(Ilustração, como sempre, surrupiada do Troche)
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
sábado, 4 de janeiro de 2014
Reflexões de ano novo: A vida tem mais fases que o jogo do Mário Bros
“Aos 20 anos, eu sabia latim, mas não sabia tomar um
bonde.”
(Carlos Heitor Cony)
Você percebe que está se tornando verdadeiramente
uma dona-de-casa quando as suas resoluções de ano novo começam a ficar
diferentes. Nada de “economizar para a viagem dos meus sonhos”, “estudar para o
concurso da Receita Federal”, “fazer matrícula na academia”. Neste ano novo eu
me flagrei fazendo planos assim: “não deixar acumular louça suja por mais de uma
semana”; “limpar o banheiro antes de começar a feder”; “fazer as compras da semana
pelo menos uma vez ao mês”; “tirar o lixo ao primeiro sinal de seres vivos
dentro dele”.
Quando a pessoa sai da casa dos pais e vai
morar sozinha, ela usa seu senso comum pré‑adquirido em novelas da TV, comédias
românticas do cinema, blogs da internet e gibis da Turma da Mônica, medita dois
minutos sobre o assunto e acha que está preparada para assumir sozinha todas as
responsabilidades de uma casa e da própria vida. Todo mundo conhece esta matemática:
das vinte e quatro horas do dia, eu trabalho oito, durmo oito, sobram mais oito
horas para o resto. Isso é mais que suficiente pra cuidar da arrumação da casa,
da higiene pessoal e ainda sobrar umas horinhas, no fim de semana, para o
lazer. Pronto, a pessoa se acha preparada para a lide doméstica, arruma sua
trouxa e – trouxa! – vai saltitante enfrentar o mundo.
Não nego que morar longe dos cuidados da
mamãe seja ótimo para o amadurecimento pessoal, o fortalecimento do caráter, o
crescimento do espírito. Principalmente se a mamãe continua disponível pra te
receber de vez em quando, te fazer uns afagos e uma marmitinha quente pra você comer
no almoço. Sendo assim, nada de arrependimentos. Mas isto é inegável: ao sair
de casa, ninguém está totalmente ciente do que a vida nova lhe reserva.
E os desafios vão sendo surpreendentes. Você
sabe que tem de tirar o lixo regularmente, mas só quando começam a aparecer
umas minhoquinhas brancas do lado de fora do saco plástico é que você percebe
que precisa lavar a lixeira de vez em quando. Você sabe que tem de fazer
limpezas periódicas nos cômodos, mas não se lembra da sua mãe tendo de expulsar
todo dia os insetos que entram na sua casa toda noite, sabe-se lá por onde. Você
nunca havia se dado conta de que sujava tanta roupa, de que o gás acabava tão
rápido, de que as vasilhas de plástico que você tem nunca cabem no espaço
reservado a elas. Você não fazia ideia de que precisava descongelar o freezer
de vez em quando, afinal nunca viu num filme o mocinho tentando abrir a porta
presa pelo gelo, ou a mocinha limpando as grades da geladeira. E, acima de
tudo, você se sente só: não tem outra pessoa pra lidar com o síndico, o
encanador, o eletricista, a moça do censo, o vendedor de enciclopédias e o
cachorro do vizinho. Agora é com você!
Você enfrenta isso tudo e vai se tornando
mais confiante. Depois de três anos e meio, vai até gostando. Mesmo assim, tomei
um susto quando me dei conta de que as necessidades domésticas invadiram meus
planos de ano novo. Aprender a me virar sozinha foi importante, mas sempre me
bate um medinho de ser dona-de-casa até demais. Acho que gostava de ser do tipo
“pseudo-intelectual-pedante-displicente” do que “dona-de-casa-ex-desleixada-quase-exemplar”.
Talvez seja só uma fase, dentre tantas que foram e que virão (a vida tem mais
fases que o jogo do Mário no SuperNintendo). Hoje, quando passo por algum
shopping center, o que mais ocupa o meu tempo e leva meu dinheiro ainda são as
livrarias. Mas – perigo! – as lojas da Tok & Stok já estão em segundo
lugar...
***
Posfácio
absolutamente inútil:
Ela: “Que delícia, adorei a crônica! Mas deixa eu te
dar uma dica, só pra atualizar.”
Eu: “É sobre o vendedor de enciclopédias”?
Ela: “Não. É que as fases do Mário são extremamente
limitadas se você já jogou AQW.”
Eu: “Hein?”
Ela: “Esse é um jogo que meus meninos jogam. Não acaba.
Simplesmente.”
Eu: “Ah, mas não é o jogo que EU joguei”.
Ela: “É mesmo! Óbvio que quem tá na fase de dona de
casa se lembra é do Super Mário mesmo!”
Eu: “Mas eu não poderia dizer que a vida tem mais fases
que o AQW...”
Ela: “Por quê?”
Eu: “Porque a vida acaba!”
Ela: “Credo. Até numa crônica tão fofa você consegue
vir falando, ainda que nas entrelinhas, sobre a efemeridade da vida!!!”
Eu: “O.o”
terça-feira, 17 de dezembro de 2013
RÉQUIEM PARA FLORES - Pequena crônica de adeus
"– A vida, senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é,
começa a piscar. Quem pára de piscar chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e
fechar os olhos – viver é isso. (...). Um rosário de piscados. Cada pisco é um
dia. (...) e por fim pisca pela última vez e morre.”
(Monteiro Lobato)
O fato mais assombroso da vida é
viver e, de repente, não viver mais. A pessoa existir durante a vida inteira e,
num segundo, desexistir. E esse segundo ser pra sempre. E o “pra sempre” ser
igual a “nunca mais”.
A morte é mesmo o paradoxo da
vida. Seu oposto e sua continuação. Seu natural e sua negação. Mesmo certa para
todos os viventes, quando chega, com ou sem prévio aviso, nunca deixa de
surpreender. É porque se morrerá um dia que se dá valor à vida. E quando uns
morrem é que outros aprendem a viver.
A astronomia nos ensina que
continuamos a perceber o brilho das estrelas mesmo após elas já terem
desaparecido do universo. E que quanto maior a estrela, menor seu tempo de
existência. A astronomia nos ensina para a vida.
Embora dispersos pelo mapa,
estamos todos juntos no cais de partida, acenando com a mão as mais sentidas
despedidas ao navio que parte levando uma pessoa que aprendemos a amar. Felizes
pelo (breve) encontro, angustiados pela (incompreensível) partida, inseguros, mas
acreditando que nenhum navio parte sem rumo, nenhuma pessoa parte sem
explicação.
Por isso temos braços longos para os adeuses (...)
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.
(Vinicius de Moraes)
Adeus, Lívia Flores. Adeus, Lívia
Estrelas.
Até quem sabe. A Deus.
Fiquemos em paz.
Para meu Tio querido.
quinta-feira, 29 de agosto de 2013
É bom quando a elite mostra sua cara
É bom quando a elite brasileira
mostra a sua cara. Nos episódios mais recentes da badalada cena política
nacional, a elite brasileira assumiu a alcunha de Classe Médica. E esteve muito
bem representada pelos indivíduos que foram aos aeroportos hostilizar os novos médicos
entrantes no país. Não há que se falar numa “pequena parte”; foi uma amostra
representativa da classe representada, assim como os políticos que ascendem a
Brasília são uma amostra representativa, em seus laivos de usura, dos valores
arraigados na população que eles representam (sim: nós, o povo).
“O todo sem a parte não é todo
A parte sem o todo não é parte
Mas se a parte o faz todo, sendo parte
Não se diga que é parte, sendo todo”
(Gregório de Matos)
Ficou difícil? Assim: Brasília é
o nosso espelho; os habitantes de seus gabinetes são uma parte do todo que é a
nossa população, e espelham os valores médios (ou medíocres) de nossa própria
sociedade. Assim também: o jornalista que escreveu sobre “médica com cara de
empregada doméstica”, os senhores de branco que chamaram de escravos os médicos
cubanos, e outros exemplos ad infinitum,
são um espelho da elite – branca, rica e heterossexual (fora de casa, pelo
menos) – que sempre ocupou os espaços de prestígio na sociedade. O exercício da
medicina é um desses espaços, mas há outros, como o dos industriais, grandes
empreiteiros, latifundiários, magistrados... Ousassem incomodar a uma dessas
classes, e veríamos cenas semelhantes, diferindo apenas o traje branco pelo de
terno e gravata, ou pela bota e espora. Ou talvez com um pouco mais de discrição:
não dariam a face a tapa, usariam para tanto lobistas de bastidores. Por isso é
que é bom quando a elite brasileira mostra a sua cara.
A falta de recursos para o sistema
público pode ser o principal fator do problema da saúde no Brasil (ou melhor, o
dinheiro é muito, porém muitas mais são as torneiras de desvio da fonte até a foz).
Isso, entretanto, não deveria eximir os médicos de bem exercerem o seu mister. Um
médico recém-formado não pode dedicar dois anos de sua promissora vida
profissional para atuar compulsoriamente no SUS (sendo remunerado para isso,
entenda-se bem)? Não pode perder o brilho de seu status passando alguns anos no
insosso interior do Brasil, a não ser por um salário que exorbite do padrão
razoável de remuneração profissional? Não se pode adiar por algum tempo o
rentável retorno do investimento que papai fez nas mensalidades das faculdades
privadas, ou nos cursinhos preparatórios para as faculdades públicas? Talvez o
problema seja a concepção da medicina como um investimento, não como um
compromisso ou vocação.
“A praça é do povo / como o céu é do Condor.
É o antro onde a liberdade /
Cria águias em seu calor!”
(Castro Alves)
Quando a Medida Provisória
621/2013, que institui o Programa Mais Médicos, ainda estava em discussão, um
representante do Conselho Regional de Medicina foi ao jornal local de nossa
pequena cidade vituperar contra a proposta. Foram concedidas todas as atenções
aos argumentos do distinto senhor; questionado, entretanto, sobre quais seriam
as alternativas para os problemas que deram origem à norma, não soube dizer. Ajustadas
as proporções, creio que ainda se aguardam as sensatas contribuições que o
Conselho Federal de Medicina possa dar aos debates políticos do setor.
A este propósito, interessante
notar que antes das prolíficas manifestações populares que envolveram o país
nos últimos meses, não se viam os médicos saírem às ruas para protestar por avanços
na saúde pública brasileira. Mas alto lá, não sejamos injustos: não só os
médicos, mas também outros grupos historicamente conformistas, tiveram
surpreendentes surtos de militância nos últimos meses, embelezando a estampa
das manifestações que tomaram as ruas do Brasil. A praça é do povo, como o céu
é do Condor, mas doravante há de se delimitar uma área VIP, com sombra e água
fresca pra quem não está acostumado ao calor de 40° do sol de todos os dias.
É cômodo pegar o bonde já em
movimento: às vezes, não se trata de lutar por melhores condições de vida para
todos, mas de garantir a manutenção da reserva de mercado já existente. Não há
novidades; é postura típica dos caras-pálidas das superiores castas tupiniquins,
de que a maioria dos médicos é uma pequena parte, não o todo.
“Minha terra tem palmares
onde gorjeia o mar (...)
Minha terra tem mais ouro
Minha terra tem mais terra”
(Oswald de Andrade)
O todo é a mesma elite, por
exemplo, que se diz vítima de preconceito porque não se enquadra em nenhuma
cota instituída pelo governo. A reclamação, a bem da verdade, tem fundamento:
quem sempre teve a cota total dos privilégios, públicos e privados, não vai
mesmo gostar de dividir o espaço com essa gente pobre, negra e deficiente que se
cansou de Palmares e quer tomar o Brasil. E imagina quando, das universidades
públicas brasileiras, começarem a sair bacharéis com cara de empregada
doméstica, com cara de escravo, com cara de cubano, com cara de Brasil. Você
sabe com quem está falando? Vai ficar mais difícil saber.
Pensando bem, solidarizemo-nos
com as alvas criaturas que terão seus empregos usurpados pelos doutores estrangeiros.
Tadinhos! Deve ser mesmo muito difícil ser “bem nascido” num país excludente
como o nosso. São as lamúrias de uma elite que pensa que é dona do Mundo – e do
Brasil, por extensão.
Hendye Gracielle
(tentando aprender com
Oswald de Andrade a não ter medo de polêmica)
sábado, 27 de julho de 2013
Crônica de Viagem: Paraty é uma festa!
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| (Desenhos surrupiados de Troche) |
A gente conhece os vícios
de uma pessoa pela sua maneira de se comunicar com Deus. Já contei em crônica
anterior o efeito do tempo em que fui quase uma workaholic, e me surpreendi
fazendo uma oração burocrática, neste estilo: “Prezado Deus, favor proteger
toda a minha família. Gentileza relevar as falhas, que serão oportunamente
retificadas. Certa de sua compreensão, desde já agradeço, amém”.
Na viagem que fizemos
neste mês a Paraty, eu e meus amigos percorremos mais de dois mil quilômetros
de carro, revezando-nos na direção. Saí de Montes Claros dirigindo, e na
primeira parada foi a vez do Macho Jurubeba (que vocês já conhecem de linhas
passadas) assumir o volante. Antes de dar a partida, não ficamos surpresos ao
vê-lo fazer o sinal da cruz, mas não esperávamos pela concisa oração que ouvimos
em seguida: “#PartiuComDeus”! Isto mesmo, com todas as letras e caracteres:
“hashtag-partiu-com-Deus”! Quanta modernidade para um Macho outrora Jurubeba de
raiz! Descobrimos então que nosso amigo tornara-se um adicto das redes sociais.
As gargalhadas inundaram o carro, mas na hora me veio uma dúvida, que não
verbalizei para não ser também alvo das veementes chacotas dos amigos: será que
Deus curtiu?
Chegando a Paraty, pegamos
uma estrada vicinal que levava à Vila de Corisco, onde nos hospedamos. Após
transpor 5 km e 27 quebra-molas – alguém se deu ao trabalho de contá‑los –
chegamos à Pousada, que logo apelidamos de “Casa da Bruxa”, em decorrência de
seu aspecto ecológico-esotérico-filme de terror. Passamos pela recepção e a
mocinha nos explicou que a entrada para nosso chalé era pela rodovia mesmo; a
trilha interna estava intransitável, porque não dera tempo de limpá-la (fizemos
reserva com três meses de antecedência, mas achamos melhor não abordar este
detalhe). Perguntamos então qual era a chave para abrir a garagem, ao que a
recepcionista respondeu: “Ah, é só meter a mão e abrir”. Opa, agora sim nós nos
sentimos efetivamente no estado do Rio de Janeiro, né não, malandragem?
Metemos a mão no portão,
estacionamos, entramos no chalé, e logo ao chegar observamos várias velas sobre
a mesa, prontas para o uso. Primeiro achamos que se tratava dos preparativos
para algum ritual macabro; mais tarde a energia começou a oscilar, e entendemos
que as velas estavam ali para serem a nossa luz, caso a elétrica faltasse.
Felizmente nada disso aconteceu – nem a falta de energia, nem o ritual macabro
-, e as velas permaneceram intocadas, prontas para assustar as próximas
vítimas, digo, os próximos hóspedes incautos.
Considerando que um de nós
ainda não conhecia o mar, programamos um passeio de barco para o dia seguinte. A
bordo da escuna, passamos a tarde toda só na alegria: cerveja gelada, comida
gostosa, música ao vivo, ilhas paradisíacas (todas particulares, que pudemos
ver, mas não tocar!), mergulho em alto mar. “Mas essa água é muito salgada!”,
exclamou o meu amigo para quem o oceano era inédito! Mas tudo – inclusive a
inocência – tem um preço! No final da tarde chega a conta para pagarmos, e cada
um de nós saca confiante o seu cartão de crédito, milagrosa máquina do tempo
que transforma as dívidas de amanhã nas delícias de hoje! Mas há dias em que o
milagre falha: descobrimos que o barco não aceitava cartão. Na empolgação
etílica em que nos encontrávamos, tentamos resolver discretamente a questão: um
gritou que tinha trazido onze reais e cinquenta centavos, a outra disse que ia contar
as moedinhas da bolsa, a terceira se ofereceu para lavar os pratos, soluções
bastante criativas para se pagar uma conta de três dígitos! As coisas se
resolveram quando voltamos ao cais, e propusemos ir ao banco sacar dinheiro, o
que a dona do barco só aceitou caso um dos tripulantes nos acompanhasse até lá.
Porque “a gente confia, mas não custa prevenir”. Concordamos inteiramente, com carinha
de pessoas honestas (que somos) preocupadas com as vigarices que assolam o
país.
Para superar a pecha de
golpistas acidentais, vestimos a carapuça de “meio intelectuais meio de
esquerda” e fomos para a FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty (nossa
amiga Coração Gelado diria que fomos “fingir cultura”, mas isso seria pura
inveja por ela não estar lá). As Festas Literárias são lugares interessantes
porque propiciam que estejamos todos ocupando os mesmos espaços e celebrando em
comunhão: nós, apaixonados por literatura; os autores de sucesso, como Ferreira
Gullar, Xico Sá, Nicolas Behr e outros que perambularam por lá; e artistas
anônimos, que ficam pelas ruas tocando seus instrumentos, vendendo seus
livretos, declamando poemas e cantando, respeitosamente, as mulheres. Numa
madrugada improvisamos um sarau na praça – na verdade foi uma algazarra de
vinhos bebidos no gargalo e poemas declamados pelas metades, mas vamos chamar
de sarau, que é pra elevar o espírito. Não sei se atraídos pelo lirismo dos
versos ou pela euforia do álcool, alguns poetas vieram ter conosco. Educada que
é, nossa camarada Madê foi delicadamente cumprimentar um deles, “Muito prazer”,
ao que ele respondeu, “prazer ainda não tivemos, meu bem”. Ênfase no “ainda”, tratava-se
de um poeta esperançoso. Outro deles, inquirido sobre suas atividades
habituais, declarou que escrevia poemas, ilustrava livros e fazia filhos; deve
ter sido bastante frustrante que nenhuma de nós tenha se interessado em experimentar
as habilidades que ele, com tanta convicção, afirmava ter.
Mas nem só de esculhambação
se faz uma viagem literária. Houve também momentos de tietagem erudita em nossas
aventuras. Conseguimos autógrafos do Milton Hatoum (mediante promessas de
favores sexuais para uma das recepcionistas) e nosso amigo viciado em internet
tirou foto e fez check-in na Adriana Calcanhotto – virtualmente falando, é
claro! A única tristeza que guardo é a de que os nossos planos infalíveis de
levar a Maria Bethânia ou o Xico Sá para um jantarzinho em nosso chalé tenham
falhado. É pena, mas fica como expectativa para uma próxima edição da FLIP. Nossos
delírios não conhecem o limite do improvável: Paraty é uma festa sem fim!
Hendye Gracielle
![]() |
| (A FLIP é uma loucura!) |
***
Leia também a outra parte – em outro estilo – de minhas aventuras de
julho: “Viagem
a São Paulo – relato épico de nossos poucos dias”.
A expressão “Meio intelectual meio de esquerda” está na crônica “Bar ruim é lindo, bicho”, do Antônio Prata, o cronista de nossa geração. Leia na pág. 30 do livro homônimo, ou então aqui: http://blogs.estadao.com.br/antonio-prata/bar-ruim-e-lindo-bicho-1/ .
Abraços efusivos aos meus
leitores invisíveis!
terça-feira, 23 de julho de 2013
Viagem a São Paulo – relato épico de nossos poucos dias
Assim qual escuro
alfanje a nadadeira dos imensos cações passará ao lado de tuas antenas de
televisão; porém muitos peixes morrerão por se banharem no uísque falsificado
de teus bares. (...)
Canta a tua última
canção, Copacabana!
(Rubem
Braga – crônica Ai de ti, Copacabana)
Ai de mim, que não conheço Copacabana. E
fui encontrar Rubem Braga em São Paulo – cidade antípoda de seu lirismo crônico
–, pelo acaso de um passeio literário, escondido no Museu da Língua Portuguesa,
em exposição que forrou de jornais antigos o primeiro andar do prédio moderno,
e forrou de acalantos novos o primeiro vão de meu antiquado coração.
E deixei de conhecer o sol e o mar do Rio
de Janeiro, e troquei-o pela oportunidade de banhar-me na garoa cinzenta de pecados
e prestígios da cidade de São Paulo; e mesmo tomando o caminho contrário de seu
habitat, acabei encontrando o cronista, e revi-o em vídeos, fotografias, livros
e sonhos.
E mesmo tendo partido para tão longe, ainda
assim não pude fugir de mim mesma. E afastando-me mil quilômetros de meu
cotidiano norte-mineiro, acabei por voltar a Montes Claros, numa crônica do
velho Braga, por acaso folheada nos livros em exposição. E esta crônica citava
também Cachoeiro do Itapemirim, terra natal do escritor. E emocionei-me de que
estivéssemos ali todos juntos, eu, minha cidade, o cronista, sua cidade, e São
Paulo, que foi o porto agregador dos rios de concreto desta viagem sentimental.
E saindo do prédio, e voltando à rua, e
deslumbrada pela altivez da Estação da Luz, e querendo atravessá-la de ponta a
ponta, entrei pela porta da opulência, defronte ao castelo encantado da
Pinacoteca do Estado, e saí inadvertidamente pela porta da decadência; e, não
sei se por distração ou por ingenuidade, não reconheci que havia ali mulheres
de vida amarga e corpos postos em liquidação. Ai de mim, que nada conheço desta
vida.
E indiferente às agruras desses habitantes submersos
em fumaça, confortei‑me na companhia de pessoas queridas de minha vida, e vagamos
pelas ruas do centro da cidade, em noite quase deserta, fascinados pelas
construções dos primeiros séculos de sua existência; e sambamos pelos bares e
botequins da Vila Madalena, em cuja boemia mergulhamos intrepidamente; e nos perdemos
pelas avenidas labirínticas e viadutos medonhos; e perambulamos pelas vias
subterrâneas de trilhos e estações, por prestigiados museus e livrarias da
Avenida Paulista, pela metrópole hipnotizante, com seus edifícios que tocam o
céu e seus miseráveis ao rés-do-chão.
Ai de ti, cidade de São Paulo, cosmópole deslumbrante
de infortúnios e iniquidades e contradições; e ai de mim, porque me fascinas e
me comoves ao infinito.
Hendye Gracielle
![]() |
| (Desenho de Gevasio Troche) |
PS.: Na próxima semana, "Viagem a Paraty - relato lúdico de nossos poucos dias".
domingo, 28 de abril de 2013
Por que participo? - Crônica da luta cotidiana
“Faz escuro mas eu canto"
(Thiago de Mello)
Não tenho a
ilusão de ver os meus ideais triunfarem neste mundo de indelicadezas e
absurdos. Não tenho ilusões, entretanto luto.
Se não se pode
consertar o mundo, pode-se mudá-lo. Se não se pode mudar o mundo, pode-se melhorá-lo.
Se não se pode melhorar o mundo, pode-se melhorar a si mesmo. Se nada disso for
possível, pode-se ao menos tentar. Tentar já é mais que não tentar, sendo, por si
só, uma pequena vitória.
São as pequenas
vitórias que têm tornado o mundo possível. Para todos, embora resultem do
esforço de poucos. Impedir alguma injustiça é uma pequena vitória. Colaborar
para alguma mudança é uma pequena vitória. Evitar um mal maior é uma pequena
vitória. Respeitar e fazer‑se respeitar são pequenas vitórias. Agir conforme os
valores nos quais se acredita é uma pequena vitória, e pode ser a maior delas.
Minha luta é
coletiva. Minha responsabilidade, entretanto, é individual. Meu compromisso
maior é comigo mesma: com meus próprios valores.
Meus valores de
respeito à vida não me permitem ignorar o fato de que todos os dias indivíduos
morrem e se acidentam a serviço da empresa em que confortavelmente trabalho.
Meus valores de justiça social não me permitem aceitar que muito dinheiro tem
sido dividido entre poucos, que no mundo nada criaram e ao mundo nada legarão. Meus
valores de generosidade não me permitem aceitar que um serviço essencial à
sobrevivência humana seja prestado com cada vez menos qualidade. Meus valores
de respeito à dignidade humana não me permitem ficar indiferente sabendo que há
colegas e ex-colegas sendo prejudicados; eu me importo, ainda que não seja
comigo. Meus valores de solidariedade não me permitem deixar que poucos lutem,
sem a minha colaboração, por uma causa que é de todos.
Por isso eu
participo desta e de outras lutas. Participo porque, para mim, não existe outra
opção possível que não seja fazer o bem. E fazer o bem é, também e sobretudo,
não se omitir.
Para que o mal triunfe,
basta que as
pessoas de bem permaneçam
inertes.
(Edmund Burke)
![]() |
| Este poder! (Pra variar a ilustração, charge do Henfil) |
domingo, 3 de março de 2013
O mar à noite (A costura do mundo)
Um mês sem crônica nova deveria
render algum assunto, certo? Afinal de contas, foram férias em Tiradentes, fim
de semana em Belo Horizonte, rocambole em Lagoa Dourada e carnaval em Salvador.
Vários dias de viagem, e chegando em casa é que descubro o mote para a crônica:
- Ela, esfregando os olhos: “acho
que coloquei uma das lentes pelo avesso.”
- Eu, engraçadinha: “Por que, tá
vendo a etiqueta?”
- Ela, metafísica: “Tô vendo a
costura... a costura do mundo”.
Cecília Meireles escreveu uma crônica
que diferencia o turista do viajante. A poeta afirma-se viajante. Nada de
fotografias desembestadas, guias verborrágicos, pontos de visitação obrigatória,
5 continentes em 3 dias – tudo isso é coisa de turista. O turista faz um apressado
passeio pela superfície. O viajante calmamente se aprofunda. O prazer do
viajante é a contemplação. Ver a costura do mundo, daquele pedaço de mundo
novo, que é o destino da viagem.
Tem gente que é turista em
qualquer lugar do planeta, até em casa. Tem gente que é eterno viajante. Gosto
de me imaginar viajante, embora seja turista de carteirinha, máquina
fotográfica dependurada no pescoço, mochila nas costas, guia quatro-rodas sempre
à mão. Sou turista, admito, mas tenho meus momentos de viajante, de desejar sentir
os lugares, mais que visitá-los; de querer me integrar à cidade como se eu fosse
um dos seus. Às vezes dou sorte: numa breve coincidência, num ligeiro acaso,
numa oportunidade fugaz, é possível transpor o tecido da cidade, esgueirar-se
pela malha do lugar, chegar ao avesso, ver a costura do mundo. Parece
complicado, mas sói acontecer numa breve sensação, num comentário, em algo que
por acaso se ouve ou se vê. Por exemplo, em Salvador.
Primeiro dia de viagem, éramos
quatro amigas sentadas na última mesa da ponta da praia. A moça da barraca, ao
final do dia inteiro de trabalho, já de tardezinha, não quis me vender uma água
de coco. Reparando em sua expressão, suspeitamos que o motivo era preguiça de
ir buscar o coco no bar para o qual trabalhava, que ficava relativamente longe
de nossa mesa. Perguntamos se era esse o motivo, ela sorrindo confirmou: era
preguiça mesmo. Sorrimos também, e não pudemos nos zangar com a situação. Enxergamos
nisso a costura do lugar, a trama daquele mundo que estávamos visitando – a Bahia
de uma preguiça gostosa que não tem vergonha de se revelar.
Mais tarde, vimos o sol se pôr
nesta mesma praia, já quase deserta. Depois a noite caiu rápido, no local não
havia nenhuma luz exceto a da lua e das estrelas. Em vez de irmos embora, entramos
novamente na água e vivenciamos o passeio pelo avesso, com a grata surpresa de
um prazer inesperado. A água morna, as ondas mansas, o mar despovoado e de
repente todo nosso!
Desconfio que só porque ousamos
deixar de ser turistas em Salvador é que o mar teve a generosidade de nos
revelar seus caprichos insuspeitos e suas delícias noturnas. Aquela ponta de
praia era o ponto extremo do nosso velho mundo, dali em diante a viagem começava,
o mundo era outro, novo e encharcado, no qual mergulhamos pra que a água salgada
molhasse em nós tudo o que fosse corpo. Aí a água do mar foi além: saímos com a
alma lavada.
Essas e outras as boas lembranças
da viagem a Salvador.
Hendye Gracielle
domingo, 3 de fevereiro de 2013
Quando a gente chega numa certa idade...
Meu amigo ia dizendo, ao me ouvir
reclamar da balança: “Quando a gente chega numa certa idade...”. Interrompi-o
imediatamente! Nem sei exatamente qual
seria a constatação ou o conselho, mas eu não admito, sob nenhuma
circunstância, que me incluam nessa faixa etária periclitante, que é a tal da CERTA
IDADE. E sei que “a gente” foi só uma forma polida de dizer “você”, porque o
meu amigo é um cavalheiro, apesar deste deslize acachapante.
Alto lá, meu amigo! Se me dizem
que eu estou na IDADE CERTA, pode até ser que eu aceite, ainda assim com ressalvas
– sempre aparece algum engraçadinho para fazer aquela pausa misteriosa
(misteriosamente cretina) e, em seguida, complementar a frase com uma piada
irritante. Imagina se me saem com algo como “idade certa pra arrumar um marido”?
Eu, ein! O mais seguro é não colocar as palavras “IDADE” e “CERTA” na mesma conversa,
seja qual for a ordem dos fatores.
Se IDADE CERTA pode ser ruim, CERTA
IDADE é sempre pior. UMA CERTA IDADE é a idade das trevas. Essa CERTA IDADE não
se conta em anos, mas em quantidade de vezes que se vai ao médico, ao bingo ou
às profundezas do ser. Dizer que fulano chegou NUMA CERTA IDADE, é dizer que neste
exato momento ele está lascado, independente de há quantos anos ele tenha
nascido.
Não é simples questão de cronologia.
Absolutamente! Conheço pessoas com várias décadas de existência, mas que não
chegaram nessa CERTA IDADE. E também o contrário, pessoas para quem a CERTA
IDADE chegou espantosamente cedo, antes mesmo de aprenderem todos os 576
significados da palavra relacionamento – incluindo aquele que é sinônimo de “pensar
mil vezes antes de falar”.
Tentar explicar qualquer
infortúnio pelo fato de ter chegado a UMA CERTA IDADE é o mesmo que atribuir
qualquer mau humor à TPM. Se o rapaz está nervoso, é estresse do trabalho, do
trânsito ou peso das responsabilidades mundanas. Se a moça está nervosa, é TPM.
Aprendam, marmanjos insensíveis, que há palavras que são
verdadeiras granadas, cujo manuseio deve ser estudado friamente, sob pena de se
perder um braço (ou outro membro mais estratégico) ao empregá-las erroneamente.
Temeridade máxima: colocando TPM e CERTA IDADE na mesma frase, corre-se o risco
de perder a própria vida.
Quanto ao meu amigo do início da
história, quase sempre delicado, mas que pronunciou aquela frase tão infeliz, peço
desculpas se me excedi na reprimenda. É que cheguei numa certa idade em que já
não levo desaforo pra casa...
Hendye Gracielle
sábado, 19 de janeiro de 2013
Carta do Jorge - Minha paixão foi por um triz
Cara Hendye, amiga tão distante e tão querida,
Apenas hoje, meados de janeiro, escrevo
a carta que lhe prometi para o iniciozinho do ano, tão logo cessasse a
pirotecnia histérica que marca as transições em geral. As luzes de 2012 se
apagaram, os ventos de 2013 já sopram quentes, e apenas agora me senti disposto
a escrever-lhe. Isso comprova que, apesar das promessas natalinas de sermos
pessoas melhores, o novo ano em nada altera o nosso espírito procrastinador,
nossa mania brasileiríssima e humaníssima de adiar tudo que for possível, e às
vezes o impossível também.
Nem bem o ano se iniciou, andei
cansado de estar só neste mundo invisível. Pra passar o tempo, e arrumar alguma
diversão, inventei para mim uma paixão. Pensando que seria uma experiência facilitada
e amena, quanto me enganei! Fui brincar com o vento, entrei num torvelinho do
qual não soube fugir. Breve, mas intenso: apaixonei-me, entreguei-me, fui feliz,
e a vida então nos afastou, sem aviso e sem traumas. Fascinante: como um
encontro de liberdades que andam soltas pelo cosmos, e em algum ponto de sua
trajetória imprevisível acabam se tocando e, logo em seguida, se distanciando,
para nunca se cruzarem novamente.
Sendo você minha confidente única
– e predileta! –, conto o que se passou entre mim e aquela que enfeitiçou os
meus sentidos. Pra tentar explicar (mentira: pra que eu tente compreender) o
que aconteceu.
Contando os dias, vejo que nosso
encontro foi uma primavera: nenhuma ilusão além. Reparando bem, nossa história
foi verso, anverso e avesso – uma eternidade de agora. Haicai escrito de nuvem.
Um disco que não virou, eterno lado B de amores impossíveis. Um dia de muitos
anos. Um curta-metragem que começasse pelo fim.
Nosso caso foi urdido no silêncio
da madrugada.
Logo se acabou: em nota de rodapé,
na melancolia displicente de um telefonema, na pressa de um amor do fim dos
tempos, na curva do infinito.
Findou-se, mas deixou em mim a
beleza deste encontro de almas, e estou certo de que, mesmo separados, não
seremos mais as mesmas criaturas que fôramos antes.
Pelo que conto de minhas
incursões sentimentais, você vê que, afinal, não há grandes diferenças entre a
minha vida imaginada e essa tal vida real. Essas peraltices amorosas afligem igualmente
os corações humanos e aqueles que, como o meu, são feitos apenas de sonho.
Mande notícias suas e deste seu
mundo louco, que faz o meu parecer uma inofensiva brincadeira de criança.
Abraço carinhoso,
do sempre seu amigo,
Jorge
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
Feliz aniversário pra mim! (ou A Origem das Palavras)
Penetra surdamente no reino das palavras.
Drummond

Comemoramos essa semana meu 26º
aniversário. Um quarto de século ficou definitivamente para trás, e agora me
sinto assustadoramente perto dos trinta. Nessa entressafra etária, surpreendi-me
meditando sobre a vida; não sobre grandes feitos, até porque não os há em minha
parca existência, mas sobre pequenos acontecimentos que ajudaram a fazer de mim
essa (esquisitice) que sou. Nisso acabei descobrindo que algumas simples
palavras têm lugar carinhoso nas pequenas memórias de minha vida.
Nem só de livros se constrói o
léxico sentimental de uma criatura como eu. Os amigos queridos são fonte
inesgotável de conotações, denotações e, por que não, chateações sintáticas. Já
fui xingada de culta pela Coração
Gelado, e elogiada de pedante pela
querida Pratinha. Meu amigo Johnny me falou uma vez sobre os perdigotos, e um mundo de gotículas de
salivas saltitantes se descortinou para mim. A propósito, eu sempre duvidei da
verdadeira existência da palavra perdigoto,
até o dia em que li uma citação acadêmica sobre os perdigotos de ninguém menos
que Drummond! Desde então eu passei a enxergar com mais lirismo as salivinhas brilhantes
que as crianças expelem ao assoprar a vela do bolo de aniversário. Que a
gente come depois!
No emprego de burocrata que ocupo
desde os dezenove, aprendi também umas e outras, quase sempre palavrinhas
insossas como diligência e contingência (monótonas até na rima). A
turma do trabalho é que me salva do tédio vocabular. Os colegas inventaram para
mim a classe gramatical dos diminutivos bilíngues: chamam-me Pequena Little Hendyezinha, quando, por
algum motivo inescrutável, desejam me agradar. O mais comum, entretanto, é que me
aborreçam para se divertirem, e com essa finalidade eles me atribuíram a
alcunha de Hendyslaine Stefanelle, conseguindo
superar minha própria mãe na (duvidosa) criatividade dos nomes próprios.
Mas se minha mãe não foi lá muito
feliz na escolha do prenome – digo isso aguardando a justa reprimenda materna
que virá –, na formação do meu caráter ela foi sensacional. Perdoem se me
excedo na imodéstia, mas é apenas em reconhecimento filial que digo: a educação
que mamãe me deu é irrepreensível. Mais que palavrinhas bonitas, ela me ensinou
valores, me ensinou respeito, me ensinou generosidade, e, de quebra, me ensinou
Chico, Caetano, Elis. Só não me ensinou a cozinhar, de modo que palavras como
gratinar, escumadeira, marinar, banho-maria, flambar, caçarola, são para mim
tão incompreensíveis quanto as mais herméticas concepções filosóficas pós-modernas.
Não posso me esquecer dos
vocábulos marcantes que me vieram pelos livros, repositório mágico da palavra
escrita. O Pequeno Príncipe, por exemplo, indo-se embora de um dos planetas que
visitou, ensinou-me o verbo evadir:
“aproveitou, para evadir-se, pássaros selvagens que emigravam”, é o trecho que
sei de cor. Apesar da origem pueril, mais tarde a palavra perdeu o encanto,
pois topei com ela várias vezes nas lições de Direito Penal, cujo código mais
parece um compêndio das mil e uma maneiras de um infrator se evadir, sendo o habeas corpus a menos emocionante delas.
Ainda na incipiência de minhas
incursões literárias, aprendi com Agatha Christie o verbo pigarrear e outras palavras de similar elegância. Em suas
histórias, bandido, mocinho, vilão, ninguém começa sequer uma frase sem antes
pigarrear, solenemente. Nesses romances policiais ingleses aprendi também os
mais elevados hábitos de civilidade: os assassinos matam sempre com muita
polidez, e as vítimas morrem com uma pontualidade britânica.
A vida foi se complicando, e as
leituras tornaram-se menos inofensivas, mas sempre irresistíveis. Com Drummond
a poesia entrou no meu mundo, descobri o lirismo de Minas, da melancolia e da metalinguagem, e coisas tão díspares me pareceram igualmente
deslumbrantes. Com Fernando Sabino descobri que se chamava angústia aquele sofrimentozinho que me doía a alma desde sempre.
Com Manuel Bandeira descobri que essa tal de angústia não tem cura. Com Augusto
dos Anjos, percebi que o que não tem cura é a própria vida. Mas a gente vive, e
acha bom, enquanto houver literatura (e cerveja) pra anestesiar.
Foi este o assombro dos meus vinte
e seis anos: além de carne e osso (e, vá lá, algumas células adiposas), sou
feita também de palavras. Palavras que me vêm dos amigos, dos livros, da
família, dos amores, da escola, do samba, do cinema, do rock, do cotidiano, do
mundo. Que venham sempre muitas mais, palavras novas ou renovadas ou inventadas
ou reinventadas, e por ainda muitos anos.
Feliz aniversário pra mim!
Hendye Gracielle
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domingo, 11 de novembro de 2012
Já temos idade pra morrer de amor
Não se afobe não, que nada é pra já
O amor não tem pressa, ele pode esperar
Em silêncio
(...)
Não se afobe não, que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá, se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia deixei pra você
(Futuros amantes
– Chico Buarque)
Estimado amigo imaginário,
Chegou-me ontem a carta sua, remetida aí das
cercanias do inexistente, contando sobre as aflições sentidas pelo coração. Respondo
apenas hoje, porque primeiro deixei-me impressionar pelas suas palavras de
desencanto, para só depois articular ideias que pudessem alentá-lo dos
desenganos da alma.
Na breve correspondência, você conta ter lido “O
amor no tempo do cólera”, do Garcia Marques. Sua conclusão é de que na história
não havia amor, apenas personagens resignados e possessivos. E medita se seria
possível um amor irrealizado que durasse, como no livro, 51 anos, 9 meses e 4
dias, sem que nada se fizesse para matá-lo, ou para finalmente fruí-lo. Num
arroubo de escapismo, você proclama que, doravante, lerá apenas os clássicos
infantis, onde a felicidade é sempre inesgotável. Sente-se por fim angustiado,
“com um abismo no peito onde o eco não tem fim”.
Meu amigo tão querido, sua aflição é também a
minha. Tenho sentido que a angústia que o oprime não é fruto da história
contada no livro, mas sim de sua própria história, de que o livro foi apenas o
eco que se fez ouvir neste abismo sentimental.
Não se aflija tanto assim. Sofrer com o respaldo
das artes, sobretudo as literárias, é infinitamente menos doído que sofrer
desamparado de todo. A obra que reflete ou revela ou exacerba nossas angústias,
as torna mais agudas, mais cortantes; entretanto, não há dúvida de que as torna
também mais suportáveis. A literatura por vezes é nossa fuga, nosso escape,
nosso alento. A literatura é, no mais das vezes, nossa salvação.
Quanto aos desencontros passionais, aos laços que
se interrompem ainda plenos de afeto, não sou das melhores para conselhos
amorosos, mas uma coisa tenho como certa: não haveremos de fugir do amor; por mais
inconstante que seja, é sempre o que nos redime e nos consola das agruras dessa
nossa existência.
Sua carta de certo modo alegrou-me, pois sempre
conforta saber que não estamos sós em nossos conflitos e contradições. Talvez
sejamos os últimos românticos do século, e já temos idade pra morrer de amor.
Abraços efusivos de sua amiga de sempre, do lado
de cá da fronteira do real - o mundo dos (sobre)viventes,
Hendye Gracielle.
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
Histórias da carochinha: amigos em Diamantina
Hoje vou falar dos meus amigos.
De três, em especial, com quem viajei para Diamantina semana passada. O “Macho
Jurubeba”, o “Cara Leve” e a “Coração Gelado”. Não será necessário descrevê-los
por perfis psicológicos, características físicas, feições morais. A apresentação
será episódica, e logo se lhes conhecerá a alma. Vamos a eles.
O Macho Jurubeba é macho de raiz.
Não tem as grosserias do macho alfa, mas não está sob suspeita como o macho
metrossexual (embora desconfiemos que ele faz a sobrancelha, mas apenas pra
aliviar o peso das pestanas). Ele é fino, mas nem sempre delicado. Ele é engomadinho
e limpinho, mas se for preciso anda descalço e come com a mão. Ele é um
cavalheiro, mas divide a conta do restaurante, por questão de isonomia
constitucional. Ele me censura por usar sacolas plásticas, e pela janela só
joga lixo orgânico, que é pra adubar a mãe natureza (embora eu já o tenha
explicado que no asfalto nada germina). Ele liga para os pais ao sair e ao
chegar. Ele tem um jurubeba móvel, que nos levou até Diamantina. Ele dirige
dentro dos limites de velocidade, porque é cioso de nossa segurança. Por isso é
que, no primeiro dia, só vimos de Diamantina o sol vespertino, conquanto tenhamos
acordado cedo para a viagem. O Macho Jurubeba não se excede em público, porque acha
que tem uma reputação a zelar.
Quase um antípoda do Macho
Jurubeba, temos a querida Coração Gelado, com quem dividi o quarto do hotel. Nem
bem fechamos a porta, ela já espalhou seus pertences pelas três camas
disponíveis, zombando da minha necessidade de organização, com seu peculiar: “ah,
você é trouxa!”. Com ela no quarto, tive de dormir com o barulho da TV e
acordar com o barulho do celular – na sonolência pensei que tinha sido abduzida
por uma discoteca voadora não identificada, mas depois descobri que era só o
despertador. Nisso tudo, ela nem se abalou, e só depois que eu carinhosamente
arremessei o aparelho na sua direção é que Coração Gelado acordou, e ainda me desejou
“bom dia!”. “Bom dia pra quem?”, foi a minha resposta mental, entre outros pensamentos
impublicáveis.
Coração Gelado não tem frescura,
porque frescura é coisa de trouxa. Privacidade é frescura. Guardanapo é
frescura. Higiene é frescura. Alimentação saudável é o ápice da frescurice. De
manhã, enquanto tomávamos suco, frutas e biscoitos, Coração Gelado bebia um
copo duplo de café, frituras e presunto. “Come fruta, Coração Gelado!”, nós lhe
dizíamos. “Que frescura é essa de fruta? Fruta é pros fracos. Fruta pra mim é
presunto!”. E quem tentará convencê-la do contrário?
Coração Gelado às vezes quase põe
tudo a perder. Como no domingo de manhã, feira ao ar livre, artesanatos à venda.
Interessamo-nos por um presente que custava quinze reais, e resolvemos
pechinchar. Eu habilmente tentando conquistar a simpatia da vendedora, que já estava
quase se apiedando da minha pindaíba, quando ouvimos uma voz seca, com sotaque
meio paulista, dizer de forma arrevesada: “Dez paga, né”? Era Coração Gelado se
pronunciando. Nós nos entreolhamos todos, com cara de “ein?”. A vendedora não
entendeu uma palavra, e Coração Gelado repetiu, sem reformular a frase: “Dez
paga, né”? Só faltou dizer “mano”.
Foi o Macho Jurubeba, que é
também o rei da lorota, que veio em nosso auxílio, sugerindo à vendedora que
não se importasse não: “Coração Gelado é assim mesmo, está achando que aqui é a
25 de março; desde que veio de São Paulo ela ainda não aprendeu outro
vocabulário mais amistoso”. Com algum esforço e muito jeitinho, garantimos o
nosso desconto, e o dela também.
Enquanto isso, o Cara Leve estava
de longe, se rasgando de rir da situação, o que, no seu caso, significa movimentar
de leve os lábios num sorriso silencioso, sem se alterar. Mas daí não se
conclua que ele seja enfadonho. Pelo contrário, o Cara Leve é divertido,
perspicaz, incisivo, cheio de graça – embora não pareça. Sua leveza deve estar
escondida na alma.
O Cara Leve tem a voz tranquila,
de modo que nunca se sabe quando está brincando, brigando ou simplesmente
bocejando. Sua expressão facial não se altera nem em situações extremas, como
quando o esganei para a fotografia. Revelada a foto, suspeitei que fosse botox,
mas a verdade é que a leveza o deixa sempre com o rosto plácido. O Cara Leve
foi nosso guia na viagem, e logo na primeira tarde nos fez caminhar meia
maratona atrás de uma festa de universitários, da qual desistimos na penúltima
ladeira porque, ao contrário dele, nós não somos tão leves assim.
Mas o Cara Leve nunca incomoda a
ninguém, nem quando deseja ser atendido: no carro, pediu-nos gentilmente que
colocasse um CD de que ele gosta, e depois de ouvir compenetrado uma meia dúzia
de músicas, nos disse com muita leveza: “já estou satisfeito, obrigado, pode
trocar o CD se você quiser”. É preciso admitir que eu, com tanto peso (mais no
corpo e demais na consciência), queria mesmo era ser leve assim.
Até para fazer chacota o Cara
Leve é leve. Ao ver uma fotografia na qual eu estava usando um pijama meio
infantil, em vez de rir-se de mim, como os outros fizeram, ele muito calmamente
disse algo como: “ah, é um pijama muito lúdico, deve ser quase como dormir com
o patati ou o patatá.” (Talvez tenha vindo daí a vontade de esganá-lo).
Se conto todas essas barbaridades
dos meus companheiros de viagem, imagino que eles tenham muitas mais a contar
de mim. Ainda bem que esse espaço não é democrático, e fica valendo a minha
versão irrefutável dos fatos. Para compensar, deixarei fluir o arroubo de
sentimentalismo que me acomete, ao falar dos meus amigos (quase sempre)
queridos: eles são insubstituíveis, e nossa amizade não tem preço. “Dez paga”?
Hendye Gracielle
domingo, 21 de outubro de 2012
Show do Chico - Parte 3 (final)
Chico é antigo e sempre novo. No show,
músicas recentes foram intercaladas aos clássicos, melodias consagradas
em harmonia com arranjos moderninhos. Ao longo da noite nos deleitamos ouvindo
todas as canções do novo álbum, “Querido Diário”, “Rubato”, “Nina”,
“Barafunda”, “Sinhá”, “Sem você 2”...
Eu ainda não quis saber quem é a lambisguete que está namorando
Chico Buarque, mas o blues “Essa pequena” e a balada “Se eu soubesse”
entregaram: ele está apaixonado! Dessas paixões que nos deixam bobos, ridículos
como as melhores cartas de amor: “E aí,
larará, larará, liriri...”
Chico é apaixonante!
O samba também estava lá, com cara de CD novo. O músico Wilson
Neves foi cantar com Chico o dueto “Sou Eu”. Tinha cara e jeito de malandro, e
uma voz de sambista que quase apaga o miadinho frouxo de Chico. Mas a
combinação deu certo, e com tanta naturalidade passaram ao “Teresa na Praia, não é de ninguém, não pode
ser minha, nem sua também” que eu já não sabia se estava em Sampa ou no
Rio, no fino da bossa em Copacabana.
Chico é carioca!
Do alheio, além de “Teresa na Praia”, Chico cantou a versão do rapper
Criolo para a música “Cálice”. Foi, digamos, inusitado. Na sequência teve
arranjo rock and roll para a música Baioque. “Quando choro é uma enchente surpreendendo o verão / é o inverno, de
repente, inundando o sertão”.
Junto com “Geni e o Zepelim”, foram os momentos mais agitados do
show. Eu devia estar muito hipnotizada, porque Chico cantou “joga bosta na Geni”, e eu achei lindo!
Estava tudo lindo naquela noite.
Chico é lindo!
Também não faltou o desespero elegante das personagens sofridas de
Chico Buarque. “Chorei, chorei, até ficar
com dó de mim / E me tranquei no camarim / Tomei um calmante, um
excitante, e um bocado de Gim”.
Combinou com o bolero “Sob medida”, quando olhou bem nos nossos
olhos e cantou: “Eu não presto, eu não
presto”. Eu vi cretinice nesse olhar.
Chico é cafona!
Mas Chico Buarque arrebatou a pequena multidão que o assistia, e
arrebentou comigo, foi nos momentos em que cantou as delícias de outrora,
criadas no tempo da delicadeza.
Foi sublime, foi etéreo, foi inebriante. Ou no meu português
corrente: foi de lascar!
“O meu amor”, “Desalento”, “Futuros amantes”, “Teresinha”, “Anos
Dourados”. Naquela noite eu ouvi muitas das canções que inundam meu coração,
canções que me despertam e canções que me acalentam.
“Parece que dizes, te amo,
Maria / Na fotografia, estamos felizes”. Veio a emoção, o choro contido,
minha alma se abriu por inteiro. Uma mão querida providencialmente tocou a
minha, entrelaçamos os dedos, nessa hora eu me salvei e me perdi...
Chico é emocionante!
São Paulo, sexta-feira, 06 de abril de 2012. Eu fui feliz!
***
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