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quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Breve relato das derradeiras emoções do ano que findou
- ou: O Natal da Cidade foi de lascar!!!


Fico indignado quando dizem que cachorro gosta de osso.
Só dão osso ao cachorro, depois dizem que ele só gosta de osso.
Ele adora comida como todo mundo.
Bote um osso e bote um filé para ver qual é que ele escolhe.
Não estão deixando a juventude brasileira entrar em contato com o filé.
Só estão lhe dando osso...”

(Ariano Suassuna, em aula-espetáculo a que assisti em Barbacena,
e em várias entrevistas e palestras que proferiu pelo país,
inclusive em Vitória da Conquista)

Uma tocante homenagem a um dos maiores intelectuais brasileiros, infelizmente recém ido para o céu – Ariano Suassuna –, com direito a instalações artísticas, projeção integral de palestra, murais de xilogravura, bonecos gigantes, exposição de livros.

Uma celebração de manifestações tradicionais, como Terno de Reis, e o incentivo a talentos locais, com concurso de cantores (“Por isso é que eu canto”) e abertura do palco principal para bandas e artistas da cidade.

Tudo isso em espaços públicos – praças e Centro de Cultura Glauber Rocha –, gratuito e aberto para a população, sem área vip, camarote ou cercadinho, só um espaço com cadeiras para quem quiser se sentar, e uma imensa área aberta pra gente ser feliz!

Bom, né? Agora acelera: uma festa da música com os melhores e mais incríveis/competentes/consagrados/inspiradores/delícias/supimpas artistas da música popular brasileira de todos os tempos, inclusive dos tempos de agora – em 2014 foram Paulinho da Viola, Zeca Baleiro, Fafá de Belém, João Bosco, Toquinho, Teatro Mágico, Ana Cañas, Yamandu Costa, Pereira da Viola, Marcos Valle, Roberto Menescal.

Isso tudo eu vi, com esses lindos olhos que a terra demorará a comer, no “Natal da Cidade”, evento anual que acontece em Vitória da Conquista/BA, e no qual, sempre que possível, eu “tô garrada”.

Desenho: Gevasio Troche


A visita ao Memorial, onde estava sendo homenageado Ariano Suassuna, é o início da minha incursão cultural de fim de ano. Ariano Suassuna dispensa comentários, né não? O espaço foi decorado com várias referências às obras e ideias do escritor, e abrigava também o já tradicional concurso de presépios. Eram dez presépios, alguns bastante inusitados, feitos com os mais variados materiais e concepções, dentre os quais uma oca de madeira, toda fechada, apenas com um grande “buraco de fechadura”, através do qual se entrevia a cena natalina; outro era um surpreendente set de cinema, no qual estava sendo filmado o nascimento de Jesus (salve a terra de Glauber Rocha!).

Agora os shows... Ixe (voltei de lá com esse “ixe”), ixe, os shows foram de lascar – que é o mesmo que “da porra” na Bahia, e “do caralho” no resto do Brasil, mas caralho e porra eu não gosto de escrever. Os shows, como ia dizendo, foram de lascar, mas vou falar só um pouquinho, só de alguns, pra não cansar.

Os shows... Teve samba, o melhor do samba, com Paulinho da Viola e suas lindezas: Pecado Capital, Coração Leviano, Foi um rio que passou em minha vida... “Há muito tempo eu escuto esse papo furado dizendo que o samba acabou / Só se foi quando o dia clareou”; essa ele não cantou, mas eu cantei, mentalmente, feliz da vida porque o samba existe e estava ali, ao meu alcance.

E teve a mágica do Teatro Mágico, provando que jovem gosta é de filé, se derem filé pra ele. Tantos garotos e garotas (e eu, essa garota de meia idade) cantando a tolerância, o amor, a amizade, o respeito, a luta por um mundo melhor; tudo sem pieguice, sem mesmice, sem mimimi, só com arte, figurinos, bailarinas, guitarras elétricas e um letrista fodástico. O Teatro Mágico é mesmo um espetáculo!

Fotografia: Hendye Gracielle

Teve mais. Dentro da minha cabeça, teve até revelações literárias... Foi no show de Marcos Valle. Tô ali ouvindo aqueles acordes complexos para letras que parecem tão simples, me deliciando, e num estalo entendo que a crônica é a bossa nova da literatura, ou que a bossa nova é a crônica da música, sei lá. Tudo bem, é possível que outros já tenham chegado a essa conclusão, mas para mim ela aconteceu ali, em pé no meio do público, ouvindo Marcos Valle e Roberto Menescal tocarem “O Barquinho” e “Samba de Verão”. É o cotidiano, a singeleza, a prosa pequena do dia-a-dia, a poesia descalça, despretensiosa, brincando de contar, de cantar. A crônica não tem o fôlego humanista dos grandes romances, assim como a bossa nova não tem as letras profundas da MPB, os sofrimentos dos boleros, os rasgos de voz das grandes cantoras, a rebeldia necessária do Tropicalismo. É simples, mas tocante, como um texto de Rubem Braga, um barquinho à deriva, um dia de sol na praia. Não sei se o mar vai virar sertão, mas ali naquele show o sertão baiano virou mar!

De tanta coisa que eu ainda poderia contar (mas calma, que não vou), teve principalmente o show de Toquinho, na noite de Natal. Esse show, o último do evento, resume bem o encantamento que senti nestes dias de festa e celebração (música boa emociona, né!?): foi encantador ver crianças na plateia cantando empolgadíssimas as suas músicas infantis, como “O Pato”, “A Casa”, “Aquarela”; foi emocionante ouvir a melodia requintada e a letra tão bonita de “O Caderno”, e perceber que se pode enxergar poesia e beleza em objetos prosaicos, e deles fazer metáfora de um curso de vida; foi uma delícia ouvir as grandes parcerias com Jobim, Chico, Vinícius...

No meio do show, Toquinho solando no violão, executando o instrumental de várias músicas, de repente começo a reconhecer a música clássica de Bach – “Jesus, alegria dos homens” -, que foi inacreditavelmente emendada nos acordes de “Asa Branca”, de Gonzagão. Encontro sublime do erudito com o cancioneiro, do clássico com o popular, do universal com o tradicional... Véi, isso é lindo! (Especialmente em épocas de veleidades separatistas de elites pseudo-requintadas, que adoram colecionar Rolex, tomar Chandon e descer até o chão-chão-chão em camarotes “all inclusive”...)


Uma imersão revigorante, esse meu final de ano na Bahia. E uma vontade imensa de que a arte encante muitas e muitas pessoas, cada vez mais, cada vez melhor. Além do “amor-saúde-paz-o-resto-a-gente-corre-atrás” de praxe, isto o que eu desejo em 2015: um ano repleto de arte e cultura; menos osso e mais filé para todos nós. 


Desenho: você já sabe

sábado, 27 de julho de 2013

Crônica de Viagem: Paraty é uma festa!

(Desenhos surrupiados de Troche)

A gente conhece os vícios de uma pessoa pela sua maneira de se comunicar com Deus. Já contei em crônica anterior o efeito do tempo em que fui quase uma workaholic, e me surpreendi fazendo uma oração burocrática, neste estilo: “Prezado Deus, favor proteger toda a minha família. Gentileza relevar as falhas, que serão oportunamente retificadas. Certa de sua compreensão, desde já agradeço, amém”.

Na viagem que fizemos neste mês a Paraty, eu e meus amigos percorremos mais de dois mil quilômetros de carro, revezando-nos na direção. Saí de Montes Claros dirigindo, e na primeira parada foi a vez do Macho Jurubeba (que vocês já conhecem de linhas passadas) assumir o volante. Antes de dar a partida, não ficamos surpresos ao vê-lo fazer o sinal da cruz, mas não esperávamos pela concisa oração que ouvimos em seguida: “#PartiuComDeus”! Isto mesmo, com todas as letras e caracteres: “hashtag-partiu-com-Deus”! Quanta modernidade para um Macho outrora Jurubeba de raiz! Descobrimos então que nosso amigo tornara-se um adicto das redes sociais. As gargalhadas inundaram o carro, mas na hora me veio uma dúvida, que não verbalizei para não ser também alvo das veementes chacotas dos amigos: será que Deus curtiu?

Chegando a Paraty, pegamos uma estrada vicinal que levava à Vila de Corisco, onde nos hospedamos. Após transpor 5 km e 27 quebra-molas – alguém se deu ao trabalho de contá‑los – chegamos à Pousada, que logo apelidamos de “Casa da Bruxa”, em decorrência de seu aspecto ecológico-esotérico-filme de terror. Passamos pela recepção e a mocinha nos explicou que a entrada para nosso chalé era pela rodovia mesmo; a trilha interna estava intransitável, porque não dera tempo de limpá-la (fizemos reserva com três meses de antecedência, mas achamos melhor não abordar este detalhe). Perguntamos então qual era a chave para abrir a garagem, ao que a recepcionista respondeu: “Ah, é só meter a mão e abrir”. Opa, agora sim nós nos sentimos efetivamente no estado do Rio de Janeiro, né não, malandragem?

Metemos a mão no portão, estacionamos, entramos no chalé, e logo ao chegar observamos várias velas sobre a mesa, prontas para o uso. Primeiro achamos que se tratava dos preparativos para algum ritual macabro; mais tarde a energia começou a oscilar, e entendemos que as velas estavam ali para serem a nossa luz, caso a elétrica faltasse. Felizmente nada disso aconteceu – nem a falta de energia, nem o ritual macabro -, e as velas permaneceram intocadas, prontas para assustar as próximas vítimas, digo, os próximos hóspedes incautos.

Considerando que um de nós ainda não conhecia o mar, programamos um passeio de barco para o dia seguinte. A bordo da escuna, passamos a tarde toda só na alegria: cerveja gelada, comida gostosa, música ao vivo, ilhas paradisíacas (todas particulares, que pudemos ver, mas não tocar!), mergulho em alto mar. “Mas essa água é muito salgada!”, exclamou o meu amigo para quem o oceano era inédito! Mas tudo – inclusive a inocência – tem um preço! No final da tarde chega a conta para pagarmos, e cada um de nós saca confiante o seu cartão de crédito, milagrosa máquina do tempo que transforma as dívidas de amanhã nas delícias de hoje! Mas há dias em que o milagre falha: descobrimos que o barco não aceitava cartão. Na empolgação etílica em que nos encontrávamos, tentamos resolver discretamente a questão: um gritou que tinha trazido onze reais e cinquenta centavos, a outra disse que ia contar as moedinhas da bolsa, a terceira se ofereceu para lavar os pratos, soluções bastante criativas para se pagar uma conta de três dígitos! As coisas se resolveram quando voltamos ao cais, e propusemos ir ao banco sacar dinheiro, o que a dona do barco só aceitou caso um dos tripulantes nos acompanhasse até lá. Porque “a gente confia, mas não custa prevenir”. Concordamos inteiramente, com carinha de pessoas honestas (que somos) preocupadas com as vigarices que assolam o país.

Para superar a pecha de golpistas acidentais, vestimos a carapuça de “meio intelectuais meio de esquerda” e fomos para a FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty (nossa amiga Coração Gelado diria que fomos “fingir cultura”, mas isso seria pura inveja por ela não estar lá). As Festas Literárias são lugares interessantes porque propiciam que estejamos todos ocupando os mesmos espaços e celebrando em comunhão: nós, apaixonados por literatura; os autores de sucesso, como Ferreira Gullar, Xico Sá, Nicolas Behr e outros que perambularam por lá; e artistas anônimos, que ficam pelas ruas tocando seus instrumentos, vendendo seus livretos, declamando poemas e cantando, respeitosamente, as mulheres. Numa madrugada improvisamos um sarau na praça – na verdade foi uma algazarra de vinhos bebidos no gargalo e poemas declamados pelas metades, mas vamos chamar de sarau, que é pra elevar o espírito. Não sei se atraídos pelo lirismo dos versos ou pela euforia do álcool, alguns poetas vieram ter conosco. Educada que é, nossa camarada Madê foi delicadamente cumprimentar um deles, “Muito prazer”, ao que ele respondeu, “prazer ainda não tivemos, meu bem”. Ênfase no “ainda”, tratava-se de um poeta esperançoso. Outro deles, inquirido sobre suas atividades habituais, declarou que escrevia poemas, ilustrava livros e fazia filhos; deve ter sido bastante frustrante que nenhuma de nós tenha se interessado em experimentar as habilidades que ele, com tanta convicção, afirmava ter.

Mas nem só de esculhambação se faz uma viagem literária. Houve também momentos de tietagem erudita em nossas aventuras. Conseguimos autógrafos do Milton Hatoum (mediante promessas de favores sexuais para uma das recepcionistas) e nosso amigo viciado em internet tirou foto e fez check-in na Adriana Calcanhotto – virtualmente falando, é claro! A única tristeza que guardo é a de que os nossos planos infalíveis de levar a Maria Bethânia ou o Xico Sá para um jantarzinho em nosso chalé tenham falhado. É pena, mas fica como expectativa para uma próxima edição da FLIP. Nossos delírios não conhecem o limite do improvável: Paraty é uma festa sem fim!

Hendye Gracielle

(A FLIP é uma loucura!)

***
Leia também a outra parte –  em outro estilo – de minhas aventuras de julho: “Viagem a São Paulo – relato épico de nossos poucos dias”.

A expressão “Meio intelectual meio de esquerda” está na crônica “Bar ruim é lindo, bicho”, do Antônio Prata, o cronista de nossa geração. Leia na pág. 30 do livro homônimo, ou então aqui: http://blogs.estadao.com.br/antonio-prata/bar-ruim-e-lindo-bicho-1/ . 

Abraços efusivos aos meus leitores invisíveis!

terça-feira, 23 de julho de 2013

Viagem a São Paulo – relato épico de nossos poucos dias



Ai de ti, Copacabana, porque eu já fiz o sinal bem claro de que é chegada a véspera de teu dia, e tu não viste. (...)

Assim qual escuro alfanje a nadadeira dos imensos cações passará ao lado de tuas antenas de televisão; porém muitos peixes morrerão por se banharem no uísque falsificado de teus bares. (...)

Canta a tua última canção, Copacabana!

(Rubem Braga – crônica Ai de ti, Copacabana)

(Fotografia de Bruno Lima)

Ai de mim, que não conheço Copacabana. E fui encontrar Rubem Braga em São Paulo – cidade antípoda de seu lirismo crônico –, pelo acaso de um passeio literário, escondido no Museu da Língua Portuguesa, em exposição que forrou de jornais antigos o primeiro andar do prédio moderno, e forrou de acalantos novos o primeiro vão de meu antiquado coração.

E deixei de conhecer o sol e o mar do Rio de Janeiro, e troquei-o pela oportunidade de banhar-me na garoa cinzenta de pecados e prestígios da cidade de São Paulo; e mesmo tomando o caminho contrário de seu habitat, acabei encontrando o cronista, e revi-o em vídeos, fotografias, livros e sonhos. 

E mesmo tendo partido para tão longe, ainda assim não pude fugir de mim mesma. E afastando-me mil quilômetros de meu cotidiano norte-mineiro, acabei por voltar a Montes Claros, numa crônica do velho Braga, por acaso folheada nos livros em exposição. E esta crônica citava também Cachoeiro do Itapemirim, terra natal do escritor. E emocionei-me de que estivéssemos ali todos juntos, eu, minha cidade, o cronista, sua cidade, e São Paulo, que foi o porto agregador dos rios de concreto desta viagem sentimental.

E saindo do prédio, e voltando à rua, e deslumbrada pela altivez da Estação da Luz, e querendo atravessá-la de ponta a ponta, entrei pela porta da opulência, defronte ao castelo encantado da Pinacoteca do Estado, e saí inadvertidamente pela porta da decadência; e, não sei se por distração ou por ingenuidade, não reconheci que havia ali mulheres de vida amarga e corpos postos em liquidação. Ai de mim, que nada conheço desta vida.

E indiferente às agruras desses habitantes submersos em fumaça, confortei‑me na companhia de pessoas queridas de minha vida, e vagamos pelas ruas do centro da cidade, em noite quase deserta, fascinados pelas construções dos primeiros séculos de sua existência; e sambamos pelos bares e botequins da Vila Madalena, em cuja boemia mergulhamos intrepidamente; e nos perdemos pelas avenidas labirínticas e viadutos medonhos; e perambulamos pelas vias subterrâneas de trilhos e estações, por prestigiados museus e livrarias da Avenida Paulista, pela metrópole hipnotizante, com seus edifícios que tocam o céu e seus miseráveis ao rés-do-chão.

Ai de ti, cidade de São Paulo, cosmópole deslumbrante de infortúnios e iniquidades e contradições; e ai de mim, porque me fascinas e me comoves ao infinito.

Hendye Gracielle
(Desenho de Gevasio Troche)
PS.: Na próxima semana, "Viagem a Paraty - relato lúdico de nossos poucos dias".

domingo, 3 de março de 2013

O mar à noite (A costura do mundo)




Um mês sem crônica nova deveria render algum assunto, certo? Afinal de contas, foram férias em Tiradentes, fim de semana em Belo Horizonte, rocambole em Lagoa Dourada e carnaval em Salvador. Vários dias de viagem, e chegando em casa é que descubro o mote para a crônica:

- Ela, esfregando os olhos: “acho que coloquei uma das lentes pelo avesso.”
- Eu, engraçadinha: “Por que, tá vendo a etiqueta?”
- Ela, metafísica: “Tô vendo a costura... a costura do mundo”.

Cecília Meireles escreveu uma crônica que diferencia o turista do viajante. A poeta afirma-se viajante. Nada de fotografias desembestadas, guias verborrágicos, pontos de visitação obrigatória, 5 continentes em 3 dias – tudo isso é coisa de turista. O turista faz um apressado passeio pela superfície. O viajante calmamente se aprofunda. O prazer do viajante é a contemplação. Ver a costura do mundo, daquele pedaço de mundo novo, que é o destino da viagem.

Tem gente que é turista em qualquer lugar do planeta, até em casa. Tem gente que é eterno viajante. Gosto de me imaginar viajante, embora seja turista de carteirinha, máquina fotográfica dependurada no pescoço, mochila nas costas, guia quatro-rodas sempre à mão. Sou turista, admito, mas tenho meus momentos de viajante, de desejar sentir os lugares, mais que visitá-los; de querer me integrar à cidade como se eu fosse um dos seus. Às vezes dou sorte: numa breve coincidência, num ligeiro acaso, numa oportunidade fugaz, é possível transpor o tecido da cidade, esgueirar-se pela malha do lugar, chegar ao avesso, ver a costura do mundo. Parece complicado, mas sói acontecer numa breve sensação, num comentário, em algo que por acaso se ouve ou se vê. Por exemplo, em Salvador.

Primeiro dia de viagem, éramos quatro amigas sentadas na última mesa da ponta da praia. A moça da barraca, ao final do dia inteiro de trabalho, já de tardezinha, não quis me vender uma água de coco. Reparando em sua expressão, suspeitamos que o motivo era preguiça de ir buscar o coco no bar para o qual trabalhava, que ficava relativamente longe de nossa mesa. Perguntamos se era esse o motivo, ela sorrindo confirmou: era preguiça mesmo. Sorrimos também, e não pudemos nos zangar com a situação. Enxergamos nisso a costura do lugar, a trama daquele mundo que estávamos visitando – a Bahia de uma preguiça gostosa que não tem vergonha de se revelar.

Mais tarde, vimos o sol se pôr nesta mesma praia, já quase deserta. Depois a noite caiu rápido, no local não havia nenhuma luz exceto a da lua e das estrelas. Em vez de irmos embora, entramos novamente na água e vivenciamos o passeio pelo avesso, com a grata surpresa de um prazer inesperado. A água morna, as ondas mansas, o mar despovoado e de repente todo nosso!

Desconfio que só porque ousamos deixar de ser turistas em Salvador é que o mar teve a generosidade de nos revelar seus caprichos insuspeitos e suas delícias noturnas. Aquela ponta de praia era o ponto extremo do nosso velho mundo, dali em diante a viagem começava, o mundo era outro, novo e encharcado, no qual mergulhamos pra que a água salgada molhasse em nós tudo o que fosse corpo. Aí a água do mar foi além: saímos com a alma lavada. 

Essas e outras as boas lembranças da viagem a Salvador.

Hendye Gracielle


segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Histórias da carochinha: amigos em Diamantina




Hoje vou falar dos meus amigos. De três, em especial, com quem viajei para Diamantina semana passada. O “Macho Jurubeba”, o “Cara Leve” e a “Coração Gelado”. Não será necessário descrevê-los por perfis psicológicos, características físicas, feições morais. A apresentação será episódica, e logo se lhes conhecerá a alma. Vamos a eles.

O Macho Jurubeba é macho de raiz. Não tem as grosserias do macho alfa, mas não está sob suspeita como o macho metrossexual (embora desconfiemos que ele faz a sobrancelha, mas apenas pra aliviar o peso das pestanas). Ele é fino, mas nem sempre delicado. Ele é engomadinho e limpinho, mas se for preciso anda descalço e come com a mão. Ele é um cavalheiro, mas divide a conta do restaurante, por questão de isonomia constitucional. Ele me censura por usar sacolas plásticas, e pela janela só joga lixo orgânico, que é pra adubar a mãe natureza (embora eu já o tenha explicado que no asfalto nada germina). Ele liga para os pais ao sair e ao chegar. Ele tem um jurubeba móvel, que nos levou até Diamantina. Ele dirige dentro dos limites de velocidade, porque é cioso de nossa segurança. Por isso é que, no primeiro dia, só vimos de Diamantina o sol vespertino, conquanto tenhamos acordado cedo para a viagem. O Macho Jurubeba não se excede em público, porque acha que tem uma reputação a zelar.

Quase um antípoda do Macho Jurubeba, temos a querida Coração Gelado, com quem dividi o quarto do hotel. Nem bem fechamos a porta, ela já espalhou seus pertences pelas três camas disponíveis, zombando da minha necessidade de organização, com seu peculiar: “ah, você é trouxa!”. Com ela no quarto, tive de dormir com o barulho da TV e acordar com o barulho do celular – na sonolência pensei que tinha sido abduzida por uma discoteca voadora não identificada, mas depois descobri que era só o despertador. Nisso tudo, ela nem se abalou, e só depois que eu carinhosamente arremessei o aparelho na sua direção é que Coração Gelado acordou, e ainda me desejou “bom dia!”. “Bom dia pra quem?”, foi a minha resposta mental, entre outros pensamentos impublicáveis.

Coração Gelado não tem frescura, porque frescura é coisa de trouxa. Privacidade é frescura. Guardanapo é frescura. Higiene é frescura. Alimentação saudável é o ápice da frescurice. De manhã, enquanto tomávamos suco, frutas e biscoitos, Coração Gelado bebia um copo duplo de café, frituras e presunto. “Come fruta, Coração Gelado!”, nós lhe dizíamos. “Que frescura é essa de fruta? Fruta é pros fracos. Fruta pra mim é presunto!”. E quem tentará convencê-la do contrário?

Coração Gelado às vezes quase põe tudo a perder. Como no domingo de manhã, feira ao ar livre, artesanatos à venda. Interessamo-nos por um presente que custava quinze reais, e resolvemos pechinchar. Eu habilmente tentando conquistar a simpatia da vendedora, que já estava quase se apiedando da minha pindaíba, quando ouvimos uma voz seca, com sotaque meio paulista, dizer de forma arrevesada: “Dez paga, né”? Era Coração Gelado se pronunciando. Nós nos entreolhamos todos, com cara de “ein?”. A vendedora não entendeu uma palavra, e Coração Gelado repetiu, sem reformular a frase: “Dez paga, né”? Só faltou dizer “mano”. 

Foi o Macho Jurubeba, que é também o rei da lorota, que veio em nosso auxílio, sugerindo à vendedora que não se importasse não: “Coração Gelado é assim mesmo, está achando que aqui é a 25 de março; desde que veio de São Paulo ela ainda não aprendeu outro vocabulário mais amistoso”. Com algum esforço e muito jeitinho, garantimos o nosso desconto, e o dela também.

Enquanto isso, o Cara Leve estava de longe, se rasgando de rir da situação, o que, no seu caso, significa movimentar de leve os lábios num sorriso silencioso, sem se alterar. Mas daí não se conclua que ele seja enfadonho. Pelo contrário, o Cara Leve é divertido, perspicaz, incisivo, cheio de graça – embora não pareça. Sua leveza deve estar escondida na alma.

O Cara Leve tem a voz tranquila, de modo que nunca se sabe quando está brincando, brigando ou simplesmente bocejando. Sua expressão facial não se altera nem em situações extremas, como quando o esganei para a fotografia. Revelada a foto, suspeitei que fosse botox, mas a verdade é que a leveza o deixa sempre com o rosto plácido. O Cara Leve foi nosso guia na viagem, e logo na primeira tarde nos fez caminhar meia maratona atrás de uma festa de universitários, da qual desistimos na penúltima ladeira porque, ao contrário dele, nós não somos tão leves assim.

Mas o Cara Leve nunca incomoda a ninguém, nem quando deseja ser atendido: no carro, pediu-nos gentilmente que colocasse um CD de que ele gosta, e depois de ouvir compenetrado uma meia dúzia de músicas, nos disse com muita leveza: “já estou satisfeito, obrigado, pode trocar o CD se você quiser”. É preciso admitir que eu, com tanto peso (mais no corpo e demais na consciência), queria mesmo era ser leve assim.

Até para fazer chacota o Cara Leve é leve. Ao ver uma fotografia na qual eu estava usando um pijama meio infantil, em vez de rir-se de mim, como os outros fizeram, ele muito calmamente disse algo como: “ah, é um pijama muito lúdico, deve ser quase como dormir com o patati ou o patatá.” (Talvez tenha vindo daí a vontade de esganá-lo).

Se conto todas essas barbaridades dos meus companheiros de viagem, imagino que eles tenham muitas mais a contar de mim. Ainda bem que esse espaço não é democrático, e fica valendo a minha versão irrefutável dos fatos. Para compensar, deixarei fluir o arroubo de sentimentalismo que me acomete, ao falar dos meus amigos (quase sempre) queridos: eles são insubstituíveis, e nossa amizade não tem preço. “Dez paga”?


Hendye Gracielle

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Show do Chico - Parte 2




Eu daria pra Chico Buarque!

Eu e mais 180 milhões de pessoas, pois Chico é a unanimidade nacional, no dizer de Nelson Rodrigues. E como o mesmo Nelson dizia que toda unanimidade é burra, vamos excluir da conta dois ou três colegas meus que juram que não dariam.

Eu estou com o restante dos mortais, como uma fã que, pelas tantas do show, grita lá da turma do fundão: “Eu te amo, Chico!” E uma voz masculina, do mesmo fundão, responde: “Eu também!”

E que bom que existe a turma do fundão! Eu estava mais ou menos na frente, mais ou menos comportada, e ainda hoje me arrependo de ter reprimido a vontade de subitamente levantar, invadir o palco e agarrar Chico Buarque. Calma, criatura, não se afobe não. Ele é irresistível, mas não é pra tanto.

Oportunamente o pessoal do fundão aprontou uma agitação em coro, com a mais óbvia das ovações: “Chico! Chico! Chico!”. Tá na cara que Chico gostou! A modéstia pode mesmo ser a maior das vaidades. Chico, meio tímido, agradeceu e sorriu.

Riu também quando errou a letra, foi tão discreto, mas eu ouvi! (Eu estava tão atenta, que teria ouvido até um suspiro fora do ritmo). Foi assim: “Afasta de mim esse cálice, pai. De tinto tinto de sangue”.

É claro que ele nem se abalou, mas para nós ficou mais humano, menos mito, um tiquinho mais acessível.

Chico também erra, mas a gente releva e acha bonitinho! Eu achei.

No próximo capítulo: Chico é cafona!


quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Show do Chico - Parte 1


Caro Jorge,

Essa semana faz seis meses que fui ao show do Chico. Como assim qual Chico? Chico só tem um. Os outros não são Chico, são “Chico não sei de que”, “Chico não sei da onde”, Chico Bento, Chico Anísio, Chico Sá, Chico de Dona Maria, Chico do bar da esquina.... Chico, assim em prenome solo, só o Buarque.

E daí, né? Daí que é um pretexto pra eu contar, em três crônicas, como foi o show. Já adianto uma coisa: Chico é lindo! Valeu a viagem, a fila e o rombo na conta bancária.

Saudações, e até a próxima.



SHOW DO CHICO - PARTE 1

Sexta-feira, 06 de abril de 2012. Hall do HSBC Hall, São Paulo. Uisquinho pra lá, canapezinho pra cá...

Chico Buarque de Hollanda em cores, tamanho real. Fila pra tirar foto com o Chico de papelão.

É lógico que eu fui!  Tirei foto com o cartaz, sabendo que não tiraria ao lado do verdadeiro. Comprei o CD novo, sabendo que não seria autografado.

(Aliás, eu tive a desfaçatez de perguntar se os CDs seriam autografados, e o vendedor teve a desfaçatez de rir na minha cara!!! Ah, meu caro, não custa sonhar, e você me vem com zombaria numa hora dessas?)

Todos a postos, devidamente acomodados em suas mesas elegantes e espaços exíguos. Eu confesso! Confesso que algumas vezes passamos os olhos pela platéia, buscando flagrar algum rosto conhecido de celebridade de televisão. Pois não há sempre nos DVDs gravados no Rio ou São Paulo aquelas carinhas conhecidas sorrindo para o seu artista preferido? Bem, tudo que conseguimos foi um sósia do Collor sentando-se à nossa mesa e ameaçando atrapalhar-me a visão. Mas calma, nem tudo está perdido. Empurra a cadeira um pouquinho pra lá, puxa a mesa um pouquinho pra cá, pronto, visão completa do palco e de Chico.

Meu Deus, é Chico mesmo, tô vendo ele todo, que fofo, tô vendo até o pezinho marcando o compasso.

Mais novo que imaginei, tímido, lindo, penteado, perfumado (tenho certeza de que senti seu cheiro! Será que eu tô sonhando?) Começo a ouvir aquela vozinha fraca e quase desafinada: não tô sonhando, é ele mesmo!

Esqueci de tudo, esqueci de quem eu sou e de quem eu não sou, não tem mais ninguém no teatro, não tem mais ninguém no mundo, tô vendo Chico Buarque ao vivo cantando pra mim.

Se eu tiver de sofrer, se eu tiver de penar, se eu tiver de morrer, se houver terremoto ou vulcão, arrastão de pivete ou avião caindo, que não seja agora, meu Deusinho querido, que seja daqui a duas horas, depois do show.

Obrigada, Deus! 

No próximo capítulo: "Eu daria pra Chico Buarque"

sábado, 28 de julho de 2012

Crônicas da tenra infância – parte 3: em Paraty



Eu não tenho muita paciência com crianças, por isso me espanta a força com que esses episódios por elas protagonizados se arraigaram na minha memória sentimental. Tais momentos são furtivos; somente na distração encontra-se a leveza necessária para que aconteçam. Pegam-nos de surpresa quando nossas personas estão desnudadas. Foi o que ocorreu em minha viagem a Paraty, quando fui visitar a FLIP - Festa Literária Internacional – deste ano. Foi com um menino de rua que vivi a experiência mais poética da temporada.

Era tardezinha de sábado, estávamos haurindo os últimos momentos em Paraty, tomando um caldo verde com torradas em uma mesa de bar nas ruas do Centro Histórico. Era o ocaso melancólico de nossa incursão cultural. O menino aproximou-se de nossa mesa e perguntou se podia cantar. “Se você quer cantar, pode cantar”, respondi. “Mas tem que pagar”, ele redarguiu. Após acertamos o preço, porque nem mesmo o lirismo escapa às agruras do capital, a criança começou a cantar.

A cantoria era tão desentoada que imediatamente pedimos que parasse; ele receberia o acertado para fazer o favor de não cantar. Creio que o canto era penoso pra todos nós, inclusive pra ele, que pareceu satisfeito em silenciar. Sentindo-se convidado, sentou-se à nossa mesa e pegou uma torrada. Nesse mesmo momento eu também comia, e vendo-me molhar minha torrada no meu caldo, com naturalidade pegou sua torrada e a mergulhou na minha tigela.

Não foi petulância, não foi grosseria. Foi com a naturalidade de uma criança que vê algo que parece bom e quer prová-lo; que imita um gesto sem extrapolar-lhe o sentido. Até as pessoas da mesa ao lado sorriram com a cena. Aquilo me enterneceu, achei até mesmo generoso de sua parte que ele repartisse comigo minha própria refeição.



Eu tenho a estranha mania de pensar em poesia nas horas mais insólitas, e quando menos percebo, estou a recitar mentalmente poemas decorados, como uma trilha sonora para as cenas de um filme: a trilha literária para as cenas da vida real. A existência concreta de menino faminto não cabe no poema, mas foi em Drummond – homenageado da FLIP - que busquei o único verso que poderia traduzir o que senti vendo os gestos de inocência daquela criança: “a poesia desse momento inunda minha vida inteira”.

Esse episódio singelamente marcou minha viagem, e tem acompanhado a narrativa das demais peripécias da FLIP, feitas a quem pergunta como foi o passeio. Nessas horas, meus interlocutores ouvem meu relato, mas é pena que não ouçam a trilha literária que passa na minha cabeça ao falar dessa criança, que na minha lembrança tem o rosto de tantas outras com quem cruzo nas ruas da cidade:

“Em casa de menino de rua
O último a dormir apaga a lua”

(Giovanni Baffô)

Ao menino de Paraty dedico essas linhas de memória afetiva e a trilha do ato final.

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