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sábado, 19 de janeiro de 2013

Carta do Jorge - Minha paixão foi por um triz




Cara Hendye, amiga tão distante e tão querida,

Apenas hoje, meados de janeiro, escrevo a carta que lhe prometi para o iniciozinho do ano, tão logo cessasse a pirotecnia histérica que marca as transições em geral. As luzes de 2012 se apagaram, os ventos de 2013 já sopram quentes, e apenas agora me senti disposto a escrever-lhe. Isso comprova que, apesar das promessas natalinas de sermos pessoas melhores, o novo ano em nada altera o nosso espírito procrastinador, nossa mania brasileiríssima e humaníssima de adiar tudo que for possível, e às vezes o impossível também.

Nem bem o ano se iniciou, andei cansado de estar só neste mundo invisível. Pra passar o tempo, e arrumar alguma diversão, inventei para mim uma paixão. Pensando que seria uma experiência facilitada e amena, quanto me enganei! Fui brincar com o vento, entrei num torvelinho do qual não soube fugir. Breve, mas intenso: apaixonei-me, entreguei-me, fui feliz, e a vida então nos afastou, sem aviso e sem traumas. Fascinante: como um encontro de liberdades que andam soltas pelo cosmos, e em algum ponto de sua trajetória imprevisível acabam se tocando e, logo em seguida, se distanciando, para nunca se cruzarem novamente.

Sendo você minha confidente única – e predileta! –, conto o que se passou entre mim e aquela que enfeitiçou os meus sentidos. Pra tentar explicar (mentira: pra que eu tente compreender) o que aconteceu.

Contando os dias, vejo que nosso encontro foi uma primavera: nenhuma ilusão além. Reparando bem, nossa história foi verso, anverso e avesso – uma eternidade de agora. Haicai escrito de nuvem. Um disco que não virou, eterno lado B de amores impossíveis. Um dia de muitos anos. Um curta-metragem que começasse pelo fim.

Nosso caso foi urdido no silêncio da madrugada.

Logo se acabou: em nota de rodapé, na melancolia displicente de um telefonema, na pressa de um amor do fim dos tempos, na curva do infinito. 

Findou-se, mas deixou em mim a beleza deste encontro de almas, e estou certo de que, mesmo separados, não seremos mais as mesmas criaturas que fôramos antes.

Pelo que conto de minhas incursões sentimentais, você vê que, afinal, não há grandes diferenças entre a minha vida imaginada e essa tal vida real. Essas peraltices amorosas afligem igualmente os corações humanos e aqueles que, como o meu, são feitos apenas de sonho.

Mande notícias suas e deste seu mundo louco, que faz o meu parecer uma inofensiva brincadeira de criança.

Abraço carinhoso,
do sempre seu amigo,

Jorge


domingo, 11 de novembro de 2012

Já temos idade pra morrer de amor


Não se afobe não, que nada é pra já
O amor não tem pressa, ele pode esperar
Em silêncio
(...)
Não se afobe não, que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá, se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia deixei pra você
(Futuros amantes – Chico Buarque)


Estimado amigo imaginário,

Chegou-me ontem a carta sua, remetida aí das cercanias do inexistente, contando sobre as aflições sentidas pelo coração. Respondo apenas hoje, porque primeiro deixei-me impressionar pelas suas palavras de desencanto, para só depois articular ideias que pudessem alentá-lo dos desenganos da alma.

Na breve correspondência, você conta ter lido “O amor no tempo do cólera”, do Garcia Marques. Sua conclusão é de que na história não havia amor, apenas personagens resignados e possessivos. E medita se seria possível um amor irrealizado que durasse, como no livro, 51 anos, 9 meses e 4 dias, sem que nada se fizesse para matá-lo, ou para finalmente fruí-lo. Num arroubo de escapismo, você proclama que, doravante, lerá apenas os clássicos infantis, onde a felicidade é sempre inesgotável. Sente-se por fim angustiado, “com um abismo no peito onde o eco não tem fim”.

Meu amigo tão querido, sua aflição é também a minha. Tenho sentido que a angústia que o oprime não é fruto da história contada no livro, mas sim de sua própria história, de que o livro foi apenas o eco que se fez ouvir neste abismo sentimental.

Não se aflija tanto assim. Sofrer com o respaldo das artes, sobretudo as literárias, é infinitamente menos doído que sofrer desamparado de todo. A obra que reflete ou revela ou exacerba nossas angústias, as torna mais agudas, mais cortantes; entretanto, não há dúvida de que as torna também mais suportáveis. A literatura por vezes é nossa fuga, nosso escape, nosso alento. A literatura é, no mais das vezes, nossa salvação.

Quanto aos desencontros passionais, aos laços que se interrompem ainda plenos de afeto, não sou das melhores para conselhos amorosos, mas uma coisa tenho como certa: não haveremos de fugir do amor; por mais inconstante que seja, é sempre o que nos redime e nos consola das agruras dessa nossa existência.

Sua carta de certo modo alegrou-me, pois sempre conforta saber que não estamos sós em nossos conflitos e contradições. Talvez sejamos os últimos românticos do século, e já temos idade pra morrer de amor.

Abraços efusivos de sua amiga de sempre, do lado de cá da fronteira do real - o mundo dos (sobre)viventes,

Hendye Gracielle.

domingo, 2 de setembro de 2012

A culpa é do Jorge





“(...) o Buraco Negro, por onde desaparecem, no infinito do esquecimento
e do nada, os objetos definitivamente perdidos.
(...) Contra o Buraco Negro, por onde nós mesmos um dia
seremos sugados, simplesmente não há solução.”
(Fernando Sabino)



Tem gente que tem mania de perder coisas. Li, em Sabino, que deve existir um buraco negro onde vão parar todas as coisas sumidas e perdidas do mundo. Uma seção cósmica de “achados e perdidos”.

Com toda certeza, lá em casa tem um buraco negro desses. Deve ficar no corredor, cujas coordenadas geográficas são estratégicas para receber os objetos desaparecidos do quarto, do banheiro, da sala e do escritório. E, por sedex, os objetos que perco na rua. Sua profundidade não será medida em palmos, como todo buraco que se preze, mas já em hectares, pois são incontáveis os objetos que consigo fazer desaparecer, como um Midas do ostracismo: tudo o que toco, em vez de virar ouro, desaparece para sempre. A situação é calamitosa. Em minha residência tão mundana, São Longuinho é dos poucos santos para quem eu faria um pequeno oratório e, eventualmente, acenderia algumas velas – isso, é claro, se eu conseguisse encontrar a caixa de fósforos que sumiu anteontem.

Até aí, normal. O que já começa a estranhar é que essa mesma pessoa – no caso, eu – tenha mania também de fazer listas. Todas as modalidades de lista. Tenho as listas clássicas - filmes vistos, livros lidos, livros adquiridos, lugares visitados (com os pormenores de cada passeio), CDs e DVDs, objetos emprestados. E de vez em quando cismo de fazer listas mais insólitas. Hoje mesmo, tendo perdido o terceiro fone de ouvido do mês, pensei em fazer uma lista de objetos que somem. Como não achei a caneta, desisti da empreitada.

É um contrassenso: sumir as coisas normalmente é característica de gente desorganizada; fazer listas, ao contrário, é costume de quem gosta de se organizar. Dizem que sou bastante organizada. Os desafetos dizem mais: que isso, em mim, beira à neurose. Na minha gaveta da sala, os CDs e DVDs estão organizados por ordem alfabética, para facilitar sua rápida localização. Na estante da biblioteca, os livros agrupam-se por categoria: literatura em língua portuguesa, literatura em língua estrangeira, poesia, coleções, livros infantis, livros de cinema, e, relegados às áreas mais empoeiradas e menos acessíveis do móvel, os livros jurídicos dividem espaço com auto-ajuda empresarial. E para ocupar uma vaga nessa minha estante já esquadrinhada, os livros devem antes passar pela catalogação na lista que mantenho no computador (e agora na nuvem do google), onde inscrevo o nome da obra, do autor, editora, procedência e observações relevantes (ex.: se está autografado, se foi comprado em viagem, se foi presente, se foi surrupiado de algum amigo incauto etc). Na minha casa, as coisas têm seu devido lugar – entretanto, somem.

Por isso resolvi escrever essa crônica, que já vai pelo fim – tentativa vã de compreender esse paradoxo existencial: o de ser ao mesmo tempo a pessoa que “faz listas” e a pessoa que “some coisas”. Criaturas assim são, de ordinário, incompatíveis, como já disse. Não podem ocupar o mesmo ser. Cabe exorcizar uma delas, ou, solução mais humana, botar a culpa em alguém.

E como não tenho irmão a quem atribuir meus infortúnios domésticos, só posso crer que, a despeito de todo meu esforço organizacional, existe um ser invisível que sorrateiramente subtrai as minhas coisas e nunca mais as devolve. O leitor que é assíduo dessas pequenas crônicas já advinha que a conclusão possível é somente uma: a culpa é do Jorge.



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PS.: Se você é recém-chegado nessas paragens, e ainda não sabe quem diabos é Jorge, descubra aqui: "Salve, Jorge!".


sábado, 5 de maio de 2012

Salve, Jorge!


Quem diabos é Jorge?

Jorge é meu amigo imaginário da infância. Eu me recordo de falar sobre ele quando criança, de me referir a ele, de me dirigir a ele etc. De modo muito verdadeiro. Mas, pra ser sincera, não tenho a mínima idéia de como ele era.

Lembro-me, sobretudo, do que a minha família me conta. Das nossas peripécias com Jorge.

Certa feita, estávamos, eu criança e minha pequena família, entrando apressados num carro de algum conhecido, para irmos não sei onde, quando eu muito gravemente pedi:

- “Espera, espera, gente; deixa Jorge entrar primeiro. Vai, Jorge!”

Eu sou filha única, como vocês já devem ter imaginado...



E por que "cartas", se não há neste exíguo blog uma missiva sequer?

Um domingo à noite desses, momentaneamente emergi da minha “depressão pré-segunda-feira” para assistir a trechos da entrevista de José Castello no “Conexão Roberto D’Ávila”. José Castello é cronista e crítico literário, mas surpreende pela doçura de suas críticas, menos técnicas e mais apaixonadas. Nada ferozes, ao contrário do que sói comprazer aos críticos de carteirinha.

O entrevistado explicou, em outras palavras, que escreve como quem redige cartas a um amigo, para contar de algo apaixonante ou intrigante que tenha lido.

Dados os devidos créditos, vou descaradamente me apropriar da ideia, e escrever meus despretensiosos textos como quem manda cartas a um amigo. Ao Jorge. 

Espero escrever ao menos um post por semana, mas não garanto, porque tenho muita preguiça e pouco tempo. Nesta ordem.

Terminemos, pois, pelo princípio:

“Caro Jorge, meu amigo imaginário, saudações!

Escrevo sobre o que tenho visto, ouvido, sentido. Para recomendar, para elogiar, para compartilhar. Por vezes, somente para atender ao ímpeto de registrar o pouco que tenho vivido.

Você, meu bom amigo, há de gostar dessas linhas, se não pela (duvidosa) qualidade, pela satisfação de servir de paciente interlocutor a uma amiga de infância.

Saudades (de não estar só no mundo).

Hendye”