crônica é a bossa nova da literatura, ou que a bossa nova é a crônica da música, sei lá. Tudo bem, é possível que outros já tenham chegado a essa conclusão, mas para mim ela aconteceu ali, em pé no meio do público, ouvindo Marcos Valle e Roberto Menescal tocarem “O Barquinho” e “Samba de Verão”. É o cotidiano, a singeleza, a prosa pequena do dia-a-dia, a poesia descalça, despretensiosa, brincando de contar, de cantar. A crônica não tem o fôlego humanista dos grandes romances, assim como a bossa nova não tem as letras profundas da MPB, os sofrimentos dos boleros, os rasgos de voz das grandes cantoras, a rebeldia necessária do Tropicalismo. É simples, mas tocante, como um texto de Rubem Braga, um barquinho à deriva, um dia de sol na praia. Não sei se o mar vai virar sertão, mas ali naquele show o sertão baiano virou mar!

De tanta coisa que eu ainda poderia contar (mas calma, que não vou), teve principalmente o show de Toquinho, na noite de Natal. Esse show, o último do evento, resume bem o encantamento que senti nestes dias de festa e celebração (música boa emociona, né!?): foi encantador ver crianças na plateia cantando empolgadíssimas as suas músicas infantis, como “O Pato”, “A Casa”, “Aquarela”; foi emocionante ouvir a melodia requintada e a letra tão bonita de “O Caderno”, e perceber que se pode enxergar poesia e beleza em objetos prosaicos, e deles fazer metáfora de um curso de vida; foi uma delícia ouvir as grandes parcerias com Jobim, Chico, Vinícius...

No meio do show, Toquinho solando no violão, executando o instrumental de várias músicas, de repente começo a reconhecer a música clássica de Bach – “Jesus, alegria dos homens” -, que foi inacreditavelmente emendada nos acordes de “Asa Branca”, de Gonzagão. Encontro sublime do erudito com o cancioneiro, do clássico com o popular, do universal com o tradicional... Véi, isso é lindo! (Especialmente em épocas de veleidades separatistas de elites pseudo-requintadas, que adoram colecionar Rolex, tomar Chandon e descer até o chão-chão-chão em camarotes “all inclusive”...)


Uma imersão revigorante, esse meu final de ano na Bahia. E uma vontade imensa de que a arte encante muitas e muitas pessoas, cada vez mais, cada vez melhor. Além do “amor-saúde-paz-o-resto-a-gente-corre-atrás” de praxe, isto o que eu desejo em 2015: um ano repleto de arte e cultura; menos osso e mais filé para todos nós. 


Desenho: você já sabe

terça-feira, 23 de julho de 2013

Viagem a São Paulo – relato épico de nossos poucos dias



Ai de ti, Copacabana, porque eu já fiz o sinal bem claro de que é chegada a véspera de teu dia, e tu não viste. (...)

Assim qual escuro alfanje a nadadeira dos imensos cações passará ao lado de tuas antenas de televisão; porém muitos peixes morrerão por se banharem no uísque falsificado de teus bares. (...)

Canta a tua última canção, Copacabana!

(Rubem Braga – crônica Ai de ti, Copacabana)

(Fotografia de Bruno Lima)

Ai de mim, que não conheço Copacabana. E fui encontrar Rubem Braga em São Paulo – cidade antípoda de seu lirismo crônico –, pelo acaso de um passeio literário, escondido no Museu da Língua Portuguesa, em exposição que forrou de jornais antigos o primeiro andar do prédio moderno, e forrou de acalantos novos o primeiro vão de meu antiquado coração.

E deixei de conhecer o sol e o mar do Rio de Janeiro, e troquei-o pela oportunidade de banhar-me na garoa cinzenta de pecados e prestígios da cidade de São Paulo; e mesmo tomando o caminho contrário de seu habitat, acabei encontrando o cronista, e revi-o em vídeos, fotografias, livros e sonhos. 

E mesmo tendo partido para tão longe, ainda assim não pude fugir de mim mesma. E afastando-me mil quilômetros de meu cotidiano norte-mineiro, acabei por voltar a Montes Claros, numa crônica do velho Braga, por acaso folheada nos livros em exposição. E esta crônica citava também Cachoeiro do Itapemirim, terra natal do escritor. E emocionei-me de que estivéssemos ali todos juntos, eu, minha cidade, o cronista, sua cidade, e São Paulo, que foi o porto agregador dos rios de concreto desta viagem sentimental.

E saindo do prédio, e voltando à rua, e deslumbrada pela altivez da Estação da Luz, e querendo atravessá-la de ponta a ponta, entrei pela porta da opulência, defronte ao castelo encantado da Pinacoteca do Estado, e saí inadvertidamente pela porta da decadência; e, não sei se por distração ou por ingenuidade, não reconheci que havia ali mulheres de vida amarga e corpos postos em liquidação. Ai de mim, que nada conheço desta vida.

E indiferente às agruras desses habitantes submersos em fumaça, confortei‑me na companhia de pessoas queridas de minha vida, e vagamos pelas ruas do centro da cidade, em noite quase deserta, fascinados pelas construções dos primeiros séculos de sua existência; e sambamos pelos bares e botequins da Vila Madalena, em cuja boemia mergulhamos intrepidamente; e nos perdemos pelas avenidas labirínticas e viadutos medonhos; e perambulamos pelas vias subterrâneas de trilhos e estações, por prestigiados museus e livrarias da Avenida Paulista, pela metrópole hipnotizante, com seus edifícios que tocam o céu e seus miseráveis ao rés-do-chão.

Ai de ti, cidade de São Paulo, cosmópole deslumbrante de infortúnios e iniquidades e contradições; e ai de mim, porque me fascinas e me comoves ao infinito.

Hendye Gracielle
(Desenho de Gevasio Troche)
PS.: Na próxima semana, "Viagem a Paraty - relato lúdico de nossos poucos dias".

domingo, 28 de abril de 2013

Por que participo? - Crônica da luta cotidiana


“Faz escuro mas eu canto"
(Thiago de Mello)



Não tenho a ilusão de ver os meus ideais triunfarem neste mundo de indelicadezas e absurdos. Não tenho ilusões, entretanto luto.

Se não se pode consertar o mundo, pode-se mudá-lo. Se não se pode mudar o mundo, pode-se melhorá-lo. Se não se pode melhorar o mundo, pode-se melhorar a si mesmo. Se nada disso for possível, pode-se ao menos tentar. Tentar já é mais que não tentar, sendo, por si só, uma pequena vitória.

São as pequenas vitórias que têm tornado o mundo possível. Para todos, embora resultem do esforço de poucos. Impedir alguma injustiça é uma pequena vitória. Colaborar para alguma mudança é uma pequena vitória. Evitar um mal maior é uma pequena vitória. Respeitar e fazer‑se respeitar são pequenas vitórias. Agir conforme os valores nos quais se acredita é uma pequena vitória, e pode ser a maior delas.

Minha luta é coletiva. Minha responsabilidade, entretanto, é individual. Meu compromisso maior é comigo mesma: com meus próprios valores.

Meus valores de respeito à vida não me permitem ignorar o fato de que todos os dias indivíduos morrem e se acidentam a serviço da empresa em que confortavelmente trabalho. Meus valores de justiça social não me permitem aceitar que muito dinheiro tem sido dividido entre poucos, que no mundo nada criaram e ao mundo nada legarão. Meus valores de generosidade não me permitem aceitar que um serviço essencial à sobrevivência humana seja prestado com cada vez menos qualidade. Meus valores de respeito à dignidade humana não me permitem ficar indiferente sabendo que há colegas e ex-colegas sendo prejudicados; eu me importo, ainda que não seja comigo. Meus valores de solidariedade não me permitem deixar que poucos lutem, sem a minha colaboração, por uma causa que é de todos.

Por isso eu participo desta e de outras lutas. Participo porque, para mim, não existe outra opção possível que não seja fazer o bem. E fazer o bem é, também e sobretudo, não se omitir.

Para que o mal triunfe, basta que as
pessoas de bem permaneçam inertes.
(Edmund Burke)

Este poder! (Pra variar a ilustração, charge do Henfil)

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Feliz aniversário pra mim! (ou A Origem das Palavras)


Penetra surdamente no reino das palavras. 
Drummond


Comemoramos essa semana meu 26º aniversário. Um quarto de século ficou definitivamente para trás, e agora me sinto assustadoramente perto dos trinta. Nessa entressafra etária, surpreendi-me meditando sobre a vida; não sobre grandes feitos, até porque não os há em minha parca existência, mas sobre pequenos acontecimentos que ajudaram a fazer de mim essa (esquisitice) que sou. Nisso acabei descobrindo que algumas simples palavras têm lugar carinhoso nas pequenas memórias de minha vida. 

Nem só de livros se constrói o léxico sentimental de uma criatura como eu. Os amigos queridos são fonte inesgotável de conotações, denotações e, por que não, chateações sintáticas. Já fui xingada de culta pela Coração Gelado, e elogiada de pedante pela querida Pratinha. Meu amigo Johnny me falou uma vez sobre os perdigotos, e um mundo de gotículas de salivas saltitantes se descortinou para mim. A propósito, eu sempre duvidei da verdadeira existência da palavra perdigoto, até o dia em que li uma citação acadêmica sobre os perdigotos de ninguém menos que Drummond! Desde então eu passei a enxergar com mais lirismo as salivinhas brilhantes que as crianças expelem ao assoprar a vela do bolo de aniversário. Que a gente come depois!

No emprego de burocrata que ocupo desde os dezenove, aprendi também umas e outras, quase sempre palavrinhas insossas como diligência e contingência (monótonas até na rima). A turma do trabalho é que me salva do tédio vocabular. Os colegas inventaram para mim a classe gramatical dos diminutivos bilíngues: chamam-me Pequena Little Hendyezinha, quando, por algum motivo inescrutável, desejam me agradar. O mais comum, entretanto, é que me aborreçam para se divertirem, e com essa finalidade eles me atribuíram a alcunha de Hendyslaine Stefanelle, conseguindo superar minha própria mãe na (duvidosa) criatividade dos nomes próprios.  

Mas se minha mãe não foi lá muito feliz na escolha do prenome – digo isso aguardando a justa reprimenda materna que virá –, na formação do meu caráter ela foi sensacional. Perdoem se me excedo na imodéstia, mas é apenas em reconhecimento filial que digo: a educação que mamãe me deu é irrepreensível. Mais que palavrinhas bonitas, ela me ensinou valores, me ensinou respeito, me ensinou generosidade, e, de quebra, me ensinou Chico, Caetano, Elis. Só não me ensinou a cozinhar, de modo que palavras como gratinar, escumadeira, marinar, banho-maria, flambar, caçarola, são para mim tão incompreensíveis quanto as mais herméticas concepções filosóficas pós-modernas.



Não posso me esquecer dos vocábulos marcantes que me vieram pelos livros, repositório mágico da palavra escrita. O Pequeno Príncipe, por exemplo, indo-se embora de um dos planetas que visitou, ensinou-me o verbo evadir: “aproveitou, para evadir-se, pássaros selvagens que emigravam”, é o trecho que sei de cor. Apesar da origem pueril, mais tarde a palavra perdeu o encanto, pois topei com ela várias vezes nas lições de Direito Penal, cujo código mais parece um compêndio das mil e uma maneiras de um infrator se evadir, sendo o habeas corpus a menos emocionante delas.

Ainda na incipiência de minhas incursões literárias, aprendi com Agatha Christie o verbo pigarrear e outras palavras de similar elegância. Em suas histórias, bandido, mocinho, vilão, ninguém começa sequer uma frase sem antes pigarrear, solenemente. Nesses romances policiais ingleses aprendi também os mais elevados hábitos de civilidade: os assassinos matam sempre com muita polidez, e as vítimas morrem com uma pontualidade britânica.

A vida foi se complicando, e as leituras tornaram-se menos inofensivas, mas sempre irresistíveis. Com Drummond a poesia entrou no meu mundo, descobri o lirismo de Minas, da melancolia e da metalinguagem, e coisas tão díspares me pareceram igualmente deslumbrantes. Com Fernando Sabino descobri que se chamava angústia aquele sofrimentozinho que me doía a alma desde sempre. Com Manuel Bandeira descobri que essa tal de angústia não tem cura. Com Augusto dos Anjos, percebi que o que não tem cura é a própria vida. Mas a gente vive, e acha bom, enquanto houver literatura (e cerveja) pra anestesiar.

Foi este o assombro dos meus vinte e seis anos: além de carne e osso (e, vá lá, algumas células adiposas), sou feita também de palavras. Palavras que me vêm dos amigos, dos livros, da família, dos amores, da escola, do samba, do cinema, do rock, do cotidiano, do mundo. Que venham sempre muitas mais, palavras novas ou renovadas ou inventadas ou reinventadas, e por ainda muitos anos.  

Feliz aniversário pra mim!

Hendye Gracielle


domingo, 5 de agosto de 2012

Eu tive um futuro promissor




Trabalho em empresa estatal, pra não morrer de fome, e escrevo crônicas, pra não morrer de solidão.

A indecisão vocacional faz parte do meu curriculum vitae – trajetória de vida – desde minha pré-história, embora a consciência disso seja menos longínqua.

Folheando antigos cadernos, redescubro antigos sonhos de criança. Evidentemente estapafúrdios. Como o de ser pintora (de quadros impossíveis), escritora (de bula de remédios), até mesmo costureira (de trajes invisíveis), e, pasmem, advogada (de filme americano - mas já descobri que os tribunais cinematográficos superam com folga nossa insossa realidade forense).   

Houve um breve período em que quis ser webmaster. Aprendi sozinha a programar em linguagem HTML, e fiz dois ou três sites medianos, que ainda hoje navegam à deriva na rede mundial. Empolgada com a informática, frequentei até curso de montagem e manutenção de microcomputadores. O entusiasmo durou até o dia em que meus tímidos conhecimentos tornaram-se obsoletos. Foi bastante rápido, e é claro que não tive ânimo para acompanhar o frenesi da evolução cibernética. Eu ainda não sabia, mas já tinha em Macunaíma meu anti-herói inspirador: “Ai, que preguiça”.

De um extremo a outro, escrevi alguns poemas na adolescência, mas depois de um tempo julguei a temática pueril e a forma pouco revolucionária. Abandonei-os com afinco, e apenas minha avó sente falta daqueles rabiscos.

Cresci, quis ser jornalista, e fui cursar Comunicação Social na UFMG. O curso disponibilizava quatro modalidades de graduação, o que me fez mudar de opinião a cada quarenta e cinco dias. Entrei como jornalista, cogitei “relações públicas”, interessei-me por “rádio/TV”, mas seduziu-me a publicidade. Sendo esta última incompatível com meus ideais libertários, voltei para o jornalismo, definitivamente. Minha aventura acadêmica na metrópole durou até o final do semestre, quando tranquei a faculdade e voltei pra terra do pequi.

O motivo do meu retorno eu nunca soube com clareza, e a cada pessoa que me interpelava eu respondia algo diferente, pensado na hora e esquecido em seguida. Tudo verdade. Certamente houve várias motivações, algumas inconfessáveis. A saudade da família contribuiu, mas só a um amigo imaginário ousaria segredar tal fraqueza sentimental. Às vezes me convenço de que o motivo mais decisivo foi ouvir tantas pessoas dizerem que o jornalista tem a grande responsabilidade de entender de todos os assuntos. Meu fraco ânimo assustou-se com a perspectiva aterradora de saber de tudo um pouco, e escorei-me em Sócrates para elegantemente declinar da responsabilidade: “tudo que sei é que nada sei”. Argumento filosófico irrefutável, e foi o fim de (mais) um sonho.

Abandonado o jornalismo, voltei para cursar Direito na Unimontes. Nos dias úteis eu freqüentava as aulas; nos inúteis, elucubrava profissões que pudessem me resgatar daquele abismo jurídico em que voluntariamente me precipitei. Por razões felizmente esquecidas, pensei em estudar letras, psicologia, psicanálise, sociologia, biblioteconomia, as infinitas variações de engenharia, filosofia, ufologia e zen-budismo. Pensei até em fazer cinema, influenciada pelo Cinema Novo e pela resposta de Joaquim Pedro de Andrade à pergunta “por que você faz cinema?”:

“(...) para que conhecidos e desconhecidos se deliciem / para que os justos e os bons ganhem dinheiro, sobretudo eu mesmo / porque de outro jeito a vida não vale a pena (...)”.

Algo que fizesse minha vida valer a pena, era o que eu procurava. Em vão. É lamentável que não exista um Google para buscas existenciais; para isso temos apenas o divã do analista, que ainda não experimentei, com medo de me viciar. Nesse meio tempo, terminei a faculdade, e o caminho mais óbvio que se me apresentava era o dos concursos públicos de nível superior.

Sempre que penso em prestar novos concursos, sinto uma dor aguda um pouco abaixo da costela direita, que interpreto como prenúncio de tédio, mas acho que pode ser também sintoma de preguiça.

A única carreira jurídica que fez meus olhos brilharem foi a de diplomata, seguramente a menos entediante. Mas para ingressar na diplomacia, devem-se falar três línguas estrangeiras, obstáculo por ora intransponível: no meu inglês “the book is (still) on the table”. De outro lado, je ne parle pas le français, embora tome lições semanais do idioma, o que até agora só me ajudou a pronunciar o nome dos meus cineastas preferidos. E em espanhol sei apenas dois palavrões decorados dos filmes de Almodóvar. Menos cosmopolita do que eu gostaria, só domino mesmo a língua de Camões, ainda assim em parcos vocábulos. Como resultado, a diplomacia acabou virando objetivo de longo prazo, talvez daqui a duas encarnações.

Periodicamente volto a sentir uma inquietante vontade de fazer tudo. Às vezes basta esperar a vontade passar, às vezes não. Há um ditado preconceituoso segundo o qual “quem sabe, faz; quem não sabe, ensina”. Vai ver ao menos a mim ele se aplica, porque tenho freqüentado aulas de pós-graduação em docência, que me habilitarão a lecionar no ensino superior. Só pra completar a mixórdia. (Permito-me abrir um parêntese para dizer que, nem sempre, quem sabe mais, melhor ensina. A boa docência requer generosidade, paciência e didática, atributos  que não se confundem com o conhecimento, embora possam andar juntos – menos nas ciências jurídicas).

No fim de semana passado, minha tia Luciana, que trabalha na área da educação, ofereceu a minha prima vestibulanda um teste vocacional. Intrometi-me na conversa com meu tradicional entusiasmo (graficamente representado pela expressão “uh”):

“- Uh, Tia Lu, eu também quero o teste, pra ver se descubro o que fazer da vida!
- Uai, Grá, talvez você já até esteja no caminho certo.
- É, eu estou no caminho certo, só preciso achar a placa de retorno!”

Seguindo pelo atalho das incertezas, o maior risco que corro é o de ter como epitáfio aquela desencantada máxima anônima: “eu tive um futuro promissor”. Ou aquele poema de Leminski, variação menos lacônica do mesmo tema: “aqui jaz um grande poeta / nada deixou escrito / este silêncio, acredito / são suas obras completas”.

Ainda hoje poder-se-ia perguntar o que vou ser quando crescer. Não tenho a resposta, talvez nem chegue a compreender o alcance da pergunta. Nada sei de interrogações ou exclamações pragmáticas - os meus vinte e poucos anos têm sido pontuados por promissoras reticências...



sábado, 28 de julho de 2012

Crônicas da tenra infância – parte 3: em Paraty



Eu não tenho muita paciência com crianças, por isso me espanta a força com que esses episódios por elas protagonizados se arraigaram na minha memória sentimental. Tais momentos são furtivos; somente na distração encontra-se a leveza necessária para que aconteçam. Pegam-nos de surpresa quando nossas personas estão desnudadas. Foi o que ocorreu em minha viagem a Paraty, quando fui visitar a FLIP - Festa Literária Internacional – deste ano. Foi com um menino de rua que vivi a experiência mais poética da temporada.

Era tardezinha de sábado, estávamos haurindo os últimos momentos em Paraty, tomando um caldo verde com torradas em uma mesa de bar nas ruas do Centro Histórico. Era o ocaso melancólico de nossa incursão cultural. O menino aproximou-se de nossa mesa e perguntou se podia cantar. “Se você quer cantar, pode cantar”, respondi. “Mas tem que pagar”, ele redarguiu. Após acertamos o preço, porque nem mesmo o lirismo escapa às agruras do capital, a criança começou a cantar.

A cantoria era tão desentoada que imediatamente pedimos que parasse; ele receberia o acertado para fazer o favor de não cantar. Creio que o canto era penoso pra todos nós, inclusive pra ele, que pareceu satisfeito em silenciar. Sentindo-se convidado, sentou-se à nossa mesa e pegou uma torrada. Nesse mesmo momento eu também comia, e vendo-me molhar minha torrada no meu caldo, com naturalidade pegou sua torrada e a mergulhou na minha tigela.

Não foi petulância, não foi grosseria. Foi com a naturalidade de uma criança que vê algo que parece bom e quer prová-lo; que imita um gesto sem extrapolar-lhe o sentido. Até as pessoas da mesa ao lado sorriram com a cena. Aquilo me enterneceu, achei até mesmo generoso de sua parte que ele repartisse comigo minha própria refeição.



Eu tenho a estranha mania de pensar em poesia nas horas mais insólitas, e quando menos percebo, estou a recitar mentalmente poemas decorados, como uma trilha sonora para as cenas de um filme: a trilha literária para as cenas da vida real. A existência concreta de menino faminto não cabe no poema, mas foi em Drummond – homenageado da FLIP - que busquei o único verso que poderia traduzir o que senti vendo os gestos de inocência daquela criança: “a poesia desse momento inunda minha vida inteira”.

Esse episódio singelamente marcou minha viagem, e tem acompanhado a narrativa das demais peripécias da FLIP, feitas a quem pergunta como foi o passeio. Nessas horas, meus interlocutores ouvem meu relato, mas é pena que não ouçam a trilha literária que passa na minha cabeça ao falar dessa criança, que na minha lembrança tem o rosto de tantas outras com quem cruzo nas ruas da cidade:

“Em casa de menino de rua
O último a dormir apaga a lua”

(Giovanni Baffô)

Ao menino de Paraty dedico essas linhas de memória afetiva e a trilha do ato final.

***

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segunda-feira, 23 de julho de 2012

Crônicas da tenra infância – parte 2: em família




O comovente não advém apenas do sublime; é principalmente nas peraltices que se revela a pureza infantil.

Já faz parte da nossa mítica familiar certo episódio da época em que meu primo Nilo não passava de uma pessoinha de poucos anos, sempre de polegar na boca e indicador no nariz, contando lorotas imaginárias. Sentado de onde estava, aborrecido com a amolação da minha tia, ele virou-se pra ela e disparou: “Tia Flávia, seu cu tá xumegano, friviano e brubuiano!”.

Minha avó, que presenciou a cena, em vez de corrigi-lo, pôs-se a rir; realmente difícil reprimir a malcriação, quando o xingamento é tão inventivo!

Inventividade, aliás, é o que não falta na família desse meu primo. A começar pelos nomes dos irmãos. Nenhuma professora de português me deu exemplo mais feliz do que seja concisão, do que a minha Tia Marinah, ao escolher o nome dos filhos: Nilo, Caio, Siro e Isa.

Nomes curtos, simples e fortes. Não darão trabalho para digitadoras de formulários, nem serão motivo de chacota em cadastros de órgãos públicos. Eles não serão incompreendidos ao telefone, tendo de repetir o nome várias vezes, e ouvir em resposta as versões mais estapafúrdias de pronúncia. (As Hendyes Gracielles da vida que o digam.)

Apenas o nome de Isa pode causar alguma confusão. Será Isa o apelido de Isabel, Isadora, Isaltina, Isolda? Nada disso, Isa é nome mesmo. Se o nome é curto, apenas 3 letras, o apelido que lhe damos é ainda mais econômico: I. Só pode ser fruto do que eu chamo de preguiça fonética, umas das 142 modalidades de preguiça que nos afligem.

O parentesco colateral continua a me render boas memórias de criatividade gramatical. É meu primo Siro quem protagoniza esta outra, quando era ainda um pirralho com cara de lagartixa. Estávamos na roça, e ele me pediu pra pegar algo que estava fora do alcance de sua pequena estatura. Eu também era criança, e não sei por qual motivo maligno não quis atendê-lo, e simplesmente lhe disse: “se vira!”. Sei que a malvadeza rendeu bons frutos, porque ele deu um jeito de conseguir o que queria, e ainda veio todo triunfante me dizer: “SE VIREI!”.

Só posso dizer que poucos tropeços linguísticos me inspiram tão ternas memórias!

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PS.: quando Isa e Tia Flávia viram essa postagem, disseram que esqueci de falar de Caio. Realmente eu sou meio esquecida, e ele é meio desaparecido: a combinação resultou em lacuna, evidentemente involuntária.

É claro que ele também tem lugar especial nas minhas memórias de infância. Pelo menos uma façanha nós aprontamos juntos: “roubar” o carro de Tio Rui para tentar dirigir nas ruas de Engenheiro Navarro (tudo bem, eu aprontei, ele foi o cúmplice-mirim). 

Mas a melhor é esta: Caio estava sozinho na casa de Vó, e resolveu ir embora. Antes de sair, porém, ele foi responsável o bastante para não deixar a casa aberta, à mercê de hipotéticos malfeitores. Trancou a porta e colocou a chave debaixo de um vaso de flores. Quando chegamos, havia um bilhete na porta da rua, dizendo: “Vó, tive que sair. Deixei a chave debaixo do vaso de flores. Cacá”. 

Ainda que um “amigo do alheio” tivesse vindo nos surrupiar naquela tarde, é possível que, lendo o bilhete, desse meia volta e partisse de mãos abanando, comovido com tamanha inocência juvenil.

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quarta-feira, 18 de julho de 2012

Crônicas da tenra infância – parte 1: no cinema



Antes que alguém me desmascare, vou logo confessando: não sou muito fã de criança. Desde que cresci. Não me faça essa cara de espanto (ou comiseração); não me orgulho disso, mas também não me envergonho. Ilustres pensadores concordam comigo. Veja lá, na última edição do Aurélio: “criança: s.f.; eufemismo para pestinha, em geral catarrento, cuja existência objetiva fazer do mundo o lugar mais barulhento possível”. Principalmente o mundo lá perto de casa.

Há quatro anos, contudo, o surgimento de um afilhado em minha “vidinha mais ou menos” apaziguou um pouco essa rabugice. Não há franzir de testa que resista à ternura de ouvir dizer “Dindinha”, mesmo que a palavra seguinte seja “urubu”. Eu comecei a achar lindo ouvir palavras incompreensíveis e ver desenhos estrambólicos de mim mesma, do tipo em que só se distinguem dentes e cabelos (devidamente embaraçados).



Eu já tinha ouvido contarem, ou visto na televisão, cenas em que a pureza infantil apaziguava por instantes esse mundo tão hostil. Sentimentos pueris abrindo brechas na sequidão da vida cotidiana. 

A primeira vez que vivenciei uma dessas situações verdadeiramente sublimes envolvendo uma criança foi, claro, com meu afilhado. Fomos ao cinema para assistir a um desenho em 3D. Era sua primeira vez, mas eu não sabia. Entramos, colocamos os óculos, acomodamo-nos. Após alguns minutos observando atentamente as imagens, ele levanta os bracinhos e mãos inquietas, e inocentemente tenta agarrar a imagem que flutua diante dos seus olhos.

Simplesmente isso: sorrindo de fascínio pela mágica do que via, ergueu os braços e mexeu as mãozinhas, tentando tocar as imagens que vinham em sua direção.

Ali no cinema, na companhia do meu afilhado, tive vontade de parar o tempo e conservar essa espontaneidade, essa ingenuidade de gestos, esse deslumbramento que vi em seu rosto iluminado. De forma tão espontânea tenta agarrar o irreal, o sonho, a magia, a fascinação.

Após o filme, me veio à memória um poema de Manuel Bandeira, e desde então não consigo evitar recitá-lo mentalmente, sempre que me lembro daquele dia:

A criança olha
para o céu azul.
Levanta a mãozinha,
Quer tocar o céu.

Não sente a criança
Que o céu é ilusão:
Crê que o não alcança,
Quando o tem na mão.

Parece-me que tanto o poema como o episódio no cinema, cada qual a seu modo, ilustram os mesmos traços de puerilidade, ingenuidade e contemplação, pelos quais a criança naturalmente se deixa guiar. Ela tenta provar o que seus olhos vêem: ainda não sabe que as coisas nem sempre são o que aparentam ser. Toma por mágico o que é ilusão, e fascina-se desmedidamente. 

Também eu me fascinei, e fui criança naquele momento: deixei-me levar pela surpresa, pela empolgação, pela admiração, e não tive pudor em deslumbrar-me. Aquele momento singelo causou-me uma comoção tão profunda, que compreendi empiricamente o que se pode chamar de sublime.

Talvez ainda haja remendo para minha rabugice; talvez a criança que fui ainda tenha salvação.


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domingo, 6 de maio de 2012

“Por isso temos braços longos para os adeuses”



Essa semana o pai de um querido amigo faleceu, e eu me vi sem palavras que pudessem confortar sua dor e demonstrar meu pesar.

Lancei mão de um poema de Vinicius de Moraes, que relera há poucos dias, sem saber que estaria próximo o infeliz momento de empregá-lo. Na ocasião, apenas achei-o sublime.

Lembrando do poema, senti-me satisfeita por ter o livro na estante. Em vez de empreender uma mecânica e fria busca no Google, com o livro em mãos pude folhear suas páginas à procura do poema, o que proporcionou ao momento a intensidade que ele merecia. E pude transcrevê-lo de próprio punho da página ao cartão, materializando meus sinceros pêsames com o cuidado e a delicadeza que meu amigo com toda certeza merece de mim e do mundo.

POEMA DE NATAL
(Vinicius de Moraes)

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos –
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

(...)

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte –
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.


Escrevi os trechos acima, e só então tive a profunda compreensão da beleza e da imensidão dos dois últimos versos, os quais eu sabia de cor, mas não de coração. Acho que a beleza do poema conforta, e a redenção dos últimos versos traz esperança aos que crêem. Não uma vã esperança de impedir a morte, posto que já consumada, mas de transcendê-la.

E me senti, de certa forma, aliviada pela compreensão ter surgido do luto alheio.
E um pouco culpada pela sinceridade do pensamento.


Hendye Gracielle
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PS.: está na página 88 do livro “Nova antologia poética”, de Vinicius de Moraes. Edição da Companhia de Bolso, os poemas foram selecionados por Antônio Cícero e Eucanaã Ferraz.

Sou grata à querida colega Luana, que me presenteou com o livro por ocasião de minha formatura, com a gentil dedicatória: “És preciosa aos meus olhos”. Que delicadeza!