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quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Jeitinho "homo sapiens" de ser

Ao ensejo de minha mudança de emprego, uma cronicazinha que achei esquecida na gaveta...

Causos verídicos do milenar ofício de cobrador
- Ou: “jeitinho homo sapiens de ser”

“O aumento da inadimplência da Caixa Econômica Federal no primeiro trimestre deste ano já é um reflexo das dificuldades que o banco estatal enfrentará até o primeiro semestre de 2015”. (Folha de S. Paulo, 22 de maio de 2014)

“A Caixa Econômica Federal prevê queda em seu índice de inadimplência neste segundo trimestre (...)”. (Agência Reuters de Notícia, 22 de maio de 2014 – mesmo dia)

Dizem ser o meretrício a profissão mais antiga do mundo, do que eu modestamente discordo. Antes de se cuidar das aflições da carne, o mais provável é que se tenham cuidado das aflições do bolso, mesmo naquela época em que estes não existiam, por andarmos nus. Do mais remoto episódio registrado nos anais da história humana, diz-se que a serpente ofereceu a maçã àquela notória estreante do gênero feminino, mas omite-se o fato de que essa mesma serpente era, além de víbora mexeriqueira, uma contumaz devedora nas transações comerciais que se operavam no Paraíso. Há fartas provas, embora apócrifas, de que dona Serpente tinha por hábito dar calote no vendedor de maçãs, além de manter-se inadimplente quanto à maior parte dos serviços essenciais prestados no Jardim Sagrado – gás encanado, telefone, água, fiat lux. Se até os répteis eram notórios devedores no Éden, o mais provável é haver por lá também os respectivos cobradores, a lhes oferecerem diariamente paradisíacas propostas de negociação.

De outra parte, mais científica e menos sacrossanta, renomados centros de pesquisa arqueológica de Harvard e Cambridge apresentaram evidências de que na pré-história a atividade de cobrador já era largamente exercida, consoante comprovam pinturas rupestres nas quais constam imagens de indivíduos de dedo indicador em riste, supostamente negando a existência da dívida a eles imputada. Os pesquisadores descobriram, ainda, uma bem conservada pintura de um animal silvestre sendo repartido em sessenta pedaços iguais, com juros de 1% a.m., o que vem sendo considerado o primeiro parcelamento de que se tem notícia na história da espécie humana. Certo é que, neste ofício milenar e ao mesmo tempo contemporâneo de cobrar dívidas que aqui se fazem e não se pagam, atuam dois tipos básicos de seres, ambos interessantíssimos: de um lado o distinto senhor cobrador; de outro lado, o (não menos distinto) senhor devedor. Vamos a eles.

(Ilustração, como sempre, surrupiada do Gevasio Troche)
A bat-equipe do bat-local onde trabalho dá boas mostras do que vem a ser essa diversidade de tipos, já que a principal atividade do setor é o combate à inadimplência, cobrando dívidas de todo o estado de Minas Gerais.  Pra começar, contamos com dois negociadores nordestinos: Ceará e Paraíba. Com tanto cabra arretado, de vez em quando a negociação vira um “risca‑faca” que sobra até pra quem já é “defunto morto”, como se diz por aí. Certo cliente, ao ser cobrado, argumentou que o seu pai, titular da dívida, já não estava entre os vivos:
- “Mas papai já faleceu”.
Ao que Ceará imediatamente rebateu:
- “Pois vamos resolver logo a situação porque senão pode dar problema pra ele!”.
Problema maior do que já ter morrido? Só se for pendência no SPC do além! Eu, ein!

Se os negociadores são do tipo “risca-faca”, as negociadoras são do tipo “top‑model”. Encantadoras na arte de negociar, o inadimplente não apenas quita a dívida como fica fã da cobradora. Uma colega, que atende pelo codinome de Gisele Bündchen, vive recebendo elogio dos clientes, e há suspeita de que alguns até se tornam reincidentes, para receberem novamente sua ligação. Uns pagam sem pestanejar, outros oferecem alguma resistência, logo vencida. Um deles insistiu para que ela abaixasse um pouquinho mais, mas a resposta foi categórica: “eu só posso abaixar dentro das regras, meu senhor!”. É claro que eles estavam se referido ao valor da cobrança... Com tanta simpatia, das senhoras inadimplentes Gisele vira amiga de infância em dois minutos. Dos senhores devedores, já recebeu algumas propostas de casamento, mas recusou todas, porque maus pagadores não fazem seu tipo. Na verdade, ela está à espera do cliente encantado que a leve pra Dubai, com tudo pago (à vista e sem desconto, evidentemente!).

Também entre os clientes encontram-se os mais variados tipos, do “advogado-embromeixon” ao “rebelde‑sem‑causa”, passando pelo já clássico “não-devo-não-devo-não-devo-mas-cê-parcela-pra-mim?”. E aparece sempre o cliente “Datena”, paladino da moral a esbravejar impropérios:
- “Não devo nada! É um absurdo! Chama as autoridades!”.

De vez em quando topamos com o tipo “surdo de conveniência”:
“- Alô! Bom dia! É o José da Silva?”
“- Bom dia, sou eu sim!”
“- Tudo bem? Estamos ligando pra negociar uma dívida.”
“- Ein?”
“- Negociar uma dívida!”
“- Alô, alô... não tô ouvindo nada!”.

Já apareceu até cliente com crise de personalidade:
“- Alô! É dona Maria?”,
“- Sim. Sou eu”,
“- Tudo bem, dona Maria? Estou te ligando pra negociar uma dívida”,
“- Você quer falar com quem?”
“- Com a senhora mesmo. A senhora não é a Dona Maria?”,
“- Não. Nunca ouvi falar dessa pessoa!”.

Sem contar os mortos-vivos:
“-Aqui é do setor de cobrança, gostaria de falar com o sr. Raimundo”,
“-Tô acabando de voltar do enterro dele”.
Ligamos de novo dias depois, e foi o próprio Raimundo que atendeu. (Depois dessa, estamos cogitamos entrar para o ramo da cobrança mediúnica).

Alguns devedores fazem de tudo e mais um tiquinho pra se esquivar do pagamento da dívida. Mas a inventividade dos cobradores não fica pra trás; fazem um tiquinho e mais um tudo pra receber. Argumentos sensacionais não faltam para ambos os lados – deve ser o que o povo chama de “jeitinho brasileiro”, mas eu chamo de “jeitinho homo sapiens de ser”. Se criatividade pagasse conta, a inadimplência desta espécie já estaria abaixo de zero...

Hendye Gracielle

sábado, 4 de janeiro de 2014

Reflexões de ano novo: A vida tem mais fases que o jogo do Mário Bros


“Aos 20 anos, eu sabia latim, mas não sabia tomar um bonde.”
(Carlos Heitor Cony)


Você percebe que está se tornando verdadeiramente uma dona-de-casa quando as suas resoluções de ano novo começam a ficar diferentes. Nada de “economizar para a viagem dos meus sonhos”, “estudar para o concurso da Receita Federal”, “fazer matrícula na academia”. Neste ano novo eu me flagrei fazendo planos assim: “não deixar acumular louça suja por mais de uma semana”; “limpar o banheiro antes de começar a feder”; “fazer as compras da semana pelo menos uma vez ao mês”; “tirar o lixo ao primeiro sinal de seres vivos dentro dele”.

Quando a pessoa sai da casa dos pais e vai morar sozinha, ela usa seu senso comum pré‑adquirido em novelas da TV, comédias românticas do cinema, blogs da internet e gibis da Turma da Mônica, medita dois minutos sobre o assunto e acha que está preparada para assumir sozinha todas as responsabilidades de uma casa e da própria vida. Todo mundo conhece esta matemática: das vinte e quatro horas do dia, eu trabalho oito, durmo oito, sobram mais oito horas para o resto. Isso é mais que suficiente pra cuidar da arrumação da casa, da higiene pessoal e ainda sobrar umas horinhas, no fim de semana, para o lazer. Pronto, a pessoa se acha preparada para a lide doméstica, arruma sua trouxa e – trouxa! – vai saltitante enfrentar o mundo.

Não nego que morar longe dos cuidados da mamãe seja ótimo para o amadurecimento pessoal, o fortalecimento do caráter, o crescimento do espírito. Principalmente se a mamãe continua disponível pra te receber de vez em quando, te fazer uns afagos e uma marmitinha quente pra você comer no almoço. Sendo assim, nada de arrependimentos. Mas isto é inegável: ao sair de casa, ninguém está totalmente ciente do que a vida nova lhe reserva.

E os desafios vão sendo surpreendentes. Você sabe que tem de tirar o lixo regularmente, mas só quando começam a aparecer umas minhoquinhas brancas do lado de fora do saco plástico é que você percebe que precisa lavar a lixeira de vez em quando. Você sabe que tem de fazer limpezas periódicas nos cômodos, mas não se lembra da sua mãe tendo de expulsar todo dia os insetos que entram na sua casa toda noite, sabe-se lá por onde. Você nunca havia se dado conta de que sujava tanta roupa, de que o gás acabava tão rápido, de que as vasilhas de plástico que você tem nunca cabem no espaço reservado a elas. Você não fazia ideia de que precisava descongelar o freezer de vez em quando, afinal nunca viu num filme o mocinho tentando abrir a porta presa pelo gelo, ou a mocinha limpando as grades da geladeira. E, acima de tudo, você se sente só: não tem outra pessoa pra lidar com o síndico, o encanador, o eletricista, a moça do censo, o vendedor de enciclopédias e o cachorro do vizinho. Agora é com você!

Você enfrenta isso tudo e vai se tornando mais confiante. Depois de três anos e meio, vai até gostando. Mesmo assim, tomei um susto quando me dei conta de que as necessidades domésticas invadiram meus planos de ano novo. Aprender a me virar sozinha foi importante, mas sempre me bate um medinho de ser dona-de-casa até demais. Acho que gostava de ser do tipo “pseudo-intelectual-pedante-displicente” do que “dona-de-casa-ex-desleixada-quase-exemplar”. Talvez seja só uma fase, dentre tantas que foram e que virão (a vida tem mais fases que o jogo do Mário no SuperNintendo). Hoje, quando passo por algum shopping center, o que mais ocupa o meu tempo e leva meu dinheiro ainda são as livrarias. Mas – perigo! – as lojas da Tok & Stok já estão em segundo lugar...

 
(Ilustração: Gervasio Troche)


***
Posfácio absolutamente inútil:

Ela: “Que delícia, adorei a crônica! Mas deixa eu te dar uma dica, só pra atualizar.”
Eu: “É sobre o vendedor de enciclopédias”?
Ela: “Não. É que as fases do Mário são extremamente limitadas se você já jogou AQW.”
Eu: “Hein?”
Ela: “Esse é um jogo que meus meninos jogam. Não acaba. Simplesmente.”
Eu: “Ah, mas não é o jogo que EU joguei”.
Ela: “É mesmo! Óbvio que quem tá na fase de dona de casa se lembra é do Super Mário mesmo!”
Eu: “Mas eu não poderia dizer que a vida tem mais fases que o AQW...”
Ela: “Por quê?”
Eu: “Porque a vida acaba!”
Ela: “Credo. Até numa crônica tão fofa você consegue vir falando, ainda que nas entrelinhas, sobre a efemeridade da vida!!!”
Eu: “O.o”

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

É bom quando a elite mostra sua cara



É bom quando a elite brasileira mostra a sua cara. Nos episódios mais recentes da badalada cena política nacional, a elite brasileira assumiu a alcunha de Classe Médica. E esteve muito bem representada pelos indivíduos que foram aos aeroportos hostilizar os novos médicos entrantes no país. Não há que se falar numa “pequena parte”; foi uma amostra representativa da classe representada, assim como os políticos que ascendem a Brasília são uma amostra representativa, em seus laivos de usura, dos valores arraigados na população que eles representam (sim: nós, o povo).

“O todo sem a parte não é todo
A parte sem o todo não é parte
Mas se a parte o faz todo, sendo parte
Não se diga que é parte, sendo todo
(Gregório de Matos)

Ficou difícil? Assim: Brasília é o nosso espelho; os habitantes de seus gabinetes são uma parte do todo que é a nossa população, e espelham os valores médios (ou medíocres) de nossa própria sociedade. Assim também: o jornalista que escreveu sobre “médica com cara de empregada doméstica”, os senhores de branco que chamaram de escravos os médicos cubanos, e outros exemplos ad infinitum, são um espelho da elite – branca, rica e heterossexual (fora de casa, pelo menos) – que sempre ocupou os espaços de prestígio na sociedade. O exercício da medicina é um desses espaços, mas há outros, como o dos industriais, grandes empreiteiros, latifundiários, magistrados... Ousassem incomodar a uma dessas classes, e veríamos cenas semelhantes, diferindo apenas o traje branco pelo de terno e gravata, ou pela bota e espora. Ou talvez com um pouco mais de discrição: não dariam a face a tapa, usariam para tanto lobistas de bastidores. Por isso é que é bom quando a elite brasileira mostra a sua cara.

A falta de recursos para o sistema público pode ser o principal fator do problema da saúde no Brasil (ou melhor, o dinheiro é muito, porém muitas mais são as torneiras de desvio da fonte até a foz). Isso, entretanto, não deveria eximir os médicos de bem exercerem o seu mister. Um médico recém-formado não pode dedicar dois anos de sua promissora vida profissional para atuar compulsoriamente no SUS (sendo remunerado para isso, entenda-se bem)? Não pode perder o brilho de seu status passando alguns anos no insosso interior do Brasil, a não ser por um salário que exorbite do padrão razoável de remuneração profissional? Não se pode adiar por algum tempo o rentável retorno do investimento que papai fez nas mensalidades das faculdades privadas, ou nos cursinhos preparatórios para as faculdades públicas? Talvez o problema seja a concepção da medicina como um investimento, não como um compromisso ou vocação.

“A praça é do povo / como o céu é do Condor.
É o antro onde a liberdade / Cria águias em seu calor!”
(Castro Alves)

Quando a Medida Provisória 621/2013, que institui o Programa Mais Médicos, ainda estava em discussão, um representante do Conselho Regional de Medicina foi ao jornal local de nossa pequena cidade vituperar contra a proposta. Foram concedidas todas as atenções aos argumentos do distinto senhor; questionado, entretanto, sobre quais seriam as alternativas para os problemas que deram origem à norma, não soube dizer. Ajustadas as proporções, creio que ainda se aguardam as sensatas contribuições que o Conselho Federal de Medicina possa dar aos debates políticos do setor.

A este propósito, interessante notar que antes das prolíficas manifestações populares que envolveram o país nos últimos meses, não se viam os médicos saírem às ruas para protestar por avanços na saúde pública brasileira. Mas alto lá, não sejamos injustos: não só os médicos, mas também outros grupos historicamente conformistas, tiveram surpreendentes surtos de militância nos últimos meses, embelezando a estampa das manifestações que tomaram as ruas do Brasil. A praça é do povo, como o céu é do Condor, mas doravante há de se delimitar uma área VIP, com sombra e água fresca pra quem não está acostumado ao calor de 40° do sol de todos os dias.

É cômodo pegar o bonde já em movimento: às vezes, não se trata de lutar por melhores condições de vida para todos, mas de garantir a manutenção da reserva de mercado já existente. Não há novidades; é postura típica dos caras-pálidas das superiores castas tupiniquins, de que a maioria dos médicos é uma pequena parte, não o todo.

“Minha terra tem palmares 
onde gorjeia o mar (...)
Minha terra tem mais ouro
Minha terra tem mais terra”
(Oswald de Andrade)

O todo é a mesma elite, por exemplo, que se diz vítima de preconceito porque não se enquadra em nenhuma cota instituída pelo governo. A reclamação, a bem da verdade, tem fundamento: quem sempre teve a cota total dos privilégios, públicos e privados, não vai mesmo gostar de dividir o espaço com essa gente pobre, negra e deficiente que se cansou de Palmares e quer tomar o Brasil. E imagina quando, das universidades públicas brasileiras, começarem a sair bacharéis com cara de empregada doméstica, com cara de escravo, com cara de cubano, com cara de Brasil. Você sabe com quem está falando? Vai ficar mais difícil saber.

Pensando bem, solidarizemo-nos com as alvas criaturas que terão seus empregos usurpados pelos doutores estrangeiros. Tadinhos! Deve ser mesmo muito difícil ser “bem nascido” num país excludente como o nosso. São as lamúrias de uma elite que pensa que é dona do Mundo – e do Brasil, por extensão.

Hendye Gracielle
(tentando aprender com Oswald de Andrade a não ter medo de polêmica)

domingo, 28 de abril de 2013

Por que participo? - Crônica da luta cotidiana


“Faz escuro mas eu canto"
(Thiago de Mello)



Não tenho a ilusão de ver os meus ideais triunfarem neste mundo de indelicadezas e absurdos. Não tenho ilusões, entretanto luto.

Se não se pode consertar o mundo, pode-se mudá-lo. Se não se pode mudar o mundo, pode-se melhorá-lo. Se não se pode melhorar o mundo, pode-se melhorar a si mesmo. Se nada disso for possível, pode-se ao menos tentar. Tentar já é mais que não tentar, sendo, por si só, uma pequena vitória.

São as pequenas vitórias que têm tornado o mundo possível. Para todos, embora resultem do esforço de poucos. Impedir alguma injustiça é uma pequena vitória. Colaborar para alguma mudança é uma pequena vitória. Evitar um mal maior é uma pequena vitória. Respeitar e fazer‑se respeitar são pequenas vitórias. Agir conforme os valores nos quais se acredita é uma pequena vitória, e pode ser a maior delas.

Minha luta é coletiva. Minha responsabilidade, entretanto, é individual. Meu compromisso maior é comigo mesma: com meus próprios valores.

Meus valores de respeito à vida não me permitem ignorar o fato de que todos os dias indivíduos morrem e se acidentam a serviço da empresa em que confortavelmente trabalho. Meus valores de justiça social não me permitem aceitar que muito dinheiro tem sido dividido entre poucos, que no mundo nada criaram e ao mundo nada legarão. Meus valores de generosidade não me permitem aceitar que um serviço essencial à sobrevivência humana seja prestado com cada vez menos qualidade. Meus valores de respeito à dignidade humana não me permitem ficar indiferente sabendo que há colegas e ex-colegas sendo prejudicados; eu me importo, ainda que não seja comigo. Meus valores de solidariedade não me permitem deixar que poucos lutem, sem a minha colaboração, por uma causa que é de todos.

Por isso eu participo desta e de outras lutas. Participo porque, para mim, não existe outra opção possível que não seja fazer o bem. E fazer o bem é, também e sobretudo, não se omitir.

Para que o mal triunfe, basta que as
pessoas de bem permaneçam inertes.
(Edmund Burke)

Este poder! (Pra variar a ilustração, charge do Henfil)

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Histórias da carochinha: amigos em Diamantina




Hoje vou falar dos meus amigos. De três, em especial, com quem viajei para Diamantina semana passada. O “Macho Jurubeba”, o “Cara Leve” e a “Coração Gelado”. Não será necessário descrevê-los por perfis psicológicos, características físicas, feições morais. A apresentação será episódica, e logo se lhes conhecerá a alma. Vamos a eles.

O Macho Jurubeba é macho de raiz. Não tem as grosserias do macho alfa, mas não está sob suspeita como o macho metrossexual (embora desconfiemos que ele faz a sobrancelha, mas apenas pra aliviar o peso das pestanas). Ele é fino, mas nem sempre delicado. Ele é engomadinho e limpinho, mas se for preciso anda descalço e come com a mão. Ele é um cavalheiro, mas divide a conta do restaurante, por questão de isonomia constitucional. Ele me censura por usar sacolas plásticas, e pela janela só joga lixo orgânico, que é pra adubar a mãe natureza (embora eu já o tenha explicado que no asfalto nada germina). Ele liga para os pais ao sair e ao chegar. Ele tem um jurubeba móvel, que nos levou até Diamantina. Ele dirige dentro dos limites de velocidade, porque é cioso de nossa segurança. Por isso é que, no primeiro dia, só vimos de Diamantina o sol vespertino, conquanto tenhamos acordado cedo para a viagem. O Macho Jurubeba não se excede em público, porque acha que tem uma reputação a zelar.

Quase um antípoda do Macho Jurubeba, temos a querida Coração Gelado, com quem dividi o quarto do hotel. Nem bem fechamos a porta, ela já espalhou seus pertences pelas três camas disponíveis, zombando da minha necessidade de organização, com seu peculiar: “ah, você é trouxa!”. Com ela no quarto, tive de dormir com o barulho da TV e acordar com o barulho do celular – na sonolência pensei que tinha sido abduzida por uma discoteca voadora não identificada, mas depois descobri que era só o despertador. Nisso tudo, ela nem se abalou, e só depois que eu carinhosamente arremessei o aparelho na sua direção é que Coração Gelado acordou, e ainda me desejou “bom dia!”. “Bom dia pra quem?”, foi a minha resposta mental, entre outros pensamentos impublicáveis.

Coração Gelado não tem frescura, porque frescura é coisa de trouxa. Privacidade é frescura. Guardanapo é frescura. Higiene é frescura. Alimentação saudável é o ápice da frescurice. De manhã, enquanto tomávamos suco, frutas e biscoitos, Coração Gelado bebia um copo duplo de café, frituras e presunto. “Come fruta, Coração Gelado!”, nós lhe dizíamos. “Que frescura é essa de fruta? Fruta é pros fracos. Fruta pra mim é presunto!”. E quem tentará convencê-la do contrário?

Coração Gelado às vezes quase põe tudo a perder. Como no domingo de manhã, feira ao ar livre, artesanatos à venda. Interessamo-nos por um presente que custava quinze reais, e resolvemos pechinchar. Eu habilmente tentando conquistar a simpatia da vendedora, que já estava quase se apiedando da minha pindaíba, quando ouvimos uma voz seca, com sotaque meio paulista, dizer de forma arrevesada: “Dez paga, né”? Era Coração Gelado se pronunciando. Nós nos entreolhamos todos, com cara de “ein?”. A vendedora não entendeu uma palavra, e Coração Gelado repetiu, sem reformular a frase: “Dez paga, né”? Só faltou dizer “mano”. 

Foi o Macho Jurubeba, que é também o rei da lorota, que veio em nosso auxílio, sugerindo à vendedora que não se importasse não: “Coração Gelado é assim mesmo, está achando que aqui é a 25 de março; desde que veio de São Paulo ela ainda não aprendeu outro vocabulário mais amistoso”. Com algum esforço e muito jeitinho, garantimos o nosso desconto, e o dela também.

Enquanto isso, o Cara Leve estava de longe, se rasgando de rir da situação, o que, no seu caso, significa movimentar de leve os lábios num sorriso silencioso, sem se alterar. Mas daí não se conclua que ele seja enfadonho. Pelo contrário, o Cara Leve é divertido, perspicaz, incisivo, cheio de graça – embora não pareça. Sua leveza deve estar escondida na alma.

O Cara Leve tem a voz tranquila, de modo que nunca se sabe quando está brincando, brigando ou simplesmente bocejando. Sua expressão facial não se altera nem em situações extremas, como quando o esganei para a fotografia. Revelada a foto, suspeitei que fosse botox, mas a verdade é que a leveza o deixa sempre com o rosto plácido. O Cara Leve foi nosso guia na viagem, e logo na primeira tarde nos fez caminhar meia maratona atrás de uma festa de universitários, da qual desistimos na penúltima ladeira porque, ao contrário dele, nós não somos tão leves assim.

Mas o Cara Leve nunca incomoda a ninguém, nem quando deseja ser atendido: no carro, pediu-nos gentilmente que colocasse um CD de que ele gosta, e depois de ouvir compenetrado uma meia dúzia de músicas, nos disse com muita leveza: “já estou satisfeito, obrigado, pode trocar o CD se você quiser”. É preciso admitir que eu, com tanto peso (mais no corpo e demais na consciência), queria mesmo era ser leve assim.

Até para fazer chacota o Cara Leve é leve. Ao ver uma fotografia na qual eu estava usando um pijama meio infantil, em vez de rir-se de mim, como os outros fizeram, ele muito calmamente disse algo como: “ah, é um pijama muito lúdico, deve ser quase como dormir com o patati ou o patatá.” (Talvez tenha vindo daí a vontade de esganá-lo).

Se conto todas essas barbaridades dos meus companheiros de viagem, imagino que eles tenham muitas mais a contar de mim. Ainda bem que esse espaço não é democrático, e fica valendo a minha versão irrefutável dos fatos. Para compensar, deixarei fluir o arroubo de sentimentalismo que me acomete, ao falar dos meus amigos (quase sempre) queridos: eles são insubstituíveis, e nossa amizade não tem preço. “Dez paga”?


Hendye Gracielle

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Picareta ele, vigarista eu – Sobre a arte da picaretagem acadêmica




Passei cinco anos picaretando na faculdade de Direito. Não me entenda mal. Eu tenho muito respeito pela faculdade pública, e conheço minhas responsabilidades sociais em ocupar uma vaga que é custeada pela sociedade. E ainda pretendo reverter meus conhecimentos profissionais (assim que eu os encontrar) em benefício da comunidade carente (de dinheiro, de educação, de atenção ou de amigos, carência da qual também padeço e sei como dói).

Mas que eu picaretei, isso sim. Pelo menos dentro da sala de aula, onde pode-se dizer que apenas espelhei o que 80% dos advogados vigaristas, digo, professores queridos também faziam lá dentro. Picaretar. Picaretagem jurídica era a disciplina mais prestigiada da grade.

Não foi preciso muita clarividência para perceber que, nos anos de faculdade, foi fora da sala de aula que me formei. E nem estou falando das noites boêmias nos bares circunvizinhos, embora isso tenha contribuído sobremaneira para minha educação sentimental. Estou falando da faculdade mesmo, de todas as experiências que ela nos proporciona, fora da sala mas dentro de sua aura, naquele ambiente que nos instiga e nos amadurece. São os anos em que a gente aprende a se posicionar em face do mundo, superar nossas fraquezas, descobrir nossos valores, nossas paixões.  Onde tudo é novo e nada é vão. Ou vice-versa.

O fato é que, mesmo na base da picaretagem, foi nos anos de faculdade que me formei para a vida, agucei o espírito crítico e o gosto pela reflexão. Por isso recomendo a todos os que amo que façam faculdade (aos que odeio, desejo apenas o inferno-astral do cursinho). Apaixonei-me pelo ambiente acadêmico, tanto que voltei a estudar, agora em pós-graduação. E comprovando que se trata de regra, e não de exceção, encontrei em outra instituição de ensino as mesmas picaretagens dos tempos de faculdade.

Na aula de pós-graduação dessa semana, por exemplo, o professor passou bastante tempo falando sobre coisas inúteis, numa profusão de clichês reproduzida por boa parte dos colegas. Em seguida, prescreveu um trabalho para casa. É de conhecimento notório que a forma mais elegante de picaretagem docente é representada pelos trabalhos acadêmicos, pelos quais se transfere ao aluno a obrigação de dar aula. Mas admito que, ao fim e ao cabo, a gente acaba aprendendo alguma coisa, desde que a pesquisa tenha ido além do famigerado “ctrl+c / ctrl+v”. Recurso este que nunca utilizei, entenda-se bem, que minha picaretam é à moda antiga e não admite cópia. Sou uma picareta de princípios!

Voltando ao tal trabalho, a atividade consistia em redigir um texto dissertativo sobre o tema da informação. Desconfio que o mote tenha sido escolhido pelo professor lá na hora mesmo, pois o assunto saiu do nada e foi a lugar nenhum. Picareta ele, vigarista eu: produzi o texto, e busquei empregar-lhe certo estilo, posto que a boa forma disfarça o mau conteúdo. Como nem sei se o professor vai se dar ao trabalho de ler o texto (muito menos meu blog, assim espero!), resolvi reproduzi-lo aqui (vide postagem anterior), para que tenha ao menos um leitor imaginário. Porque picaretagem demanda esforço e merece reconhecimento.

Fiz o texto com bastante esmero, procurando alcançar o estado da arte em picaretagem acadêmica, que consiste em escrever muito sobre coisa alguma.

E assim temos feito.

Hendye Gracielle


Em tempo: agradeço de coração aos 20% dos professores comprometidos do curso de Direito da Unimontes, que foram fundamentais na minha formação. Abraços efusivos aos verdadeiros mestres, com carinho.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

"Registro meus parabéns" (ou Dos Afagos Burocráticos)



Semana passada foi aniversário de uma colega de trabalho. Todas as pessoas do setor receberam um e-mail automático, avisando do relevante acontecimento. Daí que vários colegas telefonaram, mandaram e-mail, torpedo, fax, recado, comunicator, sinal de fumaça ou vibrações positivas para ela. Algumas mensagens menos, outras mais inspiradas; alguns abraços mais, outros menos sinceros.

Uma das felicitações mais curiosas foi o e-mail enviado por um colega de outra cidade, um profissional bastante eficiente que poderíamos chamar de funcionário padrão, se isso ainda fosse elogio. Era assim:

“Registro meus parabéns! Atenciosamente, fulano de tal.”

Como assim, “registro” meus parabéns? Que maneira burocrática de se felicitar alguém! Será que foi pra “constar” que ele é educado? Arquivamento para futuras providências? Evitar que a data prescrevesse?

Na falta de criatividade, em vez do insosso “registro meus parabéns”, não teria sido melhor empregar as fórmulas já gastas pelo uso, mas consagradas pelo costume, tais como “muitas felicidades”, “seja feliz”, “parabéns”, “feliz aniversário”, “carinhosamente”? Concluo que não se trata de falta de criatividade, e sim de “burocratismo” em fase aguda. É que a monotonia do trabalho burocrático acaba se entranhando na gente, funcionário de escritório do setor público ou privado.

Eu até encaminhei à minha colega, como sugestões de resposta: “Está registrado, grata, ciclana”. Mas a idéia dela foi melhor: “Prezado fulano, acuso recebimento”.


Faz uns seis anos, eu ainda não era burocrata, quando descobri que foi Max Weber um dos maiores entusiastas da burocracia na era moderna. Um sociólogo, quem diria. A intenção era nobre, na prática é que o objetivo foi desvirtuado, o que é muito comum e já não surpreende. A burocracia virou um fim em si mesmo.

Havemos de estar sempre alertas pra que o automatismo do ambiente profissional não contamine o restante da nossa vida (para os que ainda a têm). O formalismo da burocracia tem braços de polvo, e de forma lenta, gradual, mas segura, vai invadindo o espaço das relações interpessoais. Ou das relações espirituais, como certa vez aconteceu comigo, ao fazer uma oração matinal. Foi assim:

“Prezado Deus, bom dia! Favor proteger minha família e meus amigos. Gentileza relevar minhas falhas, que serão devidamente retificadas. Desde já agradeço as graças recebidas. Atenciosamente...”

Só no atenciosamente (!) é que saí do automático e me dei conta do absurdo da situação. Daqui a pouco vou exigir de mim mesma um número de protocolo pra falar com Deus. E não me surpreenderia se o mesmo resolvesse me atender somente com hora marcada!