terça-feira, 21 de agosto de 2012

Quando o amor não acaba



O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; (...)

Uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; (...)

De manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.

(Paulo Mendes Campos)


O problema é quando o amor não acaba. Viramos a página do livro, e o amor não acaba. O filme saiu de cartaz, mas o amor não acaba. Já estamos em outra estação, outro século sentimental, outra cidade invisível de Calvino, outra dimensão paralela de Borges, outra crônica de Paulo Mendes Campos. Já estamos em outra, mas o amor não acaba.

Não adiantaria queimar os livros, os filmes, os sutiãs, as bruxas, as cartas que você me deu. O amor não se queima, o amor é salamandra mágica, o amor é o próprio fogo, que arde sem se ver e sem se ouvir, porque nosso romance é invisível e nossa dor é em voz baixa. Mas nosso amor não acaba.

Sempre damos um jeitinho de continuar amando. O fim desse amor inviável, adiado infinitamente. Irresponsavelmente. Irresistivelmente. Amor que nasceu terminal, com os dias contados, marcado pra morrer. Eu era jovem de poucos anos e muitas vidas; você existia em plenitude, para muito além de mim. Prognósticos desastrosos, entretanto o amor vingou. Enraizou. Cresceu. Só não deu frutos. Esqueceu-se de envelhecer. Recusa-se peremptoriamente a morrer.

Rasgar as páginas dos livros que te dei, não vai adiantar. Mudar o número do telefone, do cartão de crédito e do mapa astral, não vai adiantar. Seu cheiro ficou na minha pele, no meu cabelo, no meu ar. Só enquanto eu respirar, vou me lembrar de você. E nosso amor está fadado à eternidade.

domingo, 12 de agosto de 2012

De perto ninguém é normal - No cinema




Paulo Mendes Campos já nos ensinou a diferença entre chatear e encher. Cá com os meus botões, eu tenho uma teoriazinha que diferencia o chato do sistemático. O chato é aquele que incomoda o outro. Chato é carrapato, o povo diz, com sua sabedoria prática e plurissignificativa. Chato é o pica-pau, o Ace Ventura, o Faustão. Já o sistemático não incomoda, mas se sente incomodado pelo outro. É o eterno personagem do Woody Allen. É o fresco. Sou eu.

Definitivamente, eu sou sistemática. Cinematograficamente sistemática. Incomodam-me coisas grandes, como celular tocando durante a projeção; coisas pequenas, como o barulho do saquinho de pipoca; coisas esdrúxulas, como gente chutando a cadeira da fila da frente; coisas normais, como tosse e espirro dentro do cinema.

Aliás, pesquisas de Harvard ou de Cambridge já devem ter descoberto os genes que controlam os neurotransmissores que produzem o pigarro (alheio) nas horas mais impróprias. Alguém vai tossir no momento em que o personagem fizer a maior revelação do filme de suspense, se declarar no romance, ou disser a frase mais nonsense no filme cult. E eu não vou ouvir. (No caso do filme cult, não faz mal, porque eu não iria entender mesmo). É sempre ao meu lado aquele barulho incômodo de gente existindo.

Também acho insuportável quando todo mundo começa a se levantar e a conversar segundos antes do término da projeção. Será que ninguém vê que eu estou tentando ler os créditos finais? No meu código de conduta em espetáculos públicos, não se deve desgrudar a bunda da cadeira até que as luzes se acendam. 

Por essas e outras, eu assinaria qualquer abaixo-assinado para projeto de lei que proibisse comida, conversa e circulação durante a projeção. Seria da maior relevância cultural, né não? Entrou no cinema, está proibido de emitir ruídos de qualquer espécie. Exceto nas comédias, que só são engraçadas no cinema, justamente porque a risada é contagiante. Nos demais filmes, deve-se proceder com quietude reverencial.

Imagina se alguém conversa na hora do “Rosebud”, do “I see dead people”, do “We’ll always have Paris” ou do “Dadinho é o caralho, meu nome agora é Zé Pequeno”? Imagina se alguém atravessa na minha frente na hora do iceberg, nunca mais eu iria entender como Deus afundou o Titanic...

Hendye Gracielle

Hitchcock é dos meus!


***

Se você ainda não sabe a diferença entre chatear e encher, é só conferir a crônica do Paulo Mendes Campos no volume dois da coleção Para Gostar de Ler. Mas se você não sabe o que é Para Gostar de Ler, ou você não teve infância ou ela aconteceu depois dos anos oitenta. Em ambas as hipóteses, você não tem salvação.

domingo, 5 de agosto de 2012

Eu tive um futuro promissor




Trabalho em empresa estatal, pra não morrer de fome, e escrevo crônicas, pra não morrer de solidão.

A indecisão vocacional faz parte do meu curriculum vitae – trajetória de vida – desde minha pré-história, embora a consciência disso seja menos longínqua.

Folheando antigos cadernos, redescubro antigos sonhos de criança. Evidentemente estapafúrdios. Como o de ser pintora (de quadros impossíveis), escritora (de bula de remédios), até mesmo costureira (de trajes invisíveis), e, pasmem, advogada (de filme americano - mas já descobri que os tribunais cinematográficos superam com folga nossa insossa realidade forense).   

Houve um breve período em que quis ser webmaster. Aprendi sozinha a programar em linguagem HTML, e fiz dois ou três sites medianos, que ainda hoje navegam à deriva na rede mundial. Empolgada com a informática, frequentei até curso de montagem e manutenção de microcomputadores. O entusiasmo durou até o dia em que meus tímidos conhecimentos tornaram-se obsoletos. Foi bastante rápido, e é claro que não tive ânimo para acompanhar o frenesi da evolução cibernética. Eu ainda não sabia, mas já tinha em Macunaíma meu anti-herói inspirador: “Ai, que preguiça”.

De um extremo a outro, escrevi alguns poemas na adolescência, mas depois de um tempo julguei a temática pueril e a forma pouco revolucionária. Abandonei-os com afinco, e apenas minha avó sente falta daqueles rabiscos.

Cresci, quis ser jornalista, e fui cursar Comunicação Social na UFMG. O curso disponibilizava quatro modalidades de graduação, o que me fez mudar de opinião a cada quarenta e cinco dias. Entrei como jornalista, cogitei “relações públicas”, interessei-me por “rádio/TV”, mas seduziu-me a publicidade. Sendo esta última incompatível com meus ideais libertários, voltei para o jornalismo, definitivamente. Minha aventura acadêmica na metrópole durou até o final do semestre, quando tranquei a faculdade e voltei pra terra do pequi.

O motivo do meu retorno eu nunca soube com clareza, e a cada pessoa que me interpelava eu respondia algo diferente, pensado na hora e esquecido em seguida. Tudo verdade. Certamente houve várias motivações, algumas inconfessáveis. A saudade da família contribuiu, mas só a um amigo imaginário ousaria segredar tal fraqueza sentimental. Às vezes me convenço de que o motivo mais decisivo foi ouvir tantas pessoas dizerem que o jornalista tem a grande responsabilidade de entender de todos os assuntos. Meu fraco ânimo assustou-se com a perspectiva aterradora de saber de tudo um pouco, e escorei-me em Sócrates para elegantemente declinar da responsabilidade: “tudo que sei é que nada sei”. Argumento filosófico irrefutável, e foi o fim de (mais) um sonho.

Abandonado o jornalismo, voltei para cursar Direito na Unimontes. Nos dias úteis eu freqüentava as aulas; nos inúteis, elucubrava profissões que pudessem me resgatar daquele abismo jurídico em que voluntariamente me precipitei. Por razões felizmente esquecidas, pensei em estudar letras, psicologia, psicanálise, sociologia, biblioteconomia, as infinitas variações de engenharia, filosofia, ufologia e zen-budismo. Pensei até em fazer cinema, influenciada pelo Cinema Novo e pela resposta de Joaquim Pedro de Andrade à pergunta “por que você faz cinema?”:

“(...) para que conhecidos e desconhecidos se deliciem / para que os justos e os bons ganhem dinheiro, sobretudo eu mesmo / porque de outro jeito a vida não vale a pena (...)”.

Algo que fizesse minha vida valer a pena, era o que eu procurava. Em vão. É lamentável que não exista um Google para buscas existenciais; para isso temos apenas o divã do analista, que ainda não experimentei, com medo de me viciar. Nesse meio tempo, terminei a faculdade, e o caminho mais óbvio que se me apresentava era o dos concursos públicos de nível superior.

Sempre que penso em prestar novos concursos, sinto uma dor aguda um pouco abaixo da costela direita, que interpreto como prenúncio de tédio, mas acho que pode ser também sintoma de preguiça.

A única carreira jurídica que fez meus olhos brilharem foi a de diplomata, seguramente a menos entediante. Mas para ingressar na diplomacia, devem-se falar três línguas estrangeiras, obstáculo por ora intransponível: no meu inglês “the book is (still) on the table”. De outro lado, je ne parle pas le français, embora tome lições semanais do idioma, o que até agora só me ajudou a pronunciar o nome dos meus cineastas preferidos. E em espanhol sei apenas dois palavrões decorados dos filmes de Almodóvar. Menos cosmopolita do que eu gostaria, só domino mesmo a língua de Camões, ainda assim em parcos vocábulos. Como resultado, a diplomacia acabou virando objetivo de longo prazo, talvez daqui a duas encarnações.

Periodicamente volto a sentir uma inquietante vontade de fazer tudo. Às vezes basta esperar a vontade passar, às vezes não. Há um ditado preconceituoso segundo o qual “quem sabe, faz; quem não sabe, ensina”. Vai ver ao menos a mim ele se aplica, porque tenho freqüentado aulas de pós-graduação em docência, que me habilitarão a lecionar no ensino superior. Só pra completar a mixórdia. (Permito-me abrir um parêntese para dizer que, nem sempre, quem sabe mais, melhor ensina. A boa docência requer generosidade, paciência e didática, atributos  que não se confundem com o conhecimento, embora possam andar juntos – menos nas ciências jurídicas).

No fim de semana passado, minha tia Luciana, que trabalha na área da educação, ofereceu a minha prima vestibulanda um teste vocacional. Intrometi-me na conversa com meu tradicional entusiasmo (graficamente representado pela expressão “uh”):

“- Uh, Tia Lu, eu também quero o teste, pra ver se descubro o que fazer da vida!
- Uai, Grá, talvez você já até esteja no caminho certo.
- É, eu estou no caminho certo, só preciso achar a placa de retorno!”

Seguindo pelo atalho das incertezas, o maior risco que corro é o de ter como epitáfio aquela desencantada máxima anônima: “eu tive um futuro promissor”. Ou aquele poema de Leminski, variação menos lacônica do mesmo tema: “aqui jaz um grande poeta / nada deixou escrito / este silêncio, acredito / são suas obras completas”.

Ainda hoje poder-se-ia perguntar o que vou ser quando crescer. Não tenho a resposta, talvez nem chegue a compreender o alcance da pergunta. Nada sei de interrogações ou exclamações pragmáticas - os meus vinte e poucos anos têm sido pontuados por promissoras reticências...



sábado, 28 de julho de 2012

Crônicas da tenra infância – parte 3: em Paraty



Eu não tenho muita paciência com crianças, por isso me espanta a força com que esses episódios por elas protagonizados se arraigaram na minha memória sentimental. Tais momentos são furtivos; somente na distração encontra-se a leveza necessária para que aconteçam. Pegam-nos de surpresa quando nossas personas estão desnudadas. Foi o que ocorreu em minha viagem a Paraty, quando fui visitar a FLIP - Festa Literária Internacional – deste ano. Foi com um menino de rua que vivi a experiência mais poética da temporada.

Era tardezinha de sábado, estávamos haurindo os últimos momentos em Paraty, tomando um caldo verde com torradas em uma mesa de bar nas ruas do Centro Histórico. Era o ocaso melancólico de nossa incursão cultural. O menino aproximou-se de nossa mesa e perguntou se podia cantar. “Se você quer cantar, pode cantar”, respondi. “Mas tem que pagar”, ele redarguiu. Após acertamos o preço, porque nem mesmo o lirismo escapa às agruras do capital, a criança começou a cantar.

A cantoria era tão desentoada que imediatamente pedimos que parasse; ele receberia o acertado para fazer o favor de não cantar. Creio que o canto era penoso pra todos nós, inclusive pra ele, que pareceu satisfeito em silenciar. Sentindo-se convidado, sentou-se à nossa mesa e pegou uma torrada. Nesse mesmo momento eu também comia, e vendo-me molhar minha torrada no meu caldo, com naturalidade pegou sua torrada e a mergulhou na minha tigela.

Não foi petulância, não foi grosseria. Foi com a naturalidade de uma criança que vê algo que parece bom e quer prová-lo; que imita um gesto sem extrapolar-lhe o sentido. Até as pessoas da mesa ao lado sorriram com a cena. Aquilo me enterneceu, achei até mesmo generoso de sua parte que ele repartisse comigo minha própria refeição.



Eu tenho a estranha mania de pensar em poesia nas horas mais insólitas, e quando menos percebo, estou a recitar mentalmente poemas decorados, como uma trilha sonora para as cenas de um filme: a trilha literária para as cenas da vida real. A existência concreta de menino faminto não cabe no poema, mas foi em Drummond – homenageado da FLIP - que busquei o único verso que poderia traduzir o que senti vendo os gestos de inocência daquela criança: “a poesia desse momento inunda minha vida inteira”.

Esse episódio singelamente marcou minha viagem, e tem acompanhado a narrativa das demais peripécias da FLIP, feitas a quem pergunta como foi o passeio. Nessas horas, meus interlocutores ouvem meu relato, mas é pena que não ouçam a trilha literária que passa na minha cabeça ao falar dessa criança, que na minha lembrança tem o rosto de tantas outras com quem cruzo nas ruas da cidade:

“Em casa de menino de rua
O último a dormir apaga a lua”

(Giovanni Baffô)

Ao menino de Paraty dedico essas linhas de memória afetiva e a trilha do ato final.

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segunda-feira, 23 de julho de 2012

Crônicas da tenra infância – parte 2: em família




O comovente não advém apenas do sublime; é principalmente nas peraltices que se revela a pureza infantil.

Já faz parte da nossa mítica familiar certo episódio da época em que meu primo Nilo não passava de uma pessoinha de poucos anos, sempre de polegar na boca e indicador no nariz, contando lorotas imaginárias. Sentado de onde estava, aborrecido com a amolação da minha tia, ele virou-se pra ela e disparou: “Tia Flávia, seu cu tá xumegano, friviano e brubuiano!”.

Minha avó, que presenciou a cena, em vez de corrigi-lo, pôs-se a rir; realmente difícil reprimir a malcriação, quando o xingamento é tão inventivo!

Inventividade, aliás, é o que não falta na família desse meu primo. A começar pelos nomes dos irmãos. Nenhuma professora de português me deu exemplo mais feliz do que seja concisão, do que a minha Tia Marinah, ao escolher o nome dos filhos: Nilo, Caio, Siro e Isa.

Nomes curtos, simples e fortes. Não darão trabalho para digitadoras de formulários, nem serão motivo de chacota em cadastros de órgãos públicos. Eles não serão incompreendidos ao telefone, tendo de repetir o nome várias vezes, e ouvir em resposta as versões mais estapafúrdias de pronúncia. (As Hendyes Gracielles da vida que o digam.)

Apenas o nome de Isa pode causar alguma confusão. Será Isa o apelido de Isabel, Isadora, Isaltina, Isolda? Nada disso, Isa é nome mesmo. Se o nome é curto, apenas 3 letras, o apelido que lhe damos é ainda mais econômico: I. Só pode ser fruto do que eu chamo de preguiça fonética, umas das 142 modalidades de preguiça que nos afligem.

O parentesco colateral continua a me render boas memórias de criatividade gramatical. É meu primo Siro quem protagoniza esta outra, quando era ainda um pirralho com cara de lagartixa. Estávamos na roça, e ele me pediu pra pegar algo que estava fora do alcance de sua pequena estatura. Eu também era criança, e não sei por qual motivo maligno não quis atendê-lo, e simplesmente lhe disse: “se vira!”. Sei que a malvadeza rendeu bons frutos, porque ele deu um jeito de conseguir o que queria, e ainda veio todo triunfante me dizer: “SE VIREI!”.

Só posso dizer que poucos tropeços linguísticos me inspiram tão ternas memórias!

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PS.: quando Isa e Tia Flávia viram essa postagem, disseram que esqueci de falar de Caio. Realmente eu sou meio esquecida, e ele é meio desaparecido: a combinação resultou em lacuna, evidentemente involuntária.

É claro que ele também tem lugar especial nas minhas memórias de infância. Pelo menos uma façanha nós aprontamos juntos: “roubar” o carro de Tio Rui para tentar dirigir nas ruas de Engenheiro Navarro (tudo bem, eu aprontei, ele foi o cúmplice-mirim). 

Mas a melhor é esta: Caio estava sozinho na casa de Vó, e resolveu ir embora. Antes de sair, porém, ele foi responsável o bastante para não deixar a casa aberta, à mercê de hipotéticos malfeitores. Trancou a porta e colocou a chave debaixo de um vaso de flores. Quando chegamos, havia um bilhete na porta da rua, dizendo: “Vó, tive que sair. Deixei a chave debaixo do vaso de flores. Cacá”. 

Ainda que um “amigo do alheio” tivesse vindo nos surrupiar naquela tarde, é possível que, lendo o bilhete, desse meia volta e partisse de mãos abanando, comovido com tamanha inocência juvenil.

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quarta-feira, 18 de julho de 2012

Crônicas da tenra infância – parte 1: no cinema



Antes que alguém me desmascare, vou logo confessando: não sou muito fã de criança. Desde que cresci. Não me faça essa cara de espanto (ou comiseração); não me orgulho disso, mas também não me envergonho. Ilustres pensadores concordam comigo. Veja lá, na última edição do Aurélio: “criança: s.f.; eufemismo para pestinha, em geral catarrento, cuja existência objetiva fazer do mundo o lugar mais barulhento possível”. Principalmente o mundo lá perto de casa.

Há quatro anos, contudo, o surgimento de um afilhado em minha “vidinha mais ou menos” apaziguou um pouco essa rabugice. Não há franzir de testa que resista à ternura de ouvir dizer “Dindinha”, mesmo que a palavra seguinte seja “urubu”. Eu comecei a achar lindo ouvir palavras incompreensíveis e ver desenhos estrambólicos de mim mesma, do tipo em que só se distinguem dentes e cabelos (devidamente embaraçados).



Eu já tinha ouvido contarem, ou visto na televisão, cenas em que a pureza infantil apaziguava por instantes esse mundo tão hostil. Sentimentos pueris abrindo brechas na sequidão da vida cotidiana. 

A primeira vez que vivenciei uma dessas situações verdadeiramente sublimes envolvendo uma criança foi, claro, com meu afilhado. Fomos ao cinema para assistir a um desenho em 3D. Era sua primeira vez, mas eu não sabia. Entramos, colocamos os óculos, acomodamo-nos. Após alguns minutos observando atentamente as imagens, ele levanta os bracinhos e mãos inquietas, e inocentemente tenta agarrar a imagem que flutua diante dos seus olhos.

Simplesmente isso: sorrindo de fascínio pela mágica do que via, ergueu os braços e mexeu as mãozinhas, tentando tocar as imagens que vinham em sua direção.

Ali no cinema, na companhia do meu afilhado, tive vontade de parar o tempo e conservar essa espontaneidade, essa ingenuidade de gestos, esse deslumbramento que vi em seu rosto iluminado. De forma tão espontânea tenta agarrar o irreal, o sonho, a magia, a fascinação.

Após o filme, me veio à memória um poema de Manuel Bandeira, e desde então não consigo evitar recitá-lo mentalmente, sempre que me lembro daquele dia:

A criança olha
para o céu azul.
Levanta a mãozinha,
Quer tocar o céu.

Não sente a criança
Que o céu é ilusão:
Crê que o não alcança,
Quando o tem na mão.

Parece-me que tanto o poema como o episódio no cinema, cada qual a seu modo, ilustram os mesmos traços de puerilidade, ingenuidade e contemplação, pelos quais a criança naturalmente se deixa guiar. Ela tenta provar o que seus olhos vêem: ainda não sabe que as coisas nem sempre são o que aparentam ser. Toma por mágico o que é ilusão, e fascina-se desmedidamente. 

Também eu me fascinei, e fui criança naquele momento: deixei-me levar pela surpresa, pela empolgação, pela admiração, e não tive pudor em deslumbrar-me. Aquele momento singelo causou-me uma comoção tão profunda, que compreendi empiricamente o que se pode chamar de sublime.

Talvez ainda haja remendo para minha rabugice; talvez a criança que fui ainda tenha salvação.


***


terça-feira, 10 de julho de 2012

Renascimento – Fênix, Mona Lisa e as Tartarugas Ninjas



Ana Barroso, a quem afetuosamente conhecemos por Carol, está estudando história da arte e colocou em seu facebook a proposta de que escrevêssemos o que nos viesse à cabeça ante a menção da expressão Renascimento.

No primeiro segundo, o que me veio à cabeça foi Fênix, aquele tal passarinho que ressurge de cinzas mitológicas, ou algo assim.

(Não é tentando me redimir, mas até que faz sentido pensar em Fênix, se considerarmos que o Renascimento representa a arte ressurgindo das cinzas da Idade Média - embora esteja em desuso reduzir a Idade Média a uma simplista noite dos mil anos.)

No segundo seguinte me lembrei das Tartarugas Ninjas: Leonardo, Michelangelo, Rafael, Donatello. Sempre achei que faltava o Botticelli, mas talvez essa seja a identidade secreta do Mestre Splinter, vai saber.

Só depois meus neurônios capricharam mais na sinapse, e sacaram termos como Mona Lisa, Perspectiva, Itália, Humanismo, Da Vinci, Capela Sistina, A Criação de Adão, a Última Ceia, afrescos, esculturas de corpos sarados e eventualmente nus.

Mona Lisa de Da Vinci
Pelo pouco que sei do assunto, o Renascimento foi um movimento artístico fundamental para a evolução das técnicas de pintura, escultura e afins, para a renovação temática e o aprimoramento estético. Foi também a expressão artística da nascente classe burguesa, naquele longínquo tempo em que ela se opunha aos privilégios da aristocracia, naturalmente reivindicando a oportunidade de ter seus próprios privilégios. Foi, portanto, o respaldo na esfera cultural de uma sociedade que estava emergindo do feudalismo e entrando na idade moderna, assim como o mercantilismo na esfera comercial, e o absolutismo na esfera política. Pronto, espremi os poucos resquícios que tenho do ensino médio, ranço que não se lavou com a faculdade.

Sintonizado o dial da memória no período histórico adequado, fiquei me imaginando no lugar da minha amiga Carol, tomando lições acadêmicas de história da arte... Como se concentrar na perfeição formal dos Renascentistas, se a gente se fascina mesmo é com as transgressões de Basquiat, os rabiscos de Miró, o dadá de Duchamp, a pop art de Warhol, o orgânico de Vik Muniz, o surrealismo de Dali, o tupiniquim de Tarsila?

A resposta talvez seja inverter a questão. Assim: como se pensar na ruptura moderna e na desconstrução pós-moderna da arte, sem considerar os grandes mestres do passado? Para se desconstruir, é antecedente lógico existir o construído. Para que Duchamp, Dali e Warhol tenham podido avacalhar a Mona Lisa, foi preciso que a Sra. Gioconda tenha sido, com mérito e louvor, imortalizada na tela de Da Vinci. Foi preciso a invenção da pintura em perspectiva, para que séculos depois Picasso a tenha mandado às favas, adotando seu cubismo multiplicador. Etc, etc.

Mona Lisa de Dali

Assim é que me vem certa inveja de não estar lá no lugar da Ana Carol, pra que eu pudesse aprender um pouco sobre o Renascimento, que me parece interessante pelo valor estético da arte renascentista em si; pelo valor histórico na evolução cultural; e pelo deleite de lembrar da escultura Pietà, de Michelangelo, ao ouvir a Pietà, de Milton Nascimento. Pela graça de reconhecer na parede das casas mais simples a reprodução da Última Ceia de Da Vinci, espremida entre uma gravura ordinária de paisagem e o calendário do ano passado. Compadecer-se do bullying que vitima La Gioconda, seguramente a obra de arte mais conhecida e a criatura mais parodiada de todos os tempos, inclusive no facebook, que foi onde, aliás, essa minha pequena digressão teve início e tem fim.

Mona Lisa que circula no facebook

PS.: As lições de história da arte de Ana Barroso e sua turma estão dando frutos no blog “Fragmentos da História da Arte”.


quinta-feira, 31 de maio de 2012

Picareta ele, vigarista eu – Sobre a arte da picaretagem acadêmica




Passei cinco anos picaretando na faculdade de Direito. Não me entenda mal. Eu tenho muito respeito pela faculdade pública, e conheço minhas responsabilidades sociais em ocupar uma vaga que é custeada pela sociedade. E ainda pretendo reverter meus conhecimentos profissionais (assim que eu os encontrar) em benefício da comunidade carente (de dinheiro, de educação, de atenção ou de amigos, carência da qual também padeço e sei como dói).

Mas que eu picaretei, isso sim. Pelo menos dentro da sala de aula, onde pode-se dizer que apenas espelhei o que 80% dos advogados vigaristas, digo, professores queridos também faziam lá dentro. Picaretar. Picaretagem jurídica era a disciplina mais prestigiada da grade.

Não foi preciso muita clarividência para perceber que, nos anos de faculdade, foi fora da sala de aula que me formei. E nem estou falando das noites boêmias nos bares circunvizinhos, embora isso tenha contribuído sobremaneira para minha educação sentimental. Estou falando da faculdade mesmo, de todas as experiências que ela nos proporciona, fora da sala mas dentro de sua aura, naquele ambiente que nos instiga e nos amadurece. São os anos em que a gente aprende a se posicionar em face do mundo, superar nossas fraquezas, descobrir nossos valores, nossas paixões.  Onde tudo é novo e nada é vão. Ou vice-versa.

O fato é que, mesmo na base da picaretagem, foi nos anos de faculdade que me formei para a vida, agucei o espírito crítico e o gosto pela reflexão. Por isso recomendo a todos os que amo que façam faculdade (aos que odeio, desejo apenas o inferno-astral do cursinho). Apaixonei-me pelo ambiente acadêmico, tanto que voltei a estudar, agora em pós-graduação. E comprovando que se trata de regra, e não de exceção, encontrei em outra instituição de ensino as mesmas picaretagens dos tempos de faculdade.

Na aula de pós-graduação dessa semana, por exemplo, o professor passou bastante tempo falando sobre coisas inúteis, numa profusão de clichês reproduzida por boa parte dos colegas. Em seguida, prescreveu um trabalho para casa. É de conhecimento notório que a forma mais elegante de picaretagem docente é representada pelos trabalhos acadêmicos, pelos quais se transfere ao aluno a obrigação de dar aula. Mas admito que, ao fim e ao cabo, a gente acaba aprendendo alguma coisa, desde que a pesquisa tenha ido além do famigerado “ctrl+c / ctrl+v”. Recurso este que nunca utilizei, entenda-se bem, que minha picaretam é à moda antiga e não admite cópia. Sou uma picareta de princípios!

Voltando ao tal trabalho, a atividade consistia em redigir um texto dissertativo sobre o tema da informação. Desconfio que o mote tenha sido escolhido pelo professor lá na hora mesmo, pois o assunto saiu do nada e foi a lugar nenhum. Picareta ele, vigarista eu: produzi o texto, e busquei empregar-lhe certo estilo, posto que a boa forma disfarça o mau conteúdo. Como nem sei se o professor vai se dar ao trabalho de ler o texto (muito menos meu blog, assim espero!), resolvi reproduzi-lo aqui (vide postagem anterior), para que tenha ao menos um leitor imaginário. Porque picaretagem demanda esforço e merece reconhecimento.

Fiz o texto com bastante esmero, procurando alcançar o estado da arte em picaretagem acadêmica, que consiste em escrever muito sobre coisa alguma.

E assim temos feito.

Hendye Gracielle


Em tempo: agradeço de coração aos 20% dos professores comprometidos do curso de Direito da Unimontes, que foram fundamentais na minha formação. Abraços efusivos aos verdadeiros mestres, com carinho.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

"Registro meus parabéns" (ou Dos Afagos Burocráticos)



Semana passada foi aniversário de uma colega de trabalho. Todas as pessoas do setor receberam um e-mail automático, avisando do relevante acontecimento. Daí que vários colegas telefonaram, mandaram e-mail, torpedo, fax, recado, comunicator, sinal de fumaça ou vibrações positivas para ela. Algumas mensagens menos, outras mais inspiradas; alguns abraços mais, outros menos sinceros.

Uma das felicitações mais curiosas foi o e-mail enviado por um colega de outra cidade, um profissional bastante eficiente que poderíamos chamar de funcionário padrão, se isso ainda fosse elogio. Era assim:

“Registro meus parabéns! Atenciosamente, fulano de tal.”

Como assim, “registro” meus parabéns? Que maneira burocrática de se felicitar alguém! Será que foi pra “constar” que ele é educado? Arquivamento para futuras providências? Evitar que a data prescrevesse?

Na falta de criatividade, em vez do insosso “registro meus parabéns”, não teria sido melhor empregar as fórmulas já gastas pelo uso, mas consagradas pelo costume, tais como “muitas felicidades”, “seja feliz”, “parabéns”, “feliz aniversário”, “carinhosamente”? Concluo que não se trata de falta de criatividade, e sim de “burocratismo” em fase aguda. É que a monotonia do trabalho burocrático acaba se entranhando na gente, funcionário de escritório do setor público ou privado.

Eu até encaminhei à minha colega, como sugestões de resposta: “Está registrado, grata, ciclana”. Mas a idéia dela foi melhor: “Prezado fulano, acuso recebimento”.


Faz uns seis anos, eu ainda não era burocrata, quando descobri que foi Max Weber um dos maiores entusiastas da burocracia na era moderna. Um sociólogo, quem diria. A intenção era nobre, na prática é que o objetivo foi desvirtuado, o que é muito comum e já não surpreende. A burocracia virou um fim em si mesmo.

Havemos de estar sempre alertas pra que o automatismo do ambiente profissional não contamine o restante da nossa vida (para os que ainda a têm). O formalismo da burocracia tem braços de polvo, e de forma lenta, gradual, mas segura, vai invadindo o espaço das relações interpessoais. Ou das relações espirituais, como certa vez aconteceu comigo, ao fazer uma oração matinal. Foi assim:

“Prezado Deus, bom dia! Favor proteger minha família e meus amigos. Gentileza relevar minhas falhas, que serão devidamente retificadas. Desde já agradeço as graças recebidas. Atenciosamente...”

Só no atenciosamente (!) é que saí do automático e me dei conta do absurdo da situação. Daqui a pouco vou exigir de mim mesma um número de protocolo pra falar com Deus. E não me surpreenderia se o mesmo resolvesse me atender somente com hora marcada!

sábado, 12 de maio de 2012

Da nossa vontade urgente e nossa sede infinita


Veja você, meu amigo Jorge, o que o amor é capaz de suscitar no coração das criaturas de carne e osso.




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"i like my body when it is with your
body. It is so quite new a thing.
Muscles better and nerves more.
i like your body. i like what it does,
i like its hows."

(e. e. cummings)

Gosto do seu cheiro, da sua pele, do seu cabelo.

Gosto do cheiro da sua respiração. Quando a gente se beija, é também pelo olfato que você inunda a minha alma.

Gosto da temperatura do seu corpo, quando meu rosto toca a sua pele. Gosto da ponta dos seus dedos nas minhas costas; gosto da mãozinha leve que me acaricia ou da mão segura que me conduz ao abismo e me traz de volta.

Gosto dos meus dedos nos seus cabelos, escorregando por entre os fios. Forte ou de leve: desejo ou cafuné.

Gosto do seu rosto e da sua gargalhada. Da sua elegância desajeitada. De quando você desafina ao conversar. Do seu sorriso de olhos fechados.

Gosto das nossas conversas sobre tudo e sobre nada. Das discussões metafísicas, das aflições domésticas. De assuntos pretensiosos discutidos a meias palavras, quando o esforço é dispensável e a afinidade é completa. Gosto das discordâncias e contradições; vem você com a tese, eu com a antítese, e a síntese é nossa.

Gosto de compartilhar com você os valores pelos quais eu vivo. Gosto de sua presença, que me faz esquecer as agruras deste mundo de absurdos. Gosto do pensamento que ao mesmo tempo é meu e é seu. Das referências a livros e filmes que mais ninguém viu. Da nossa vontade urgente e da nossa sede infinita.

Gosto da cafonice das nossas juras de amor.

Hendye Gracielle
12 de maio de 2012

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PS.:

1.Poema completo do e. e. cummings:

“i like my body when it is with your
body. It is so quite new a thing.
Muscles better and nerves more.
i like your body. i like what it does,
i like its hows. i like to feel the spine
of your body and its bones, and the trembling
-firm-smooth ness and which i will
again and again and again
kiss, i like kissing this and that of you,
i like, slowly stroking the, shocking fuzz
of your electric fur, and what-is-it comes
over parting flesh … And eyes big love-crumbs,
and possibly i like the thrill
of under me you so quite new”

2. Tradução direta
(www.nemumpoucoepico.com)

eu gosto do meu corpo quanto ele está com o seu
corpo. É uma coisa tão nova.
Músculos melhores e nervos mais.
eu gosto do seu corpo. eu gosto do que ele faz.
eu gosto dos seus comos. eu gosto de sentir a espinha
do seu corpo e seus ossos, e a trêmula
-firme-suavi dade e que eu vou
novamente e novamente e novamente
beijar, eu gosto de beijar isso e aquilo de você,
eu gosto, suavemente acariciando a, penugem escandalosa
do seu pêlo elétrico, e o-que-é-isso vem
acima da carne que se separa… e olhos grandes migalhas-de-amor,
e possivelmente eu gosto da excitação
de sob mim você tão nova.

3. Versão declamada pela Ana Carolina nos shows

Eu gosto do seu corpo
Eu gosto do que ele faz
Eu gosto de como ele faz
Eu gosto de sentir as formas do seu corpo
Dos seus ossos
E de sentir o tremor firme e doce
De quando lhe beijo
E volto a beijar
E volto a beijar
E volto a beijar