(Ilustração, como sempre, surrupiada do Troche)
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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
terça-feira, 17 de dezembro de 2013
RÉQUIEM PARA FLORES - Pequena crônica de adeus
"– A vida, senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é,
começa a piscar. Quem pára de piscar chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e
fechar os olhos – viver é isso. (...). Um rosário de piscados. Cada pisco é um
dia. (...) e por fim pisca pela última vez e morre.”
(Monteiro Lobato)
O fato mais assombroso da vida é
viver e, de repente, não viver mais. A pessoa existir durante a vida inteira e,
num segundo, desexistir. E esse segundo ser pra sempre. E o “pra sempre” ser
igual a “nunca mais”.
A morte é mesmo o paradoxo da
vida. Seu oposto e sua continuação. Seu natural e sua negação. Mesmo certa para
todos os viventes, quando chega, com ou sem prévio aviso, nunca deixa de
surpreender. É porque se morrerá um dia que se dá valor à vida. E quando uns
morrem é que outros aprendem a viver.
A astronomia nos ensina que
continuamos a perceber o brilho das estrelas mesmo após elas já terem
desaparecido do universo. E que quanto maior a estrela, menor seu tempo de
existência. A astronomia nos ensina para a vida.
Embora dispersos pelo mapa,
estamos todos juntos no cais de partida, acenando com a mão as mais sentidas
despedidas ao navio que parte levando uma pessoa que aprendemos a amar. Felizes
pelo (breve) encontro, angustiados pela (incompreensível) partida, inseguros, mas
acreditando que nenhum navio parte sem rumo, nenhuma pessoa parte sem
explicação.
Por isso temos braços longos para os adeuses (...)
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.
(Vinicius de Moraes)
Adeus, Lívia Flores. Adeus, Lívia
Estrelas.
Até quem sabe. A Deus.
Fiquemos em paz.
Para meu Tio querido.
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
Feliz aniversário pra mim! (ou A Origem das Palavras)
Penetra surdamente no reino das palavras.
Drummond

Comemoramos essa semana meu 26º
aniversário. Um quarto de século ficou definitivamente para trás, e agora me
sinto assustadoramente perto dos trinta. Nessa entressafra etária, surpreendi-me
meditando sobre a vida; não sobre grandes feitos, até porque não os há em minha
parca existência, mas sobre pequenos acontecimentos que ajudaram a fazer de mim
essa (esquisitice) que sou. Nisso acabei descobrindo que algumas simples
palavras têm lugar carinhoso nas pequenas memórias de minha vida.
Nem só de livros se constrói o
léxico sentimental de uma criatura como eu. Os amigos queridos são fonte
inesgotável de conotações, denotações e, por que não, chateações sintáticas. Já
fui xingada de culta pela Coração
Gelado, e elogiada de pedante pela
querida Pratinha. Meu amigo Johnny me falou uma vez sobre os perdigotos, e um mundo de gotículas de
salivas saltitantes se descortinou para mim. A propósito, eu sempre duvidei da
verdadeira existência da palavra perdigoto,
até o dia em que li uma citação acadêmica sobre os perdigotos de ninguém menos
que Drummond! Desde então eu passei a enxergar com mais lirismo as salivinhas brilhantes
que as crianças expelem ao assoprar a vela do bolo de aniversário. Que a
gente come depois!
No emprego de burocrata que ocupo
desde os dezenove, aprendi também umas e outras, quase sempre palavrinhas
insossas como diligência e contingência (monótonas até na rima). A
turma do trabalho é que me salva do tédio vocabular. Os colegas inventaram para
mim a classe gramatical dos diminutivos bilíngues: chamam-me Pequena Little Hendyezinha, quando, por
algum motivo inescrutável, desejam me agradar. O mais comum, entretanto, é que me
aborreçam para se divertirem, e com essa finalidade eles me atribuíram a
alcunha de Hendyslaine Stefanelle, conseguindo
superar minha própria mãe na (duvidosa) criatividade dos nomes próprios.
Mas se minha mãe não foi lá muito
feliz na escolha do prenome – digo isso aguardando a justa reprimenda materna
que virá –, na formação do meu caráter ela foi sensacional. Perdoem se me
excedo na imodéstia, mas é apenas em reconhecimento filial que digo: a educação
que mamãe me deu é irrepreensível. Mais que palavrinhas bonitas, ela me ensinou
valores, me ensinou respeito, me ensinou generosidade, e, de quebra, me ensinou
Chico, Caetano, Elis. Só não me ensinou a cozinhar, de modo que palavras como
gratinar, escumadeira, marinar, banho-maria, flambar, caçarola, são para mim
tão incompreensíveis quanto as mais herméticas concepções filosóficas pós-modernas.
Não posso me esquecer dos
vocábulos marcantes que me vieram pelos livros, repositório mágico da palavra
escrita. O Pequeno Príncipe, por exemplo, indo-se embora de um dos planetas que
visitou, ensinou-me o verbo evadir:
“aproveitou, para evadir-se, pássaros selvagens que emigravam”, é o trecho que
sei de cor. Apesar da origem pueril, mais tarde a palavra perdeu o encanto,
pois topei com ela várias vezes nas lições de Direito Penal, cujo código mais
parece um compêndio das mil e uma maneiras de um infrator se evadir, sendo o habeas corpus a menos emocionante delas.
Ainda na incipiência de minhas
incursões literárias, aprendi com Agatha Christie o verbo pigarrear e outras palavras de similar elegância. Em suas
histórias, bandido, mocinho, vilão, ninguém começa sequer uma frase sem antes
pigarrear, solenemente. Nesses romances policiais ingleses aprendi também os
mais elevados hábitos de civilidade: os assassinos matam sempre com muita
polidez, e as vítimas morrem com uma pontualidade britânica.
A vida foi se complicando, e as
leituras tornaram-se menos inofensivas, mas sempre irresistíveis. Com Drummond
a poesia entrou no meu mundo, descobri o lirismo de Minas, da melancolia e da metalinguagem, e coisas tão díspares me pareceram igualmente
deslumbrantes. Com Fernando Sabino descobri que se chamava angústia aquele sofrimentozinho que me doía a alma desde sempre.
Com Manuel Bandeira descobri que essa tal de angústia não tem cura. Com Augusto
dos Anjos, percebi que o que não tem cura é a própria vida. Mas a gente vive, e
acha bom, enquanto houver literatura (e cerveja) pra anestesiar.
Foi este o assombro dos meus vinte
e seis anos: além de carne e osso (e, vá lá, algumas células adiposas), sou
feita também de palavras. Palavras que me vêm dos amigos, dos livros, da
família, dos amores, da escola, do samba, do cinema, do rock, do cotidiano, do
mundo. Que venham sempre muitas mais, palavras novas ou renovadas ou inventadas
ou reinventadas, e por ainda muitos anos.
Feliz aniversário pra mim!
Hendye Gracielle
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sábado, 29 de setembro de 2012
“Existirmos, a que será que se destina?”¹
Às vezes eu me pergunto, pra que diabos é
que estamos aqui, nesse mundão de deus? Por qual motivo passarmos por essa
contingência carnal que é a existência, se não há sequer a certeza de uma morte
eterna, ao final do suplício?
Há os que sofrem durante toda a vida,
desguarnecidos ante as intempéries do existir. De outro lado, há aqueles que passeiam
em vida eterna de deleites esplêndidos, herdeiros do Éden, latifundiários da bem-aventurança.
E nos há. Nós, os medianos. Nós, os remediados. Nós, cuja vida não é nem
Pasárgada nem Gomorra. Nós, de debates mornos e lutas comedidas. Nós, os
entusiastas do cotidiano. Nós, os clandestinos das estatísticas oficiais. Nós,
os habitantes do limbo sócio-político-econômico-sentimental. Nós, os verdadeiros
impostores.
Eu tenho cá essas preocupações, à maneira
dos filmes suecos, onde, na ausência de problemas sociais mais prementes a
serem enfrentados, eles podem ter o luxo de se angustiarem com as questões
existenciais. Culpada pelo conforto de que disponho - exíguo, mas ainda assim
privilegiado -, e levemente atormentada pelo mal que não me aflige, eu me
pergunto, sempre e sempre: qual o sentido de existirmos?
Não é surpresa que eu não saiba a resposta.
Se a soubesse, meu nome constaria nos compêndios de filosofia, com sorte; ou,
com azar, na lista negra da Santa Inquisição. Não sei a resposta, e a
perspectiva é de que nunca a saberei com segurança. Impossível é o encontro,
entretanto busco. Não são bem as respostas que nos fascinam, o que nos instiga
são as perguntas – aliás, talvez resida aí a diferença essencial entre
psicanálise e autoajuda.
Evito recorrer a uma e a outra, mas estou ainda
presa à cercania das indagações. Dizem² que o universo conspira a nosso favor. Isso
talvez explique as várias pistas que tenho encontrado mais ou menos ao mesmo
tempo, todas apontando para um mesmo caminho. São de autores que aleatoriamente
vêm me resgatar³. Luc Ferry, filósofo contemporâneo, e seu “amor de salvação”,
que nos salva, dá sentido à vida, revoluciona. Carlos Drummond de Andrade, com seu
fatalismo lírico: “que pode uma criatura senão, entre criaturas, amar? Amar e
esquecer, amar e malamar, amar, desamar, amar? Sempre, e até de olhos vidrados,
amar.” Até mesmo Mário de Andrade, aquele desvairado com mania de correspondência,
parece corresponder-se diretamente comigo, pelo seu Noturno de Belo Horizonte, dizendo-me
que “o amor é muito maior que a paz”. O universo literário conspirou a meu
favor, e agora eu o compreendo. E compreendo aos muitos outros poetas que
cantam e cantaram o amor, e o cantarão, a despeito da rudeza dos
nossos tempos.
Amor ao próximo, à carne próxima, amor de
paixão. Amor de compaixão, o mais difícil e mais sublime: amar ao meu
dessemelhante. Amor de perdição, essa cafonice à qual eu me rendo. É o que nos
alenta nesse mundo aviltante, é o que nos salva nesse supermercado de almas, é
o que faz de nós menos humanos, porque cada vez mais etéreos.
De Almeida Garret conheço um único verso,
decorado do livro de literatura do segundo grau. É apenas um verso, poesia
incompleta, imagem desprendida a vagar pelos meandros da memória. É apenas um
verso, mas tem para mim a força de uma obra completa:
“Esse inferno de amar – como eu amo!”.
Eis a síntese de nossa contradição. Como
pode haver, sob a mesma pele frágil, perfumada e perecível do amor, essa força que
é nosso alento e ao mesmo tempo nossa danação? Como pode esse descabimento
infinito, tão contrário a si mesmo, dar sentido à nossa vida? A compreensão parece
advir da poesia, não só a que encontramos nas páginas de poemas, mas aquela que
existe em cada ser amoroso (“sozinho, em rotação universal”), no lirismo com
que enxergamos o mundo, as criaturas, a dor e a delícia de viver.
Se é nas artes que Deus existe, como ouvi
recentemente de uma colega tão perspicaz, é possível que pela poesia comecemos a
compreender um dos propósitos de nossa existência.
Hendye Gracielle4
NOTAS
1 – O título é trecho da música Cajuína, de Caetano Veloso.
2 – Quando digo “dizem”, quero dizer Paulo Coelho. Relutei em
citá-lo nesse espaço pseudoliterário, mas agora me envergonho da hesitação, e
recebo, no perdão dos leitores menos conservadores, os benefícios da confissão
premiada.
3 – Obriguei-me a não incluir Chico Buarque, porque se eu
começasse a citá-lo, esse texto acabaria num compêndio inesgotável de frases incríveis
e impagáveis.
4 - Crônica com notas de rodapé. Isso aqui tá ficando
chato, ein!
domingo, 5 de agosto de 2012
Eu tive um futuro promissor
Trabalho
em empresa estatal, pra não morrer de fome, e escrevo crônicas, pra não morrer
de solidão.
A
indecisão vocacional faz parte do meu curriculum
vitae – trajetória de vida – desde minha pré-história, embora a consciência
disso seja menos longínqua.
Folheando
antigos cadernos, redescubro antigos sonhos de criança. Evidentemente
estapafúrdios. Como o de ser pintora (de quadros impossíveis), escritora (de bula
de remédios), até mesmo costureira (de trajes invisíveis), e, pasmem, advogada
(de filme americano - mas já descobri que os tribunais cinematográficos superam
com folga nossa insossa realidade forense).
Houve
um breve período em que quis ser webmaster. Aprendi sozinha a programar em
linguagem HTML, e fiz dois ou três sites medianos, que ainda hoje navegam à
deriva na rede mundial. Empolgada com a informática, frequentei até curso de
montagem e manutenção de microcomputadores. O entusiasmo durou até o dia em que
meus tímidos conhecimentos tornaram-se obsoletos. Foi bastante rápido, e é
claro que não tive ânimo para acompanhar o frenesi da evolução cibernética. Eu
ainda não sabia, mas já tinha em Macunaíma meu anti-herói inspirador: “Ai, que
preguiça”.
De
um extremo a outro, escrevi alguns poemas na adolescência, mas depois de um
tempo julguei a temática pueril e a forma pouco revolucionária. Abandonei-os
com afinco, e apenas minha avó sente falta daqueles rabiscos.
Cresci,
quis ser jornalista, e fui cursar Comunicação Social na UFMG. O curso disponibilizava
quatro modalidades de graduação, o que me fez mudar de opinião a cada quarenta
e cinco dias. Entrei como jornalista, cogitei “relações públicas”, interessei-me
por “rádio/TV”, mas seduziu-me a publicidade. Sendo esta última incompatível
com meus ideais libertários, voltei para o jornalismo, definitivamente. Minha
aventura acadêmica na metrópole durou até o final do semestre, quando tranquei
a faculdade e voltei pra terra do pequi.
O
motivo do meu retorno eu nunca soube com clareza, e a cada pessoa que me interpelava
eu respondia algo diferente, pensado na hora e esquecido em seguida. Tudo
verdade. Certamente houve várias motivações, algumas inconfessáveis. A saudade
da família contribuiu, mas só a um amigo imaginário ousaria segredar tal
fraqueza sentimental. Às vezes me convenço de que o motivo mais decisivo foi
ouvir tantas pessoas dizerem que o jornalista tem a grande responsabilidade de
entender de todos os assuntos. Meu fraco ânimo assustou-se com a perspectiva
aterradora de saber de tudo um pouco, e escorei-me em Sócrates para elegantemente
declinar da responsabilidade: “tudo que sei é que nada sei”. Argumento
filosófico irrefutável, e foi o fim de (mais) um sonho.
Abandonado
o jornalismo, voltei para cursar Direito na Unimontes. Nos dias úteis eu
freqüentava as aulas; nos inúteis, elucubrava profissões que pudessem me resgatar
daquele abismo jurídico em que voluntariamente me precipitei. Por razões felizmente
esquecidas, pensei em estudar letras, psicologia, psicanálise, sociologia, biblioteconomia,
as infinitas variações de engenharia, filosofia, ufologia e zen-budismo. Pensei
até em fazer cinema, influenciada pelo Cinema Novo e pela resposta de Joaquim
Pedro de Andrade à pergunta “por que você faz cinema?”:
“(...) para que conhecidos
e desconhecidos se deliciem / para que os justos e os bons ganhem dinheiro,
sobretudo eu mesmo / porque de outro jeito a vida não vale a pena (...)”.
Algo
que fizesse minha vida valer a pena, era o que eu procurava. Em vão. É lamentável
que não exista um Google para buscas existenciais; para isso temos apenas o
divã do analista, que ainda não experimentei, com medo de me viciar. Nesse meio
tempo, terminei a faculdade, e o caminho mais óbvio que se me apresentava era o
dos concursos públicos de nível superior.
Sempre
que penso em prestar novos concursos, sinto uma dor aguda um pouco abaixo da
costela direita, que interpreto como prenúncio de tédio, mas acho que pode ser também
sintoma de preguiça.
A
única carreira jurídica que fez meus olhos brilharem foi a de diplomata,
seguramente a menos entediante. Mas para ingressar na diplomacia, devem-se
falar três línguas estrangeiras, obstáculo por ora intransponível: no meu inglês
“the book is (still) on the table”. De outro lado, je ne parle pas le français, embora tome lições semanais do idioma, o que até agora só me ajudou a pronunciar
o nome dos meus cineastas preferidos. E em espanhol sei apenas dois palavrões decorados
dos filmes de Almodóvar. Menos cosmopolita do que eu gostaria, só domino mesmo a
língua de Camões, ainda assim em parcos vocábulos. Como resultado, a diplomacia
acabou virando objetivo de longo prazo, talvez daqui a duas encarnações.
Periodicamente
volto a sentir uma inquietante vontade de fazer tudo. Às vezes basta esperar a
vontade passar, às vezes não. Há um ditado preconceituoso segundo o qual “quem
sabe, faz; quem não sabe, ensina”. Vai ver ao menos a mim ele se aplica, porque
tenho freqüentado aulas de pós-graduação em docência, que me habilitarão a lecionar
no ensino superior. Só pra completar a mixórdia. (Permito-me abrir um parêntese
para dizer que, nem sempre, quem sabe mais, melhor ensina. A boa docência
requer generosidade, paciência e didática, atributos que não se confundem com o conhecimento,
embora possam andar juntos – menos nas ciências jurídicas).
No
fim de semana passado, minha tia Luciana, que trabalha na área da educação, ofereceu
a minha prima vestibulanda um teste vocacional. Intrometi-me na conversa com
meu tradicional entusiasmo (graficamente representado pela expressão “uh”):
“- Uh, Tia Lu, eu também
quero o teste, pra ver se descubro o que fazer da vida!
- Uai, Grá, talvez você já
até esteja no caminho certo.
- É, eu estou no caminho
certo, só preciso achar a placa de retorno!”
Seguindo
pelo atalho das incertezas, o maior risco que corro é o de ter como epitáfio aquela
desencantada máxima anônima: “eu tive um futuro promissor”. Ou aquele poema de
Leminski, variação menos lacônica do mesmo tema: “aqui jaz um grande poeta / nada deixou escrito / este silêncio,
acredito / são suas obras completas”.
Ainda
hoje poder-se-ia perguntar o que vou ser quando crescer. Não tenho a resposta, talvez
nem chegue a compreender o alcance da pergunta. Nada sei de interrogações ou
exclamações pragmáticas - os meus vinte e poucos anos têm sido pontuados por promissoras
reticências...
sábado, 28 de julho de 2012
Crônicas da tenra infância – parte 3: em Paraty
Eu
não tenho muita paciência com crianças, por isso me espanta a força com que
esses episódios por elas protagonizados se arraigaram na minha memória
sentimental. Tais momentos são furtivos; somente na distração encontra-se a
leveza necessária para que aconteçam. Pegam-nos de surpresa quando nossas
personas estão desnudadas. Foi o que ocorreu em minha viagem a Paraty, quando
fui visitar a FLIP - Festa Literária Internacional – deste ano. Foi com um
menino de rua que vivi a experiência mais poética da temporada.
Era
tardezinha de sábado, estávamos haurindo os últimos momentos em Paraty, tomando
um caldo verde com torradas em uma mesa de bar nas ruas do Centro Histórico.
Era o ocaso melancólico de nossa incursão cultural. O menino aproximou-se de
nossa mesa e perguntou se podia cantar. “Se você quer cantar, pode cantar”,
respondi. “Mas tem que pagar”, ele redarguiu. Após acertamos o preço, porque
nem mesmo o lirismo escapa às agruras do capital, a criança começou a cantar.
A
cantoria era tão desentoada que imediatamente pedimos que parasse; ele
receberia o acertado para fazer o favor de não cantar. Creio que o canto era
penoso pra todos nós, inclusive pra ele, que pareceu satisfeito em silenciar.
Sentindo-se convidado, sentou-se à nossa mesa e pegou uma torrada. Nesse mesmo
momento eu também comia, e vendo-me molhar minha torrada no meu caldo, com
naturalidade pegou sua torrada e a mergulhou na minha tigela.
Não
foi petulância, não foi grosseria. Foi com a naturalidade de uma criança que vê
algo que parece bom e quer prová-lo; que imita um gesto sem extrapolar-lhe o
sentido. Até as pessoas da mesa ao lado sorriram com a cena. Aquilo me
enterneceu, achei até mesmo generoso de sua parte que ele repartisse comigo
minha própria refeição.
Esse
episódio singelamente marcou minha viagem, e tem acompanhado a narrativa das
demais peripécias da FLIP, feitas a quem pergunta como foi o passeio. Nessas
horas, meus interlocutores ouvem meu relato, mas é pena que não ouçam a trilha
literária que passa na minha cabeça ao falar dessa criança, que na minha
lembrança tem o rosto de tantas outras com quem cruzo nas ruas da cidade:
“Em
casa de menino de rua
O
último a dormir apaga a lua”
(Giovanni
Baffô)
Ao
menino de Paraty dedico essas linhas de memória afetiva e a trilha do ato
final.
***
Leia também:
quarta-feira, 18 de julho de 2012
Crônicas da tenra infância – parte 1: no cinema
Antes que alguém me desmascare, vou logo confessando: não sou muito fã
de criança. Desde que cresci. Não me faça essa cara de espanto (ou comiseração);
não me orgulho disso, mas também não me envergonho. Ilustres pensadores
concordam comigo. Veja lá, na última edição do Aurélio: “criança: s.f.;
eufemismo para pestinha, em geral catarrento, cuja existência objetiva fazer do mundo o lugar mais
barulhento possível”. Principalmente o mundo lá perto de casa.
Há quatro anos, contudo, o surgimento de um afilhado em minha “vidinha
mais ou menos” apaziguou um pouco essa rabugice. Não há franzir de testa que
resista à ternura de ouvir dizer “Dindinha”, mesmo que a palavra seguinte seja “urubu”.
Eu comecei a achar lindo ouvir palavras incompreensíveis e ver desenhos
estrambólicos de mim mesma, do tipo em que só se distinguem dentes e cabelos (devidamente embaraçados).
Eu já tinha ouvido contarem, ou visto na televisão, cenas em que a
pureza infantil apaziguava por instantes esse mundo tão hostil. Sentimentos
pueris abrindo brechas na sequidão da vida cotidiana.
A primeira vez que vivenciei uma dessas situações verdadeiramente sublimes
envolvendo uma criança foi, claro, com meu afilhado. Fomos ao cinema para assistir
a um desenho em 3D. Era sua primeira vez, mas eu não sabia. Entramos, colocamos
os óculos, acomodamo-nos. Após alguns minutos observando atentamente as
imagens, ele levanta os bracinhos e mãos inquietas, e inocentemente tenta
agarrar a imagem que flutua diante dos seus olhos.
Simplesmente isso: sorrindo de fascínio pela mágica do que via, ergueu
os braços e mexeu as mãozinhas, tentando tocar as imagens que vinham em sua
direção.
Ali no cinema, na companhia do meu afilhado, tive vontade de parar o
tempo e conservar essa espontaneidade, essa ingenuidade de gestos, esse
deslumbramento que vi em seu rosto iluminado. De forma tão espontânea tenta
agarrar o irreal, o sonho, a magia, a fascinação.
Após o filme, me veio à memória um poema de Manuel Bandeira, e desde
então não consigo evitar recitá-lo mentalmente, sempre que me lembro daquele
dia:
A criança olha
para o céu azul.
Levanta a mãozinha,
Quer tocar o céu.
Não sente a criança
Que o céu é ilusão:
Crê que o não alcança,
Quando o tem na mão.
Parece-me que tanto o poema como o episódio no cinema, cada qual a seu
modo, ilustram os mesmos traços de puerilidade, ingenuidade e contemplação,
pelos quais a criança naturalmente se deixa guiar. Ela tenta provar o que seus
olhos vêem: ainda não sabe que as coisas nem sempre são o que aparentam ser.
Toma por mágico o que é ilusão, e fascina-se desmedidamente.
Também eu me fascinei, e fui criança naquele momento: deixei-me levar
pela surpresa, pela empolgação, pela admiração, e não tive pudor em
deslumbrar-me. Aquele momento singelo causou-me uma comoção tão profunda, que
compreendi empiricamente o que se pode chamar de sublime.
Talvez ainda haja remendo para minha rabugice; talvez a criança que
fui ainda tenha salvação.
***
sábado, 12 de maio de 2012
Da nossa vontade urgente e nossa sede infinita
Veja você, meu amigo Jorge, o que o amor é
capaz de suscitar no coração das criaturas de carne e osso.
******
"i like my body when it is with your
body. It is so quite new a thing.
Muscles better and nerves more.
i like your body. i like what it does,
i like its hows."
(e. e. cummings)
Gosto
do seu cheiro, da sua pele, do seu cabelo.
Gosto
do cheiro da sua respiração. Quando a gente se beija, é também pelo olfato que você
inunda a minha alma.
Gosto
da temperatura do seu corpo, quando meu rosto toca a sua pele. Gosto da ponta
dos seus dedos nas minhas costas; gosto da mãozinha leve que me acaricia ou da
mão segura que me conduz ao abismo e me traz de volta.
Gosto
dos meus dedos nos seus cabelos, escorregando por entre os fios. Forte ou de
leve: desejo ou cafuné.
Gosto
do seu rosto e da sua gargalhada. Da sua elegância desajeitada. De quando você
desafina ao conversar. Do seu sorriso de olhos fechados.
Gosto
das nossas conversas sobre tudo e sobre nada. Das discussões metafísicas, das
aflições domésticas. De assuntos pretensiosos discutidos a meias palavras,
quando o esforço é dispensável e a afinidade é completa. Gosto das
discordâncias e contradições; vem você com a tese, eu com a antítese, e a
síntese é nossa.
Gosto
de compartilhar com você os valores pelos quais eu vivo. Gosto de sua presença,
que me faz esquecer as agruras deste mundo de absurdos. Gosto do pensamento que
ao mesmo tempo é meu e é seu. Das referências a livros e filmes que mais
ninguém viu. Da nossa vontade urgente e da nossa sede infinita.
Gosto
da cafonice das nossas juras de amor.
Hendye
Gracielle
12
de maio de 2012
******
PS.:
1.Poema completo do e. e. cummings:
“i like my body when it is
with your
body. It is so quite new a
thing.
Muscles better and nerves
more.
i like your body. i like
what it does,
i like its hows. i like to
feel the spine
of your body and its bones,
and the trembling
-firm-smooth ness and which
i will
again and again and again
kiss, i like kissing this
and that of you,
i like, slowly stroking
the, shocking fuzz
of your electric fur, and
what-is-it comes
over parting flesh … And
eyes big love-crumbs,
and possibly i like the
thrill
of under me you so quite
new”
2. Tradução direta
(www.nemumpoucoepico.com)
eu
gosto do meu corpo quanto ele está com o seu
corpo.
É uma coisa tão nova.
Músculos
melhores e nervos mais.
eu
gosto do seu corpo. eu gosto do que ele faz.
eu
gosto dos seus comos. eu gosto de sentir a espinha
do
seu corpo e seus ossos, e a trêmula
-firme-suavi
dade e que eu vou
novamente
e novamente e novamente
beijar,
eu gosto de beijar isso e aquilo de você,
eu
gosto, suavemente acariciando a, penugem escandalosa
do
seu pêlo elétrico, e o-que-é-isso vem
acima
da carne que se separa… e olhos grandes migalhas-de-amor,
e
possivelmente eu gosto da excitação
de
sob mim você tão nova.
3. Versão declamada pela Ana Carolina
nos shows
Eu gosto do seu corpo
Eu gosto do que ele faz
Eu gosto de como ele faz
Eu gosto de sentir as formas do seu corpo
Dos seus ossos
E de sentir o tremor firme e doce
De quando lhe beijo
E volto a beijar
E volto a beijar
E volto a beijar
Eu gosto do que ele faz
Eu gosto de como ele faz
Eu gosto de sentir as formas do seu corpo
Dos seus ossos
E de sentir o tremor firme e doce
De quando lhe beijo
E volto a beijar
E volto a beijar
E volto a beijar
domingo, 6 de maio de 2012
“Por isso temos braços longos para os adeuses”
Essa
semana o pai de um querido amigo faleceu, e eu me vi sem palavras que pudessem
confortar sua dor e demonstrar meu pesar.
Lancei
mão de um poema de Vinicius de Moraes, que relera há poucos dias, sem saber que
estaria próximo o infeliz momento de empregá-lo. Na ocasião, apenas achei-o
sublime.
Lembrando
do poema, senti-me satisfeita por ter o livro na estante. Em vez de empreender
uma mecânica e fria busca no Google, com o livro em mãos pude folhear suas
páginas à procura do poema, o que proporcionou ao momento a intensidade que ele
merecia. E pude transcrevê-lo de próprio punho da página ao cartão,
materializando meus sinceros pêsames com o cuidado e a delicadeza que meu amigo
com toda certeza merece de mim e do mundo.
POEMA
DE NATAL
(Vinicius
de Moraes)
Para
isso fomos feitos:
Para
lembrar e ser lembrados
Para
chorar e fazer chorar
Para
enterrar os nossos mortos –
Por
isso temos braços longos para os adeuses
Mãos
para colher o que foi dado
Dedos
para cavar a terra.
(...)
Pois
para isso fomos feitos:
Para
a esperança no milagre
Para
a participação da poesia
Para
ver a face da morte –
De
repente nunca mais esperaremos...
Hoje
a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos,
imensamente.
Escrevi os trechos acima, e só então tive a profunda compreensão da beleza e da imensidão dos dois últimos versos, os quais eu sabia de cor, mas não de coração. Acho que a beleza do poema conforta, e a redenção dos últimos versos traz esperança aos que crêem. Não uma vã esperança de impedir a morte, posto que já consumada, mas de transcendê-la.
E me senti, de certa forma, aliviada pela compreensão ter surgido do luto alheio.
E um pouco culpada pela sinceridade do pensamento.
Hendye Gracielle
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PS.: está na página 88 do livro “Nova
antologia poética”, de Vinicius de Moraes. Edição da Companhia de Bolso, os
poemas foram selecionados por Antônio Cícero e Eucanaã Ferraz.
Sou grata à querida colega Luana, que me
presenteou com o livro por ocasião de minha formatura, com a gentil
dedicatória: “És preciosa aos meus olhos”. Que delicadeza!
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