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segunda-feira, 23 de julho de 2012

Crônicas da tenra infância – parte 2: em família




O comovente não advém apenas do sublime; é principalmente nas peraltices que se revela a pureza infantil.

Já faz parte da nossa mítica familiar certo episódio da época em que meu primo Nilo não passava de uma pessoinha de poucos anos, sempre de polegar na boca e indicador no nariz, contando lorotas imaginárias. Sentado de onde estava, aborrecido com a amolação da minha tia, ele virou-se pra ela e disparou: “Tia Flávia, seu cu tá xumegano, friviano e brubuiano!”.

Minha avó, que presenciou a cena, em vez de corrigi-lo, pôs-se a rir; realmente difícil reprimir a malcriação, quando o xingamento é tão inventivo!

Inventividade, aliás, é o que não falta na família desse meu primo. A começar pelos nomes dos irmãos. Nenhuma professora de português me deu exemplo mais feliz do que seja concisão, do que a minha Tia Marinah, ao escolher o nome dos filhos: Nilo, Caio, Siro e Isa.

Nomes curtos, simples e fortes. Não darão trabalho para digitadoras de formulários, nem serão motivo de chacota em cadastros de órgãos públicos. Eles não serão incompreendidos ao telefone, tendo de repetir o nome várias vezes, e ouvir em resposta as versões mais estapafúrdias de pronúncia. (As Hendyes Gracielles da vida que o digam.)

Apenas o nome de Isa pode causar alguma confusão. Será Isa o apelido de Isabel, Isadora, Isaltina, Isolda? Nada disso, Isa é nome mesmo. Se o nome é curto, apenas 3 letras, o apelido que lhe damos é ainda mais econômico: I. Só pode ser fruto do que eu chamo de preguiça fonética, umas das 142 modalidades de preguiça que nos afligem.

O parentesco colateral continua a me render boas memórias de criatividade gramatical. É meu primo Siro quem protagoniza esta outra, quando era ainda um pirralho com cara de lagartixa. Estávamos na roça, e ele me pediu pra pegar algo que estava fora do alcance de sua pequena estatura. Eu também era criança, e não sei por qual motivo maligno não quis atendê-lo, e simplesmente lhe disse: “se vira!”. Sei que a malvadeza rendeu bons frutos, porque ele deu um jeito de conseguir o que queria, e ainda veio todo triunfante me dizer: “SE VIREI!”.

Só posso dizer que poucos tropeços linguísticos me inspiram tão ternas memórias!

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PS.: quando Isa e Tia Flávia viram essa postagem, disseram que esqueci de falar de Caio. Realmente eu sou meio esquecida, e ele é meio desaparecido: a combinação resultou em lacuna, evidentemente involuntária.

É claro que ele também tem lugar especial nas minhas memórias de infância. Pelo menos uma façanha nós aprontamos juntos: “roubar” o carro de Tio Rui para tentar dirigir nas ruas de Engenheiro Navarro (tudo bem, eu aprontei, ele foi o cúmplice-mirim). 

Mas a melhor é esta: Caio estava sozinho na casa de Vó, e resolveu ir embora. Antes de sair, porém, ele foi responsável o bastante para não deixar a casa aberta, à mercê de hipotéticos malfeitores. Trancou a porta e colocou a chave debaixo de um vaso de flores. Quando chegamos, havia um bilhete na porta da rua, dizendo: “Vó, tive que sair. Deixei a chave debaixo do vaso de flores. Cacá”. 

Ainda que um “amigo do alheio” tivesse vindo nos surrupiar naquela tarde, é possível que, lendo o bilhete, desse meia volta e partisse de mãos abanando, comovido com tamanha inocência juvenil.

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quarta-feira, 18 de julho de 2012

Crônicas da tenra infância – parte 1: no cinema



Antes que alguém me desmascare, vou logo confessando: não sou muito fã de criança. Desde que cresci. Não me faça essa cara de espanto (ou comiseração); não me orgulho disso, mas também não me envergonho. Ilustres pensadores concordam comigo. Veja lá, na última edição do Aurélio: “criança: s.f.; eufemismo para pestinha, em geral catarrento, cuja existência objetiva fazer do mundo o lugar mais barulhento possível”. Principalmente o mundo lá perto de casa.

Há quatro anos, contudo, o surgimento de um afilhado em minha “vidinha mais ou menos” apaziguou um pouco essa rabugice. Não há franzir de testa que resista à ternura de ouvir dizer “Dindinha”, mesmo que a palavra seguinte seja “urubu”. Eu comecei a achar lindo ouvir palavras incompreensíveis e ver desenhos estrambólicos de mim mesma, do tipo em que só se distinguem dentes e cabelos (devidamente embaraçados).



Eu já tinha ouvido contarem, ou visto na televisão, cenas em que a pureza infantil apaziguava por instantes esse mundo tão hostil. Sentimentos pueris abrindo brechas na sequidão da vida cotidiana. 

A primeira vez que vivenciei uma dessas situações verdadeiramente sublimes envolvendo uma criança foi, claro, com meu afilhado. Fomos ao cinema para assistir a um desenho em 3D. Era sua primeira vez, mas eu não sabia. Entramos, colocamos os óculos, acomodamo-nos. Após alguns minutos observando atentamente as imagens, ele levanta os bracinhos e mãos inquietas, e inocentemente tenta agarrar a imagem que flutua diante dos seus olhos.

Simplesmente isso: sorrindo de fascínio pela mágica do que via, ergueu os braços e mexeu as mãozinhas, tentando tocar as imagens que vinham em sua direção.

Ali no cinema, na companhia do meu afilhado, tive vontade de parar o tempo e conservar essa espontaneidade, essa ingenuidade de gestos, esse deslumbramento que vi em seu rosto iluminado. De forma tão espontânea tenta agarrar o irreal, o sonho, a magia, a fascinação.

Após o filme, me veio à memória um poema de Manuel Bandeira, e desde então não consigo evitar recitá-lo mentalmente, sempre que me lembro daquele dia:

A criança olha
para o céu azul.
Levanta a mãozinha,
Quer tocar o céu.

Não sente a criança
Que o céu é ilusão:
Crê que o não alcança,
Quando o tem na mão.

Parece-me que tanto o poema como o episódio no cinema, cada qual a seu modo, ilustram os mesmos traços de puerilidade, ingenuidade e contemplação, pelos quais a criança naturalmente se deixa guiar. Ela tenta provar o que seus olhos vêem: ainda não sabe que as coisas nem sempre são o que aparentam ser. Toma por mágico o que é ilusão, e fascina-se desmedidamente. 

Também eu me fascinei, e fui criança naquele momento: deixei-me levar pela surpresa, pela empolgação, pela admiração, e não tive pudor em deslumbrar-me. Aquele momento singelo causou-me uma comoção tão profunda, que compreendi empiricamente o que se pode chamar de sublime.

Talvez ainda haja remendo para minha rabugice; talvez a criança que fui ainda tenha salvação.


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