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quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Jeitinho "homo sapiens" de ser

Ao ensejo de minha mudança de emprego, uma cronicazinha que achei esquecida na gaveta...

Causos verídicos do milenar ofício de cobrador
- Ou: “jeitinho homo sapiens de ser”

“O aumento da inadimplência da Caixa Econômica Federal no primeiro trimestre deste ano já é um reflexo das dificuldades que o banco estatal enfrentará até o primeiro semestre de 2015”. (Folha de S. Paulo, 22 de maio de 2014)

“A Caixa Econômica Federal prevê queda em seu índice de inadimplência neste segundo trimestre (...)”. (Agência Reuters de Notícia, 22 de maio de 2014 – mesmo dia)

Dizem ser o meretrício a profissão mais antiga do mundo, do que eu modestamente discordo. Antes de se cuidar das aflições da carne, o mais provável é que se tenham cuidado das aflições do bolso, mesmo naquela época em que estes não existiam, por andarmos nus. Do mais remoto episódio registrado nos anais da história humana, diz-se que a serpente ofereceu a maçã àquela notória estreante do gênero feminino, mas omite-se o fato de que essa mesma serpente era, além de víbora mexeriqueira, uma contumaz devedora nas transações comerciais que se operavam no Paraíso. Há fartas provas, embora apócrifas, de que dona Serpente tinha por hábito dar calote no vendedor de maçãs, além de manter-se inadimplente quanto à maior parte dos serviços essenciais prestados no Jardim Sagrado – gás encanado, telefone, água, fiat lux. Se até os répteis eram notórios devedores no Éden, o mais provável é haver por lá também os respectivos cobradores, a lhes oferecerem diariamente paradisíacas propostas de negociação.

De outra parte, mais científica e menos sacrossanta, renomados centros de pesquisa arqueológica de Harvard e Cambridge apresentaram evidências de que na pré-história a atividade de cobrador já era largamente exercida, consoante comprovam pinturas rupestres nas quais constam imagens de indivíduos de dedo indicador em riste, supostamente negando a existência da dívida a eles imputada. Os pesquisadores descobriram, ainda, uma bem conservada pintura de um animal silvestre sendo repartido em sessenta pedaços iguais, com juros de 1% a.m., o que vem sendo considerado o primeiro parcelamento de que se tem notícia na história da espécie humana. Certo é que, neste ofício milenar e ao mesmo tempo contemporâneo de cobrar dívidas que aqui se fazem e não se pagam, atuam dois tipos básicos de seres, ambos interessantíssimos: de um lado o distinto senhor cobrador; de outro lado, o (não menos distinto) senhor devedor. Vamos a eles.

(Ilustração, como sempre, surrupiada do Gevasio Troche)
A bat-equipe do bat-local onde trabalho dá boas mostras do que vem a ser essa diversidade de tipos, já que a principal atividade do setor é o combate à inadimplência, cobrando dívidas de todo o estado de Minas Gerais.  Pra começar, contamos com dois negociadores nordestinos: Ceará e Paraíba. Com tanto cabra arretado, de vez em quando a negociação vira um “risca‑faca” que sobra até pra quem já é “defunto morto”, como se diz por aí. Certo cliente, ao ser cobrado, argumentou que o seu pai, titular da dívida, já não estava entre os vivos:
- “Mas papai já faleceu”.
Ao que Ceará imediatamente rebateu:
- “Pois vamos resolver logo a situação porque senão pode dar problema pra ele!”.
Problema maior do que já ter morrido? Só se for pendência no SPC do além! Eu, ein!

Se os negociadores são do tipo “risca-faca”, as negociadoras são do tipo “top‑model”. Encantadoras na arte de negociar, o inadimplente não apenas quita a dívida como fica fã da cobradora. Uma colega, que atende pelo codinome de Gisele Bündchen, vive recebendo elogio dos clientes, e há suspeita de que alguns até se tornam reincidentes, para receberem novamente sua ligação. Uns pagam sem pestanejar, outros oferecem alguma resistência, logo vencida. Um deles insistiu para que ela abaixasse um pouquinho mais, mas a resposta foi categórica: “eu só posso abaixar dentro das regras, meu senhor!”. É claro que eles estavam se referido ao valor da cobrança... Com tanta simpatia, das senhoras inadimplentes Gisele vira amiga de infância em dois minutos. Dos senhores devedores, já recebeu algumas propostas de casamento, mas recusou todas, porque maus pagadores não fazem seu tipo. Na verdade, ela está à espera do cliente encantado que a leve pra Dubai, com tudo pago (à vista e sem desconto, evidentemente!).

Também entre os clientes encontram-se os mais variados tipos, do “advogado-embromeixon” ao “rebelde‑sem‑causa”, passando pelo já clássico “não-devo-não-devo-não-devo-mas-cê-parcela-pra-mim?”. E aparece sempre o cliente “Datena”, paladino da moral a esbravejar impropérios:
- “Não devo nada! É um absurdo! Chama as autoridades!”.

De vez em quando topamos com o tipo “surdo de conveniência”:
“- Alô! Bom dia! É o José da Silva?”
“- Bom dia, sou eu sim!”
“- Tudo bem? Estamos ligando pra negociar uma dívida.”
“- Ein?”
“- Negociar uma dívida!”
“- Alô, alô... não tô ouvindo nada!”.

Já apareceu até cliente com crise de personalidade:
“- Alô! É dona Maria?”,
“- Sim. Sou eu”,
“- Tudo bem, dona Maria? Estou te ligando pra negociar uma dívida”,
“- Você quer falar com quem?”
“- Com a senhora mesmo. A senhora não é a Dona Maria?”,
“- Não. Nunca ouvi falar dessa pessoa!”.

Sem contar os mortos-vivos:
“-Aqui é do setor de cobrança, gostaria de falar com o sr. Raimundo”,
“-Tô acabando de voltar do enterro dele”.
Ligamos de novo dias depois, e foi o próprio Raimundo que atendeu. (Depois dessa, estamos cogitamos entrar para o ramo da cobrança mediúnica).

Alguns devedores fazem de tudo e mais um tiquinho pra se esquivar do pagamento da dívida. Mas a inventividade dos cobradores não fica pra trás; fazem um tiquinho e mais um tudo pra receber. Argumentos sensacionais não faltam para ambos os lados – deve ser o que o povo chama de “jeitinho brasileiro”, mas eu chamo de “jeitinho homo sapiens de ser”. Se criatividade pagasse conta, a inadimplência desta espécie já estaria abaixo de zero...

Hendye Gracielle

sábado, 4 de janeiro de 2014

Reflexões de ano novo: A vida tem mais fases que o jogo do Mário Bros


“Aos 20 anos, eu sabia latim, mas não sabia tomar um bonde.”
(Carlos Heitor Cony)


Você percebe que está se tornando verdadeiramente uma dona-de-casa quando as suas resoluções de ano novo começam a ficar diferentes. Nada de “economizar para a viagem dos meus sonhos”, “estudar para o concurso da Receita Federal”, “fazer matrícula na academia”. Neste ano novo eu me flagrei fazendo planos assim: “não deixar acumular louça suja por mais de uma semana”; “limpar o banheiro antes de começar a feder”; “fazer as compras da semana pelo menos uma vez ao mês”; “tirar o lixo ao primeiro sinal de seres vivos dentro dele”.

Quando a pessoa sai da casa dos pais e vai morar sozinha, ela usa seu senso comum pré‑adquirido em novelas da TV, comédias românticas do cinema, blogs da internet e gibis da Turma da Mônica, medita dois minutos sobre o assunto e acha que está preparada para assumir sozinha todas as responsabilidades de uma casa e da própria vida. Todo mundo conhece esta matemática: das vinte e quatro horas do dia, eu trabalho oito, durmo oito, sobram mais oito horas para o resto. Isso é mais que suficiente pra cuidar da arrumação da casa, da higiene pessoal e ainda sobrar umas horinhas, no fim de semana, para o lazer. Pronto, a pessoa se acha preparada para a lide doméstica, arruma sua trouxa e – trouxa! – vai saltitante enfrentar o mundo.

Não nego que morar longe dos cuidados da mamãe seja ótimo para o amadurecimento pessoal, o fortalecimento do caráter, o crescimento do espírito. Principalmente se a mamãe continua disponível pra te receber de vez em quando, te fazer uns afagos e uma marmitinha quente pra você comer no almoço. Sendo assim, nada de arrependimentos. Mas isto é inegável: ao sair de casa, ninguém está totalmente ciente do que a vida nova lhe reserva.

E os desafios vão sendo surpreendentes. Você sabe que tem de tirar o lixo regularmente, mas só quando começam a aparecer umas minhoquinhas brancas do lado de fora do saco plástico é que você percebe que precisa lavar a lixeira de vez em quando. Você sabe que tem de fazer limpezas periódicas nos cômodos, mas não se lembra da sua mãe tendo de expulsar todo dia os insetos que entram na sua casa toda noite, sabe-se lá por onde. Você nunca havia se dado conta de que sujava tanta roupa, de que o gás acabava tão rápido, de que as vasilhas de plástico que você tem nunca cabem no espaço reservado a elas. Você não fazia ideia de que precisava descongelar o freezer de vez em quando, afinal nunca viu num filme o mocinho tentando abrir a porta presa pelo gelo, ou a mocinha limpando as grades da geladeira. E, acima de tudo, você se sente só: não tem outra pessoa pra lidar com o síndico, o encanador, o eletricista, a moça do censo, o vendedor de enciclopédias e o cachorro do vizinho. Agora é com você!

Você enfrenta isso tudo e vai se tornando mais confiante. Depois de três anos e meio, vai até gostando. Mesmo assim, tomei um susto quando me dei conta de que as necessidades domésticas invadiram meus planos de ano novo. Aprender a me virar sozinha foi importante, mas sempre me bate um medinho de ser dona-de-casa até demais. Acho que gostava de ser do tipo “pseudo-intelectual-pedante-displicente” do que “dona-de-casa-ex-desleixada-quase-exemplar”. Talvez seja só uma fase, dentre tantas que foram e que virão (a vida tem mais fases que o jogo do Mário no SuperNintendo). Hoje, quando passo por algum shopping center, o que mais ocupa o meu tempo e leva meu dinheiro ainda são as livrarias. Mas – perigo! – as lojas da Tok & Stok já estão em segundo lugar...

 
(Ilustração: Gervasio Troche)


***
Posfácio absolutamente inútil:

Ela: “Que delícia, adorei a crônica! Mas deixa eu te dar uma dica, só pra atualizar.”
Eu: “É sobre o vendedor de enciclopédias”?
Ela: “Não. É que as fases do Mário são extremamente limitadas se você já jogou AQW.”
Eu: “Hein?”
Ela: “Esse é um jogo que meus meninos jogam. Não acaba. Simplesmente.”
Eu: “Ah, mas não é o jogo que EU joguei”.
Ela: “É mesmo! Óbvio que quem tá na fase de dona de casa se lembra é do Super Mário mesmo!”
Eu: “Mas eu não poderia dizer que a vida tem mais fases que o AQW...”
Ela: “Por quê?”
Eu: “Porque a vida acaba!”
Ela: “Credo. Até numa crônica tão fofa você consegue vir falando, ainda que nas entrelinhas, sobre a efemeridade da vida!!!”
Eu: “O.o”

sábado, 27 de julho de 2013

Crônica de Viagem: Paraty é uma festa!

(Desenhos surrupiados de Troche)

A gente conhece os vícios de uma pessoa pela sua maneira de se comunicar com Deus. Já contei em crônica anterior o efeito do tempo em que fui quase uma workaholic, e me surpreendi fazendo uma oração burocrática, neste estilo: “Prezado Deus, favor proteger toda a minha família. Gentileza relevar as falhas, que serão oportunamente retificadas. Certa de sua compreensão, desde já agradeço, amém”.

Na viagem que fizemos neste mês a Paraty, eu e meus amigos percorremos mais de dois mil quilômetros de carro, revezando-nos na direção. Saí de Montes Claros dirigindo, e na primeira parada foi a vez do Macho Jurubeba (que vocês já conhecem de linhas passadas) assumir o volante. Antes de dar a partida, não ficamos surpresos ao vê-lo fazer o sinal da cruz, mas não esperávamos pela concisa oração que ouvimos em seguida: “#PartiuComDeus”! Isto mesmo, com todas as letras e caracteres: “hashtag-partiu-com-Deus”! Quanta modernidade para um Macho outrora Jurubeba de raiz! Descobrimos então que nosso amigo tornara-se um adicto das redes sociais. As gargalhadas inundaram o carro, mas na hora me veio uma dúvida, que não verbalizei para não ser também alvo das veementes chacotas dos amigos: será que Deus curtiu?

Chegando a Paraty, pegamos uma estrada vicinal que levava à Vila de Corisco, onde nos hospedamos. Após transpor 5 km e 27 quebra-molas – alguém se deu ao trabalho de contá‑los – chegamos à Pousada, que logo apelidamos de “Casa da Bruxa”, em decorrência de seu aspecto ecológico-esotérico-filme de terror. Passamos pela recepção e a mocinha nos explicou que a entrada para nosso chalé era pela rodovia mesmo; a trilha interna estava intransitável, porque não dera tempo de limpá-la (fizemos reserva com três meses de antecedência, mas achamos melhor não abordar este detalhe). Perguntamos então qual era a chave para abrir a garagem, ao que a recepcionista respondeu: “Ah, é só meter a mão e abrir”. Opa, agora sim nós nos sentimos efetivamente no estado do Rio de Janeiro, né não, malandragem?

Metemos a mão no portão, estacionamos, entramos no chalé, e logo ao chegar observamos várias velas sobre a mesa, prontas para o uso. Primeiro achamos que se tratava dos preparativos para algum ritual macabro; mais tarde a energia começou a oscilar, e entendemos que as velas estavam ali para serem a nossa luz, caso a elétrica faltasse. Felizmente nada disso aconteceu – nem a falta de energia, nem o ritual macabro -, e as velas permaneceram intocadas, prontas para assustar as próximas vítimas, digo, os próximos hóspedes incautos.

Considerando que um de nós ainda não conhecia o mar, programamos um passeio de barco para o dia seguinte. A bordo da escuna, passamos a tarde toda só na alegria: cerveja gelada, comida gostosa, música ao vivo, ilhas paradisíacas (todas particulares, que pudemos ver, mas não tocar!), mergulho em alto mar. “Mas essa água é muito salgada!”, exclamou o meu amigo para quem o oceano era inédito! Mas tudo – inclusive a inocência – tem um preço! No final da tarde chega a conta para pagarmos, e cada um de nós saca confiante o seu cartão de crédito, milagrosa máquina do tempo que transforma as dívidas de amanhã nas delícias de hoje! Mas há dias em que o milagre falha: descobrimos que o barco não aceitava cartão. Na empolgação etílica em que nos encontrávamos, tentamos resolver discretamente a questão: um gritou que tinha trazido onze reais e cinquenta centavos, a outra disse que ia contar as moedinhas da bolsa, a terceira se ofereceu para lavar os pratos, soluções bastante criativas para se pagar uma conta de três dígitos! As coisas se resolveram quando voltamos ao cais, e propusemos ir ao banco sacar dinheiro, o que a dona do barco só aceitou caso um dos tripulantes nos acompanhasse até lá. Porque “a gente confia, mas não custa prevenir”. Concordamos inteiramente, com carinha de pessoas honestas (que somos) preocupadas com as vigarices que assolam o país.

Para superar a pecha de golpistas acidentais, vestimos a carapuça de “meio intelectuais meio de esquerda” e fomos para a FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty (nossa amiga Coração Gelado diria que fomos “fingir cultura”, mas isso seria pura inveja por ela não estar lá). As Festas Literárias são lugares interessantes porque propiciam que estejamos todos ocupando os mesmos espaços e celebrando em comunhão: nós, apaixonados por literatura; os autores de sucesso, como Ferreira Gullar, Xico Sá, Nicolas Behr e outros que perambularam por lá; e artistas anônimos, que ficam pelas ruas tocando seus instrumentos, vendendo seus livretos, declamando poemas e cantando, respeitosamente, as mulheres. Numa madrugada improvisamos um sarau na praça – na verdade foi uma algazarra de vinhos bebidos no gargalo e poemas declamados pelas metades, mas vamos chamar de sarau, que é pra elevar o espírito. Não sei se atraídos pelo lirismo dos versos ou pela euforia do álcool, alguns poetas vieram ter conosco. Educada que é, nossa camarada Madê foi delicadamente cumprimentar um deles, “Muito prazer”, ao que ele respondeu, “prazer ainda não tivemos, meu bem”. Ênfase no “ainda”, tratava-se de um poeta esperançoso. Outro deles, inquirido sobre suas atividades habituais, declarou que escrevia poemas, ilustrava livros e fazia filhos; deve ter sido bastante frustrante que nenhuma de nós tenha se interessado em experimentar as habilidades que ele, com tanta convicção, afirmava ter.

Mas nem só de esculhambação se faz uma viagem literária. Houve também momentos de tietagem erudita em nossas aventuras. Conseguimos autógrafos do Milton Hatoum (mediante promessas de favores sexuais para uma das recepcionistas) e nosso amigo viciado em internet tirou foto e fez check-in na Adriana Calcanhotto – virtualmente falando, é claro! A única tristeza que guardo é a de que os nossos planos infalíveis de levar a Maria Bethânia ou o Xico Sá para um jantarzinho em nosso chalé tenham falhado. É pena, mas fica como expectativa para uma próxima edição da FLIP. Nossos delírios não conhecem o limite do improvável: Paraty é uma festa sem fim!

Hendye Gracielle

(A FLIP é uma loucura!)

***
Leia também a outra parte –  em outro estilo – de minhas aventuras de julho: “Viagem a São Paulo – relato épico de nossos poucos dias”.

A expressão “Meio intelectual meio de esquerda” está na crônica “Bar ruim é lindo, bicho”, do Antônio Prata, o cronista de nossa geração. Leia na pág. 30 do livro homônimo, ou então aqui: http://blogs.estadao.com.br/antonio-prata/bar-ruim-e-lindo-bicho-1/ . 

Abraços efusivos aos meus leitores invisíveis!

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Quando a gente chega numa certa idade...




Meu amigo ia dizendo, ao me ouvir reclamar da balança: “Quando a gente chega numa certa idade...”. Interrompi-o imediatamente!  Nem sei exatamente qual seria a constatação ou o conselho, mas eu não admito, sob nenhuma circunstância, que me incluam nessa faixa etária periclitante, que é a tal da CERTA IDADE. E sei que “a gente” foi só uma forma polida de dizer “você”, porque o meu amigo é um cavalheiro, apesar deste deslize acachapante.

Alto lá, meu amigo! Se me dizem que eu estou na IDADE CERTA, pode até ser que eu aceite, ainda assim com ressalvas – sempre aparece algum engraçadinho para fazer aquela pausa misteriosa (misteriosamente cretina) e, em seguida, complementar a frase com uma piada irritante. Imagina se me saem com algo como “idade certa pra arrumar um marido”? Eu, ein! O mais seguro é não colocar as palavras “IDADE” e “CERTA” na mesma conversa, seja qual for a ordem dos fatores.

Se IDADE CERTA pode ser ruim, CERTA IDADE é sempre pior. UMA CERTA IDADE é a idade das trevas. Essa CERTA IDADE não se conta em anos, mas em quantidade de vezes que se vai ao médico, ao bingo ou às profundezas do ser. Dizer que fulano chegou NUMA CERTA IDADE, é dizer que neste exato momento ele está lascado, independente de há quantos anos ele tenha nascido.

Não é simples questão de cronologia. Absolutamente! Conheço pessoas com várias décadas de existência, mas que não chegaram nessa CERTA IDADE. E também o contrário, pessoas para quem a CERTA IDADE chegou espantosamente cedo, antes mesmo de aprenderem todos os 576 significados da palavra relacionamento – incluindo aquele que é sinônimo de “pensar mil vezes antes de falar”.

Tentar explicar qualquer infortúnio pelo fato de ter chegado a UMA CERTA IDADE é o mesmo que atribuir qualquer mau humor à TPM. Se o rapaz está nervoso, é estresse do trabalho, do trânsito ou peso das responsabilidades mundanas. Se a moça está nervosa, é TPM. Aprendam, marmanjos insensíveis, que há palavras que são verdadeiras granadas, cujo manuseio deve ser estudado friamente, sob pena de se perder um braço (ou outro membro mais estratégico) ao empregá-las erroneamente. Temeridade máxima: colocando TPM e CERTA IDADE na mesma frase, corre-se o risco de perder a própria vida.

Quanto ao meu amigo do início da história, quase sempre delicado, mas que pronunciou aquela frase tão infeliz, peço desculpas se me excedi na reprimenda. É que cheguei numa certa idade em que já não levo desaforo pra casa...

Hendye Gracielle

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Feliz aniversário pra mim! (ou A Origem das Palavras)


Penetra surdamente no reino das palavras. 
Drummond


Comemoramos essa semana meu 26º aniversário. Um quarto de século ficou definitivamente para trás, e agora me sinto assustadoramente perto dos trinta. Nessa entressafra etária, surpreendi-me meditando sobre a vida; não sobre grandes feitos, até porque não os há em minha parca existência, mas sobre pequenos acontecimentos que ajudaram a fazer de mim essa (esquisitice) que sou. Nisso acabei descobrindo que algumas simples palavras têm lugar carinhoso nas pequenas memórias de minha vida. 

Nem só de livros se constrói o léxico sentimental de uma criatura como eu. Os amigos queridos são fonte inesgotável de conotações, denotações e, por que não, chateações sintáticas. Já fui xingada de culta pela Coração Gelado, e elogiada de pedante pela querida Pratinha. Meu amigo Johnny me falou uma vez sobre os perdigotos, e um mundo de gotículas de salivas saltitantes se descortinou para mim. A propósito, eu sempre duvidei da verdadeira existência da palavra perdigoto, até o dia em que li uma citação acadêmica sobre os perdigotos de ninguém menos que Drummond! Desde então eu passei a enxergar com mais lirismo as salivinhas brilhantes que as crianças expelem ao assoprar a vela do bolo de aniversário. Que a gente come depois!

No emprego de burocrata que ocupo desde os dezenove, aprendi também umas e outras, quase sempre palavrinhas insossas como diligência e contingência (monótonas até na rima). A turma do trabalho é que me salva do tédio vocabular. Os colegas inventaram para mim a classe gramatical dos diminutivos bilíngues: chamam-me Pequena Little Hendyezinha, quando, por algum motivo inescrutável, desejam me agradar. O mais comum, entretanto, é que me aborreçam para se divertirem, e com essa finalidade eles me atribuíram a alcunha de Hendyslaine Stefanelle, conseguindo superar minha própria mãe na (duvidosa) criatividade dos nomes próprios.  

Mas se minha mãe não foi lá muito feliz na escolha do prenome – digo isso aguardando a justa reprimenda materna que virá –, na formação do meu caráter ela foi sensacional. Perdoem se me excedo na imodéstia, mas é apenas em reconhecimento filial que digo: a educação que mamãe me deu é irrepreensível. Mais que palavrinhas bonitas, ela me ensinou valores, me ensinou respeito, me ensinou generosidade, e, de quebra, me ensinou Chico, Caetano, Elis. Só não me ensinou a cozinhar, de modo que palavras como gratinar, escumadeira, marinar, banho-maria, flambar, caçarola, são para mim tão incompreensíveis quanto as mais herméticas concepções filosóficas pós-modernas.



Não posso me esquecer dos vocábulos marcantes que me vieram pelos livros, repositório mágico da palavra escrita. O Pequeno Príncipe, por exemplo, indo-se embora de um dos planetas que visitou, ensinou-me o verbo evadir: “aproveitou, para evadir-se, pássaros selvagens que emigravam”, é o trecho que sei de cor. Apesar da origem pueril, mais tarde a palavra perdeu o encanto, pois topei com ela várias vezes nas lições de Direito Penal, cujo código mais parece um compêndio das mil e uma maneiras de um infrator se evadir, sendo o habeas corpus a menos emocionante delas.

Ainda na incipiência de minhas incursões literárias, aprendi com Agatha Christie o verbo pigarrear e outras palavras de similar elegância. Em suas histórias, bandido, mocinho, vilão, ninguém começa sequer uma frase sem antes pigarrear, solenemente. Nesses romances policiais ingleses aprendi também os mais elevados hábitos de civilidade: os assassinos matam sempre com muita polidez, e as vítimas morrem com uma pontualidade britânica.

A vida foi se complicando, e as leituras tornaram-se menos inofensivas, mas sempre irresistíveis. Com Drummond a poesia entrou no meu mundo, descobri o lirismo de Minas, da melancolia e da metalinguagem, e coisas tão díspares me pareceram igualmente deslumbrantes. Com Fernando Sabino descobri que se chamava angústia aquele sofrimentozinho que me doía a alma desde sempre. Com Manuel Bandeira descobri que essa tal de angústia não tem cura. Com Augusto dos Anjos, percebi que o que não tem cura é a própria vida. Mas a gente vive, e acha bom, enquanto houver literatura (e cerveja) pra anestesiar.

Foi este o assombro dos meus vinte e seis anos: além de carne e osso (e, vá lá, algumas células adiposas), sou feita também de palavras. Palavras que me vêm dos amigos, dos livros, da família, dos amores, da escola, do samba, do cinema, do rock, do cotidiano, do mundo. Que venham sempre muitas mais, palavras novas ou renovadas ou inventadas ou reinventadas, e por ainda muitos anos.  

Feliz aniversário pra mim!

Hendye Gracielle


segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Histórias da carochinha: amigos em Diamantina




Hoje vou falar dos meus amigos. De três, em especial, com quem viajei para Diamantina semana passada. O “Macho Jurubeba”, o “Cara Leve” e a “Coração Gelado”. Não será necessário descrevê-los por perfis psicológicos, características físicas, feições morais. A apresentação será episódica, e logo se lhes conhecerá a alma. Vamos a eles.

O Macho Jurubeba é macho de raiz. Não tem as grosserias do macho alfa, mas não está sob suspeita como o macho metrossexual (embora desconfiemos que ele faz a sobrancelha, mas apenas pra aliviar o peso das pestanas). Ele é fino, mas nem sempre delicado. Ele é engomadinho e limpinho, mas se for preciso anda descalço e come com a mão. Ele é um cavalheiro, mas divide a conta do restaurante, por questão de isonomia constitucional. Ele me censura por usar sacolas plásticas, e pela janela só joga lixo orgânico, que é pra adubar a mãe natureza (embora eu já o tenha explicado que no asfalto nada germina). Ele liga para os pais ao sair e ao chegar. Ele tem um jurubeba móvel, que nos levou até Diamantina. Ele dirige dentro dos limites de velocidade, porque é cioso de nossa segurança. Por isso é que, no primeiro dia, só vimos de Diamantina o sol vespertino, conquanto tenhamos acordado cedo para a viagem. O Macho Jurubeba não se excede em público, porque acha que tem uma reputação a zelar.

Quase um antípoda do Macho Jurubeba, temos a querida Coração Gelado, com quem dividi o quarto do hotel. Nem bem fechamos a porta, ela já espalhou seus pertences pelas três camas disponíveis, zombando da minha necessidade de organização, com seu peculiar: “ah, você é trouxa!”. Com ela no quarto, tive de dormir com o barulho da TV e acordar com o barulho do celular – na sonolência pensei que tinha sido abduzida por uma discoteca voadora não identificada, mas depois descobri que era só o despertador. Nisso tudo, ela nem se abalou, e só depois que eu carinhosamente arremessei o aparelho na sua direção é que Coração Gelado acordou, e ainda me desejou “bom dia!”. “Bom dia pra quem?”, foi a minha resposta mental, entre outros pensamentos impublicáveis.

Coração Gelado não tem frescura, porque frescura é coisa de trouxa. Privacidade é frescura. Guardanapo é frescura. Higiene é frescura. Alimentação saudável é o ápice da frescurice. De manhã, enquanto tomávamos suco, frutas e biscoitos, Coração Gelado bebia um copo duplo de café, frituras e presunto. “Come fruta, Coração Gelado!”, nós lhe dizíamos. “Que frescura é essa de fruta? Fruta é pros fracos. Fruta pra mim é presunto!”. E quem tentará convencê-la do contrário?

Coração Gelado às vezes quase põe tudo a perder. Como no domingo de manhã, feira ao ar livre, artesanatos à venda. Interessamo-nos por um presente que custava quinze reais, e resolvemos pechinchar. Eu habilmente tentando conquistar a simpatia da vendedora, que já estava quase se apiedando da minha pindaíba, quando ouvimos uma voz seca, com sotaque meio paulista, dizer de forma arrevesada: “Dez paga, né”? Era Coração Gelado se pronunciando. Nós nos entreolhamos todos, com cara de “ein?”. A vendedora não entendeu uma palavra, e Coração Gelado repetiu, sem reformular a frase: “Dez paga, né”? Só faltou dizer “mano”. 

Foi o Macho Jurubeba, que é também o rei da lorota, que veio em nosso auxílio, sugerindo à vendedora que não se importasse não: “Coração Gelado é assim mesmo, está achando que aqui é a 25 de março; desde que veio de São Paulo ela ainda não aprendeu outro vocabulário mais amistoso”. Com algum esforço e muito jeitinho, garantimos o nosso desconto, e o dela também.

Enquanto isso, o Cara Leve estava de longe, se rasgando de rir da situação, o que, no seu caso, significa movimentar de leve os lábios num sorriso silencioso, sem se alterar. Mas daí não se conclua que ele seja enfadonho. Pelo contrário, o Cara Leve é divertido, perspicaz, incisivo, cheio de graça – embora não pareça. Sua leveza deve estar escondida na alma.

O Cara Leve tem a voz tranquila, de modo que nunca se sabe quando está brincando, brigando ou simplesmente bocejando. Sua expressão facial não se altera nem em situações extremas, como quando o esganei para a fotografia. Revelada a foto, suspeitei que fosse botox, mas a verdade é que a leveza o deixa sempre com o rosto plácido. O Cara Leve foi nosso guia na viagem, e logo na primeira tarde nos fez caminhar meia maratona atrás de uma festa de universitários, da qual desistimos na penúltima ladeira porque, ao contrário dele, nós não somos tão leves assim.

Mas o Cara Leve nunca incomoda a ninguém, nem quando deseja ser atendido: no carro, pediu-nos gentilmente que colocasse um CD de que ele gosta, e depois de ouvir compenetrado uma meia dúzia de músicas, nos disse com muita leveza: “já estou satisfeito, obrigado, pode trocar o CD se você quiser”. É preciso admitir que eu, com tanto peso (mais no corpo e demais na consciência), queria mesmo era ser leve assim.

Até para fazer chacota o Cara Leve é leve. Ao ver uma fotografia na qual eu estava usando um pijama meio infantil, em vez de rir-se de mim, como os outros fizeram, ele muito calmamente disse algo como: “ah, é um pijama muito lúdico, deve ser quase como dormir com o patati ou o patatá.” (Talvez tenha vindo daí a vontade de esganá-lo).

Se conto todas essas barbaridades dos meus companheiros de viagem, imagino que eles tenham muitas mais a contar de mim. Ainda bem que esse espaço não é democrático, e fica valendo a minha versão irrefutável dos fatos. Para compensar, deixarei fluir o arroubo de sentimentalismo que me acomete, ao falar dos meus amigos (quase sempre) queridos: eles são insubstituíveis, e nossa amizade não tem preço. “Dez paga”?


Hendye Gracielle

domingo, 21 de outubro de 2012

Show do Chico - Parte 3 (final)




Chico é antigo e sempre novo. No show, músicas recentes foram intercaladas aos clássicos, melodias consagradas em harmonia com arranjos moderninhos. Ao longo da noite nos deleitamos ouvindo todas as canções do novo álbum, “Querido Diário”, “Rubato”, “Nina”, “Barafunda”, “Sinhá”, “Sem você 2”...

Eu ainda não quis saber quem é a lambisguete que está namorando Chico Buarque, mas o blues “Essa pequena” e a balada “Se eu soubesse” entregaram: ele está apaixonado! Dessas paixões que nos deixam bobos, ridículos como as melhores cartas de amor: “E aí, larará, larará, liriri...

Chico é apaixonante!


O samba também estava lá, com cara de CD novo. O músico Wilson Neves foi cantar com Chico o dueto “Sou Eu”. Tinha cara e jeito de malandro, e uma voz de sambista que quase apaga o miadinho frouxo de Chico. Mas a combinação deu certo, e com tanta naturalidade passaram ao “Teresa na Praia, não é de ninguém, não pode ser minha, nem sua também” que eu já não sabia se estava em Sampa ou no Rio, no fino da bossa em Copacabana.

Chico é carioca!


Do alheio, além de “Teresa na Praia”, Chico cantou a versão do rapper Criolo para a música “Cálice”. Foi, digamos, inusitado. Na sequência teve arranjo rock and roll para a música Baioque. “Quando choro é uma enchente surpreendendo o verão / é o inverno, de repente, inundando o sertão”.

Junto com “Geni e o Zepelim”, foram os momentos mais agitados do show.  Eu devia estar muito hipnotizada, porque Chico cantou “joga bosta na Geni”, e eu achei lindo! Estava tudo lindo naquela noite.

Chico é lindo!


Também não faltou o desespero elegante das personagens sofridas de Chico Buarque. “Chorei, chorei, até ficar com dó de mim / E me tranquei no camarim / Tomei um calmante, um excitante, e um bocado de Gim”.

Combinou com o bolero “Sob medida”, quando olhou bem nos nossos olhos e cantou: “Eu não presto, eu não presto”. Eu vi cretinice nesse olhar.

Chico é cafona!


Mas Chico Buarque arrebatou a pequena multidão que o assistia, e arrebentou comigo, foi nos momentos em que cantou as delícias de outrora, criadas no tempo da delicadeza.

Foi sublime, foi etéreo, foi inebriante. Ou no meu português corrente: foi de lascar!

“O meu amor”, “Desalento”, “Futuros amantes”, “Teresinha”, “Anos Dourados”. Naquela noite eu ouvi muitas das canções que inundam meu coração, canções que me despertam e canções que me acalentam.

Parece que dizes, te amo, Maria / Na fotografia, estamos felizes”. Veio a emoção, o choro contido, minha alma se abriu por inteiro. Uma mão querida providencialmente tocou a minha, entrelaçamos os dedos, nessa hora eu me salvei e me perdi...

Chico é emocionante!

São Paulo, sexta-feira, 06 de abril de 2012. Eu fui feliz!

***

Leia também: 

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Show do Chico - Parte 2




Eu daria pra Chico Buarque!

Eu e mais 180 milhões de pessoas, pois Chico é a unanimidade nacional, no dizer de Nelson Rodrigues. E como o mesmo Nelson dizia que toda unanimidade é burra, vamos excluir da conta dois ou três colegas meus que juram que não dariam.

Eu estou com o restante dos mortais, como uma fã que, pelas tantas do show, grita lá da turma do fundão: “Eu te amo, Chico!” E uma voz masculina, do mesmo fundão, responde: “Eu também!”

E que bom que existe a turma do fundão! Eu estava mais ou menos na frente, mais ou menos comportada, e ainda hoje me arrependo de ter reprimido a vontade de subitamente levantar, invadir o palco e agarrar Chico Buarque. Calma, criatura, não se afobe não. Ele é irresistível, mas não é pra tanto.

Oportunamente o pessoal do fundão aprontou uma agitação em coro, com a mais óbvia das ovações: “Chico! Chico! Chico!”. Tá na cara que Chico gostou! A modéstia pode mesmo ser a maior das vaidades. Chico, meio tímido, agradeceu e sorriu.

Riu também quando errou a letra, foi tão discreto, mas eu ouvi! (Eu estava tão atenta, que teria ouvido até um suspiro fora do ritmo). Foi assim: “Afasta de mim esse cálice, pai. De tinto tinto de sangue”.

É claro que ele nem se abalou, mas para nós ficou mais humano, menos mito, um tiquinho mais acessível.

Chico também erra, mas a gente releva e acha bonitinho! Eu achei.

No próximo capítulo: Chico é cafona!


quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Show do Chico - Parte 1


Caro Jorge,

Essa semana faz seis meses que fui ao show do Chico. Como assim qual Chico? Chico só tem um. Os outros não são Chico, são “Chico não sei de que”, “Chico não sei da onde”, Chico Bento, Chico Anísio, Chico Sá, Chico de Dona Maria, Chico do bar da esquina.... Chico, assim em prenome solo, só o Buarque.

E daí, né? Daí que é um pretexto pra eu contar, em três crônicas, como foi o show. Já adianto uma coisa: Chico é lindo! Valeu a viagem, a fila e o rombo na conta bancária.

Saudações, e até a próxima.



SHOW DO CHICO - PARTE 1

Sexta-feira, 06 de abril de 2012. Hall do HSBC Hall, São Paulo. Uisquinho pra lá, canapezinho pra cá...

Chico Buarque de Hollanda em cores, tamanho real. Fila pra tirar foto com o Chico de papelão.

É lógico que eu fui!  Tirei foto com o cartaz, sabendo que não tiraria ao lado do verdadeiro. Comprei o CD novo, sabendo que não seria autografado.

(Aliás, eu tive a desfaçatez de perguntar se os CDs seriam autografados, e o vendedor teve a desfaçatez de rir na minha cara!!! Ah, meu caro, não custa sonhar, e você me vem com zombaria numa hora dessas?)

Todos a postos, devidamente acomodados em suas mesas elegantes e espaços exíguos. Eu confesso! Confesso que algumas vezes passamos os olhos pela platéia, buscando flagrar algum rosto conhecido de celebridade de televisão. Pois não há sempre nos DVDs gravados no Rio ou São Paulo aquelas carinhas conhecidas sorrindo para o seu artista preferido? Bem, tudo que conseguimos foi um sósia do Collor sentando-se à nossa mesa e ameaçando atrapalhar-me a visão. Mas calma, nem tudo está perdido. Empurra a cadeira um pouquinho pra lá, puxa a mesa um pouquinho pra cá, pronto, visão completa do palco e de Chico.

Meu Deus, é Chico mesmo, tô vendo ele todo, que fofo, tô vendo até o pezinho marcando o compasso.

Mais novo que imaginei, tímido, lindo, penteado, perfumado (tenho certeza de que senti seu cheiro! Será que eu tô sonhando?) Começo a ouvir aquela vozinha fraca e quase desafinada: não tô sonhando, é ele mesmo!

Esqueci de tudo, esqueci de quem eu sou e de quem eu não sou, não tem mais ninguém no teatro, não tem mais ninguém no mundo, tô vendo Chico Buarque ao vivo cantando pra mim.

Se eu tiver de sofrer, se eu tiver de penar, se eu tiver de morrer, se houver terremoto ou vulcão, arrastão de pivete ou avião caindo, que não seja agora, meu Deusinho querido, que seja daqui a duas horas, depois do show.

Obrigada, Deus! 

No próximo capítulo: "Eu daria pra Chico Buarque"

sábado, 22 de setembro de 2012

Baratas - Lá em casa tem um tanto também...




Dia desses, estando em outra cidade a trabalho, fui convidada a visitar a casa da irmã do ex-namorado da minha colega de trabalho. O parentesco retorcido interpretei como mau sinal, prenúncio de roubada, mas na falta de propostas menos familiares e mais etílicas, acabei aceitando o convite.

Entramos na residência suntuosa (para os padrões locais), e logo no vestíbulo, ignorando toda pompa e sem fazer cerimônia, uma barata cruzou nosso caminho. Não, caro leitor, não se trata de uma metáfora kafkaniana. Foi uma barata mesmo, espécie blatella germanica do filo dos artrópodes, monstro insetídeo que, na mitologia feminina, representa a encarnação de todos os males que um dia escaparam da caixa de Pandora. Eu bem tentei ignorar, mas a própria dona da casa resolveu dar uma desculpa qualquer: “Essas bichas estão em todos os lugares, dominando o mundo, não é mesmo?”.  Pelo contexto, creio que se referia às baratas.  Continuou: “Ainda bem que você não gritou”.

É claro que não gritei; será que me tomou por alguma histérica tresloucada, só porque cheguei com os cabelos desgrenhados? Não gritei, evidentemente, mas também não pude continuar com minha pequena farsa de quem não viu nada. Num acesso de altruísmo, respondi alguma bobagem inverídica, apenas para deixar a anfitriã menos constrangida: “- Ah, é assim mesmo, lá em casa tem um tanto também”.

Péssima frase, mas a palavra pronunciada não dá ré. Em vez de se sentir agradecida pela minha simpática reação, a mulher me olhou com uma cara de asco, nojo de mim e dos meus supostos insetos, e só pela educação que mamãe me deu é que não dirigi os maiores impropérios à dona da casa com baratas. Apenas sorri e continuei andando, já arrependida por não ter gritado e saído correndo dali enquanto ainda estava em tempo.

Ultrapassado o momento das conversas amenas, fofocas e lugares-comuns, finalmente fui convidada à mesa. Quando penso que a noite começará a me revelar suas delícias insuspeitas, de súbito me abandonam as derradeiras esperanças: em lugar da cachacinha, que, por ser típica da região, eu já contava como certa, ofereceram-me um lanche de empadinha com suco de polpa de cacau. Numa palavra: broxante. Mas talvez nem tudo estivesse perdido.

Como eu nunca tinha experimentado suco de cacau, acabei aceitando com relativa boa vontade, porque eu queria saber se aquele líquido branco tinha gosto de chocolate (não tem). Estava a ponto de esquecer meus recentes infortúnios, entregando-me de coração aberto à degustação do tal suco de cacau, quando vejo que o copo que me deram veio com marca de batom! Com calma tento dominar meu nojo, e me convencer de que um copo mal lavado não é nem assim coisa tão grave. Entretanto, rapidamente minha mente demoníaca vem me lembrar do inseto que vimos há pouco, subitamente todos os elementos da cena passam a fazer sentido, começa a me subir uma espécie de gastura nauseabunda, e de repente eu estou convencida de que a marca de batom tenha sido feita pela boca da própria barata!

Foi um delírio que logo passou, mas, por precaução, ajeitei discretamente o copo de modo que meus lábios tocassem apenas seu lado ainda imaculado. Bebi o suco, pois já estava servido, mas recusei os quitutes com veemência, argumentando que estava fazendo dieta. Quiseram saber qual, e eu já ia respondendo “dieta da barata, comecei agora”, mas dessa vez o cérebro foi mais rápido que a língua. Muito convicta de que sairia ilesa, inventei o regime mais improvável que me ocorreu naquele momento: “dieta do chá das cinco, pela qual sempre que o dia do mês for múltiplo de 5 eu só posso tomar infusões preparadas com folhas de chá do Reino Unido”. Qual não foi meu terror quando percebi, de soslaio, a anfitriã se dirigindo a um mato crescido na beirada do seu muro, já me garantindo que havia ali uma moita importada da Inglaterra, que resultava num chá delicioso que ela mesma prepararia.

Desconfio agora que a erva do chá que acabei ingerindo era o mesmo matinho que serviu de esconderijo à barata que vimos horas mais cedo, e que encontrei esmagada junto ao portão de saída, quando finalmente pude me evadir dali. Naquela noite crudelíssima, nem eu nem a barata tivemos escapatória.

Hendye Gracielle

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O desenho que adorna essa crônica é do ilustrador Murilo Silva (murilosilvadesenhos.blogspot.com). A figura foi capturada do blog: papasmiscleo.blogspot.com.br.

Para as pessoas que passam por este singelo blog apenas para se deliciarem com os desenhos do Troche, não fiquem tristes, ele voltará.